Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

A comida não nos sai da cabeça

1.
Casas e pessoas.
Parece haver casas e pessoas que jamais escaparão a um desígnio malfadado.

A casa deste relato é um edifício desenhado e erguido para multiusos: estação de caminho-de-ferro, serviços de apoio e pernoita de passageiros.
A rodovia, com a expansão da rede de estradas, subalternizou a ferrovia e o peso estratégico desta na economia reduziu-se até ao abandono de Linhas cuja função social, sendo crucial, jamais foi suplantada pela rodovia, como se tem verificado.

A viúva do chefe da estação da CP teve a possibilidade de continuar a habitar a casa após a morte do marido e o fecho da Linha. Aceitou esse desafio. Não abandonou a localidade como os demais.
Só, cheia de tenacidade, arregaçou as mangas, atirou-se à massa e foi uma excelente confeiteira.
Insuperável na doçaria conventual.

Morreu.

2.
Relatório Preliminar:

O Delegado de Saúde confirmou o óbito de Clementina de Sousa Pavão aos 20 dias do corrente mês de 2009 (Vide Apenso)
Não sendo visíveis quaisquer sinais de violência física, a autópsia determinará as causas da morte, certificando com exactidão, a hora e o dia dessa ocorrência.
O cadáver foi encontrado deitado no chão, de bruços, com sinais evidentes de decomposição o que leva a supor que o rigor mortis ocorreu antes do dia 20.
Os objectos pessoais da vítima encontram-se nos lugares por ela estabelecidos. Não há indícios de devastação ou busca desesperada de algum objecto em particular.
A falecida habitava a casa sem a companhia próxima de qualquer familiar. Praticava um quotidiano discreto. Abastecia-se acompanhada do cozinheiro.
Sempre que recebia visitas, o advogado, o contabilista ou se deslocava à biblioteca cuidava da presença de terceiros.
Desactivada a Linha de caminho-de-ferro e, por omissão, manifestado o desinteresse da REFER pelo imóvel, não tendo podido averiguar esse detalhe, usucapião poderá ser relevante para os esclarecimentos a apurar neste processo.

Inspector Silvestre
(
Assinatura ilegível; Localidade, data.)

3.
Aos costumes disseram mais nada:




HORTICULTOR:
Substituí o sujeito que saiu daqui quando a CP fechou a linha.
Trabalhei com a Senhora de há dez anos para cá.
A clientela dela diminuiu.
Falei-lhe na produção. Deu-me carta branca: os melhores vegetais para ela; o resto, para quem os quisesse comprar.
No dia que encontraram o corpo tinha ido à cidade comprar sementes.
Trouxe uma encomenda para o cozinheiro. Se não fosse isso, ele não tinha ido à paragem dos autocarros ajudar-me.
Não, nunca ouvi falar da casa, de negócios de casas.
Inimigos, não. Amigos, vários. Bem, o advogado esteve sem aparecer muito tempo. Depois a Sra. passou a ir com maior frequência à biblioteca. O contabilista vinha regularmente cá a casa.
Discutir... Acho que não. Não dei conta.
A Sra Eva, não sei quem é.
Saúde: para a idade, era excelente, acho eu.




COZINHEIRO:
Trabalhei com a Senhora, mais de vinte anos.
Respeitei-a como mãe.
Agora não sei o que fazer da minha vida.
Ou eu ou o horticultor tínhamos de estar por ali sempre que recebia o contabilista ou o advogado ou ainda os fornecedores. Uma chatice!
O que é que entendíamos das conversas deles? -- Patavina!
A condimentação da comida, essa sim, era discutida.
Não, nunca ouvi falar da casa, de negócios de casas.
Inimigos, não. Amigos apenas estes e o bibliotecário.
A Sra. Eva, não conheço. Nunca a vi.
Saúde: era "Rija!". É claro, uma constipaçãozinha, uma vez por outra. Venha o primeiro... Nada mais!




CONTABILISTA:
Deixei de ir a casa de D. Clementina a partir do momento que os meus serviços cessaram. Seria inconveniente para ambos.
Curiosamente, pouco tempo antes cessara a minha avença no escritório do advogado. Bem vê, há sempre uma começo e um fim. Acabei por ser compensado. Apareceram clientes na cidade e, agora, é lá que exerço a minha actividade. Ressentido? -- Não! Se me for pedido um conselho não lho recusarei.
A casa não é dela. O bibliotecário falou-me das leituras sobre usucapião. É um sinal. Ela não quer consultar o advogado em branco. Parece-me bem. Ele nem sempre se contém. Quero dizer, se puder tirar partido das situações... Entende?
Eva?... A D. Clementina não tinha familiares.
O bibliotecário e o advogado disputam esse território. O aparecimento da Eva é uma 'cartada'. De qual deles, não sei.
Causas da morte... Eu mal cheguei a acreditar nela. Agora, passados estes dias, gostaria de ler o relatório da autópsia. Sem esse dado não arrisco uma opinião. Lamento!



ADVOGADO:
Eu conservo uma enorme consideração pela D.Clementina.
De uma tenacidade invulgar.
Ficou viúva cedo demais.
Não partiu. Resistiu. Não tinha de provar nada a ninguém. Viveu com dignidade.
Constituiu reputação, respeito e agora queria consolidar património.
Achei bem.
Excelente!
Custa-me saber que os parvos do contabilista e do bibliotecário andam por aí a pensar que a visita da Sra Eva foi patrocionada por mim, para aceder à posse da casa.
Um disparate!
Agora que ela morreu, quem de nós disputará ao Estado aquela propriedade?
Conhece as ligações da Eva ao Estado? -- Eu, não!
Conhece relatório da autópsia? -- Eu, também não! Para quê estar preocupado em provar-lhe onde estive? -- Em casa, evidentemente!



EVA:
Eu sou afilhada do marido da D. Clementina.
Teria vindo mais cedo se não tivesse surgido um contratempo.
Quem adivinharia esta tragédia?
Discretamente, eu percebi a manobra. Tanto o contabilista quanto o advogado e o bibliotecário ansiaram pela minha chegada. Para perceberem o que eu poderei demandar sobre a casa.
Ah! Quero lá saber dela. Nesta terra remota!
Desandarei daqui assim que o serviço fúnebre for concluído!




BIBLIOTECÁRIO:
O registo cadastral daquela propriedade é extraordinário: área da casa mais uma boa meia dúzia de hectares envolventes. Daria uma unidade hoteleira de se lhe tirar o chapéu. Turismo Rural, rende!
O contabilista e o advogado desconhecerão esse potencial?
Bastaria um contrato com a Autarquia, com a REFER ou CP, com quem no Estado tem interesses naquela propriedade. Reconhecido como PIN investia-se e todos ganharíamos. Os clientes, em primeira mão!



RUDOLFO II:
Eu estou feliz!
É uma forma de enaltecer a aristocracia.
Não teria de ser a tradicional, mas também não tão radical.
Afinal, se o meu nariz é uma cenoura e é tão esteticamente relevante, porquê chatear-me?
A comida não me sai da cabeça!

Quanto a eles os três e a disputa da propriedade... é evidente que a morte da Clementina foi um acidente grave, mas natural. Terá morrido de velha. Tem dúvidas? Eu, não! -- Estoirou! Kaput!
O problema deles é que, por uma razão ou por outra, à vez, foram saindo do 'inner circle' da Clementina. Ficaram os quatro sem onde cair mortos. Bom... Ela, morreu... Eles, estuporados, sem se entenderem, sem serem capazes de algo de diferente, de cuidar de uma propriedade daquelas.

Daqui a uns anitos, um tal Edward Hooper há-de pintar um quadro com o título «Casa Ao Pé da Linha de Comboio» como exemplo de desânimo, desolação, fracasso... Verá!

_____________
Off the record:
Ainda sem confirmação oficial, foi encontrada na boca da Clementina a cereja que se encontrava na concha da colher branca que servia de batente da porta da casa.
Esta notícia reforça a ideia de um levíssimo -- Quase imperceptível -- esgar de sofrimento que a facies da vítima insinuava.
Revivalistas da Carmen Miranda ou radicais da Festa dos Tabuleiros de Tomar poderão constituir linhas de investigação das causas da morte de Clementina?
O Inspector Silvestre não quis comentar. Não apenas por ética profissional, mas também porque tinha um rebuçado na boca. Voilá!

____
Nota:
Ilustrações de:
Giuseppe Arcimboldo (1527-1593)
Pintor italiano consagrado em Praga ao serviço da corte de Fernando I e de seus sucessores Maximiliano II e Rodolfo II -- Celebrizado no quadro RODOLFO II pintado como vertumno deus romano das estaões 1590

Quarta-feira, 23 de Dezembro de 2009

FELIZ NATAL, BOM ANO DE 2010 !!!

«Let's face the music and dance!»


Beijos
e
Abraços

Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009

Touch me. It's so easy to leave me...


1.
Se repararem na fotografia, não há qualquer legenda.
Mas, sou eu.
O «Florival»

Esta silhueta inconfundível foi fixada um ano após a minha chegada á casa.
Exercitava as minhas faculdades com esplendor, vigorosa e agilmente. Um alvo que entrasse no meu campo visual era uma presa. Elegante, cheio de suplesse cheguei a descuidar o tratamento dos meus bigodes, blasé, quase diletante.

Esta foto esteve por cima da lareira, no lugar de um cavalo que fora do avô dos meninos.
Mais tarde, deixaram de acender a lareira e a moldura onde eu figurava desapareceu.
Acontece.

2.
Nunca consegui capturar o «Slim».
Era exímio na esquiva.
Há por aí, pela blogsfera, um texto que relata a tragédia de um rato. Presumo tratar-se de um pobre desastrado. Do «Slim», não.
Aquele que coexistiu aqui em casa está vivo.
Aliás, assim como o «Slim» nunca foi capturado, o «Zoom» -- Que me parece mais «Lopes» do que esse nome que recebeu -- nunca foi capaz de me catrafilar. E não apenas pela infelicidade das cataratas que tornaram o seu quotidiano inexoravelmente glauco.
Um dia antes de cada ataque, o «Zoom» deixava de se alimentar: para ganhar leveza, agilidade, rancor, sei lá... Escapei à primeira sortida e reparei nesse detalhe por mero acaso. Não apenas por a nossa dona lhe ter ralhado «Quem não tem cão, caça com gato!»
Eis o erro.
O alerta.
É impossível ser-se presa e predador.

3.
Qualquer ser vivo da natureza constitui um elo da cadeia alimentar: processo inelutável de acordo com o qual cada membro de uma espécie é alternadamente vencedor e vencido, de acordo com o seu lugar na hierarquia.

Foi essa a nossa falha.
Termo-nos deixado domesticar, instalando-nos na casa, não lutando pela nossa comidinha, esperando que ela nos fosse entregue.
Contrariando a nossa natureza, restou-nos a comodidade dos simulacros, dos ataques espúrios e inofensivos.
o «Zoom» excedendo as suas possibilidades, ensaiando um ataque, tentando fustigar-me. Raramente cheguei a soprar, quanto mais encurvar a espinha, distorcendo o meu volume natural.
Por desfastio, eu ensaiava ardis e emboscadas ao «Slim».
Desafiador e paciente, o «Slim» em vez de tentar colocar-me o guizo, pendurava-o ao seu pescoço -- O quê?! -- e, na sua velocidade máxima, corria à minha volta até se fartar, regressando à toca.
E eu para cá de um bocejo.
Erámos loucos, estravagantes, egocêntricos.
Mal sabíamos o que fazer do nosso quotidiano.

4.
Apesar de tudo, saímos lá de casa por nos termos sentido muito perturbados por dois acontecimentos:
- As prendas de Natal;
- O atropelamento do «Zoom».

A família reuniu-se.
Nós, tacitamente, acordámos tréguas até ao final do ano.
Não sabíamos que também havia prendas para nós.

Para o «Slim» uma caixinha que tresandava a queijo.
Quando o pobre a abriu, estava vazia.
Ficou desolado.
Ter-lhe-ia calhado um buraco do queijo?
Naquela noite não voltámos a vê-lo.

Quem é que não gosta de sushi?
Era a minha prenda, em forma de rato.
Exultei.
Desatei a comê-lo.
Sofregamente.
De repente, um sabor nauseabundo fustigou as minhas papilas gustativas.
Eu não suporto enchovas.
O meu sushi estava saturado daquele sabor.
Tentei correr para quintal, mas foi impossível lá chegar. A porta estava fechada. Fazia um frio de rachar. Eu estava tão aflito que, sem dar conta disso, deitei-me na alcofa do «Zoom». Os espasmos acentuaram-se. Um refluxo esofágico incontrolável forçou a regurgitação do sushi. O «Zoom» ofendeu-se. Não admitia que vomitasse na sua alcofa. Eu ainda lhe disse «Eu apenas regurgitei, «Zoom»!»
Não aceitou.
Os cães são difíceis.
o «Zoom» é inqualificável!
Mal tive tempo de fugir para a rua.
Na perseguição, ele foi atropelado.
Uma tragédia.

Este ano o Natal, lá em casa, será diferente.

Distante, audível, a voz única da gatinha de Adrew Lloyd Webber

«Daylight
I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And i mustn't give in
When the dawn comes
Tonight will be a memory too
And a new day will begin.
...

Touch me. It's so easy to leave me...»


(Suspiro.)



Domingo, 13 de Dezembro de 2009

De momento...


1.
Um automóvel cinzento entrou na auto-estrada num final de tarde de Dezembro.
Ao longe, ainda mal definida, insinuava-se a formação de nevoeiro.
O condutor passou dos mínimos para os médios e ligou o rádio.
«O Inverno» das «Quatro Estações» de Vivaldi. Sintonizou outra estação de rádio: de novo «O Inverno». Nova tentativa, agora na Onda Média: ainda «O Inverno».
Desligou o rádio.
Praguejou.
No avisador, que não chegou a ler, estava escrito, entre dois triângulos de perigo «Nevoeiro intenso. Conduza com precaução.»

2.
O nevoeiro adensou-se.
O condutor ligou os faróis de nevoeiro.
Sentiu-se desconfortável.
Pela primeira vez, reparou que não havia trânsito em sentido contrário. Estaria sozinho no sentido da sua marcha? Já não era possível certificar-se. O nevoeiro cerrara-se de tal forma que se sentiu completamente "embrulhado". Ligou os quatro piscas. Num devaneio extravagante, sentiu-se um alien a vogar algures. Se isso fosse verosímil, ganhando altitude poderia verificar o trânsito naquele momento, ou nem isso. Ganhando altitude, alterava a rota. Zarparia dali. Afinal, que importância teria a sinalização de outras viaturas através dos piscas ou dos cones de luz esbatida a circularem atrás dele?... Sentiu-se o único condutor em viagem.

Novo aviso, desta vez intermitente: «Na próxima saída, abandone a auto-estrada!»
Qual saída?!
Não se via um palmo à frente dos olhos. A saída terá ficado para trás. Impossível inverter o sentido da marcha.

Subitamente, sem a sua intervenção, a emissão de rádio reactivou-se. As últimas notas de «O Inverno» de Vivaldi cessavam. A voz neutra do locutor fazia o balanço do trânsito, sem mencionar a auto-estrada onde o condutor circulava. Lacónico, anunciou a mensagem. «As Estradas de Portugal desejam aos estimados automobilistas um Feliz Natal.»

3.
Com muita dificuldade discerniu a silhueta de um obstáculo.
Parecia-lhe as portagens.
O que teria acontecido para que os olhos-de-gato do corredor da Via Verde não refulgissem? Aliás, não havia uma única luz acesa por ali.
Vivalma.
Cheio de dúvidas, mas com uma réstia de esperança, tal era a opacidade do nevoeiro, aproximou-se com precaução.
Eram, de facto, as portagens.
Uma barreira, amarelo-branca, encerrava o corredor.
Que desalento!

A campainha de um telefone tocou na cabina, deserta, do portageiro.
O condutor correu para lá. Esforçou-se, tentou uma e outra vez, nada. Não conseguiu abrir a porta.
O telefone não parava de tocar.
Trouxe do carro a chave do macaco, quebrou o vidro, abriu a porta e, desesperando, atendeu.
«Estou!»
«De momento não nos é possível fazer a cobrança. Por favor, dirija-se à portagem mais próxima!»
Em vão, gritou «O quê?»
«De momento não nos é possível...»
Tratava-se de uma gravação.
«De momento...»

Desesperado, voltou para o carro.
Até o telemóvel deixara de funcionar.




4.
Quase imperceptível, um brilho metálico antecedeu um atrito surdo, vago, distante. Mas por não se assemelhar a um rasar, sequer a qualquer tipo de erosão, mesmo ténue, o condutor ergueu a cabeça para perceber o que se estava a passar lá fora.
Era inacreditável.
Uma luz coada,muito suave, estranha, aquosa, que não foi capaz de divisar a origem, iluminava uma enorme, erecta, trincha a deslocar-se, muito lentamente, parecendo desenhar uma estrada, um destino, a solução para seu desespero.
Nem hesitou.
Abandonou o carro e foi seguindo aquele percurso.
O movimento era tão lento, a caminhada era tão pausada que o condutor começou a sentir um certo torpor, algum cansaço nas pernas.
A necessidade de beber água, um qualquer líquido que fosse, era premente e coincidiu com um leve desanuviamento do nevoeiro, de um vislumbre da iluminação de uma cidade longínqua, a derradeira oportunidade. De novo a esperança. A réstia de energia para se libertar daquele pesadelo... Mas a trincha parou. Por uma simples e única razão: a tinta acabara.

Se o caminho se faz caminhando, como seria possível libertar-se daquele roteiro, de tão hedionda armadilha, e chegar algures...
Soçobrou?

Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

A primeira pedra


TD kOMPAS (IDN) - 16/08/06
«MENINO MAROTO»
1º PRÉMIO DESENHO DE HUMOR
(World Press Cartoon Sintra 2007)

1.

Esta senhora que está a dar um valente puxão de orelhas à criança chama-se Éolo.
A razão é óbvia:
Pela segunda vez -- À pedrada -- o catraio abriu um buraco no vaso. O primeiro, não se vê. Está no lado oposto ao nosso pobre, efémero e inalcançável campo visual.
Pergunta-se:
Quem ofereceu a fisga ao rapaz?

Se tiver sido um desconhecido, esta narrativa confinar-se-á à importância de um caco.
Perdida a identidade do irresponsável, o efeito desvanece-se.

Eu arriscaria que foi Zeus.
Quem mais poderia ter sido?
Nem Sísifo nem a sua mãe perceberam a premonição.

Proporcionando a um mortal o desafio de litigar com a Divindade, o Senhor dos deuses -- Magnânime -- concedeu-lhe os seguintes privilégios:

A astúcia:
O homem que melhor e menos escrupulosamente a praticou.
A lenda:
Uma certa eternidade por impedimento de Tanatos fazer morrer quem quer que fosse.
O mito de Sísifo:
O supremo castigo infligido a um ser humano.

2.
Dois episódios consagrarão o exposto.

Primeiro:
Autólico roubou o rebanho a Sísifo.
A recuperação dos animais foi canja!
Sísifo só teve de mostrar ao ladrão o seu nome gravado, por precaução, no casco de cada animal.

Segundo:
Zeus raptou Egina, filha de Asopo.
Sísifo viu Zeus e Egina passarem por Corinto.
Quando Asopo, destroçado em busca da filha, se cruzou com Sísifo, prometeu a este fazer brotar uma nascente de água em Corinto em troca da revelação da identidade do raptor. Sísifo disse-lhe «Foi Zeus!»

1ª Versão:
Enfurecido, Zeus fulminou Sísifo, precipitando-o nos infernos, onde lhe impôs como castigo que fizesse rolar eternamente um enorme rochedo na subida de uma vertente. Mal o rochedo atingia o cume, voltava a cair e o trabalho tinha de recomeçar.

2ª Versão:
Zeus, irritado pela denúncia de Sísifo, enviou-lhe o deus da morte -- Tanatos -- para que o matasse. Sísifo, surpreendendo Tanatos distraído, acorrentou-o de tal maneira, que durante algum tempo, nenhum homem morreu.




«O Rapto de Egina»
Vaso grego


3.

Quem se sentirá aliciado a extrair uma moral desta história?
Ocorreu num quadro de politeismo.

Confinada à convexidade dos vasos.

Muito longe da depuração ética, moral da contemporaneidade pós moderna.





«O RAPTO DE EUROPA»
Guido Cagnacci



4.

Porém, Zeus reincidiu contumazmente.
Ao raptar Europa na Praia de Sídon, disfarçado de touro, Zeus imitou um gorjeio amoroso.
Experimentou um arrepio de ternura quando Eros colocou na garupa a jovem Europa.

Para surpresa de todos, Europa gritou uma mensagem aos ventos e às águas:
«Dizei a meu pai que Europa deixou a sua terra na garupa de um touro, meu raptor, meu marinheiro, e, suponho, meu futuro companheiro. Dai, peço-vos, a minha mãe este colar.
Estava também para invocar Bóreas, para que este a levasse nas suas asas, como fizera com a sua esposa, a ateniense Orítia. Arrependeu-se: para quê passar de um raptor para outro?»
(1)

E agora, com uma Europa assim, o que fazemos à moral?

_____
(Fontes:
«Dicionario da Mitologia Grega E Romana»
e (1) «As Núpcias de Cadmo e Harmonia»)




Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

As time goes by


1.
Contactei uma Escola de Escrita Criativa para que me fossem indicados finalistas do curso dispostos a escrever a minha biografia.

O dossier de candidatura integrava a seguinte documentação:
Acervo fotográfico, cédula de nascimento, caderneta escolar, certificados de habilitações, curriculum vitae, certidão de narrativa completa, lista de amigos a contactar.
Exigia:
Plano de trabalho, sessões de diálogo comigo (Apenas dois candidatos chegaram a esta fase), consulta de documentação suplementar.

Foram feitas dez acreditações.
Todos os candidatos aceitaram preencher uma ficha, posar para uma polaroid e apresentar, em cinco dias, uma sinopse.

2.
Proposta do Rui:

«Geometricamente, o seu quotidiano é uma bissectriz.
Se ao 90º grau dos dois catetos, em vez de "tirar" a bissectriz desenhasse uma recta -- Num movimento inverso, para fora da esquadria dos catetos -- definindo a terceira dimensão, eu atrever-me-ia a esquecer esta sua fixação em Gutemberg e na ideia de uma biografia escrita bem sucedida.
A sua, não aguentaria uma semana nos escaparates das bombas de gasolina.
Mas, não. Você é um cartesiano puro: Pensa, logo nunca d'existe!
Os tempos correm a favor da imagem.
Eu não seria capaz de escrever a seu respeito cinco entradas no Twitter.
Com pediu frontalidade, proponho-lhe a escultura de um busto de pequenas dimensões.
Se os seu detractores -- Eu não encontrei um, sequer! -- acharem que ele apenas servirá para pisa-papéis ou amparo-de-livros numa estante, não ligue.
Os promissores quinze minutos de fama já foram substituídos pelos desejados quinze minutos de privacidade, mais: a notoriedade individual mal aguenta um clip de 3 minutos no YouTube, uma semana.»

Proposta da Isabel:

«Cinquenta anos depois, voltou a engordar.
Porquê?
Em 1958 -- Aos três anos de idade -- a Nestlé estaria a pensar disputar quota de mercado à Maizena, Farinha 33 ou Farinha do Amparo.
Nessa época, você era um bebé escondido entre um par de bochechas, tão exuberante e enfunado que eu ainda não percebi como teria sido capaz de superar os timoratos «Bu-bu Da-dá!» e começar a falar.
A sua dieta alimentar é segredo de família?
Sentado nas ondinhas de areia na Zambujeira, sob a protecção de um chapéuzito de abas reviradas para a copa, você, num afã inelutável parece incansável a aplanar o terreno para um projecto de construção irreconhecível.
Bracinhos e pernas cheios de anéis e, apesar deles, tamanha agilidade e frenesim.
Desejou ser arquitecto, engenheiro...
Parecia ungido de um desígnio. Qual?
Dos sete aos dez anos -- Olhe para a fotografia da Primeira Comunhão! -- Esquálido, para além do Laço Sacramental no braço esquerdo -- Aos dez anos, novamente anafado -- A pose formal para glória posterior da adolescente puberdade. -- Cabelo zelosamente molhado e penteado (Hoje seria do gel); um sorriso vagamente desenhado nos lábios -- Vestindo um pólo às riscas -- O branco e o verde sempre combinaram na perfeição! -- Iria ser um «Lagarto» discreto e sofredor?
O acervo fotográfico poderá ser aumentado se mais fotografias forem reunidas. Desenhos e notas pessoais manuscritas, não destoarão.»

3.
O trabalho foi concluído.
Está aqui à minha frente. Em cima da secretária: um busto e uma pen com uma apresentação em power point, cheia de animação, dos meus primeiros dez anos de vida.
Em tese, estas candidaturas consideraram que a proximidade entre a primeira e a terceira idades é amistosa, afável, cheia de carinho e ternura. Nessas idade, os quotidianos são de uma sinceridade louvável. As crianças, por terem tudo a ganhar, parecendo cruéis, lutam pelos seus interesses, com frontalidade, sem rancor, jamais recalcitrando; os séniores, -- Terão a perder o quê? -- lutam pela consolidação da dignidade construída ao longo de uma vida, eventualmente buscando reencontrar o seu tempo, perscrutando memórias, ou... deleitando-se no frémito diário dos seus netos... A surpresa aconteceu quando me dei conta de que, tanto o Rui quanto a Isabel estavam dispostos a apresentar, em alternativa, um slide-show nas molduras multi-media à venda por aí.
Eu, qual narciso acariciando o seu charco...