Quarta-feira, 24 de Novembro de 2010

Não há estrelas no céu


Gosto de observar as estrelas.
Desde miúda.
Ao aperceber-se da minha curiosidade pela calote, incansável, a minha mãe estimulou esse interesse.

Uma tarde, enquanto lanchávamos, a despropósito, disse-lhe
«Uma tatuagem. O que é que achas, mãe?»
Pousou a chávena de chá
«Quê?»
Eu a arrepender-me, aflita, a notar no seu semblante uma perplexidade, um desalento.
«Não é nada de especial. Um vislumbre da minha intimidade. Sem ostentação, mãe.»
«Mas como, filha?»
«Discretíssima

«Onde?»
«No pescoço.»
A minha mãe a espalmar as mãos pela cara, a baixar ligeiramente a cabeça, até uni-las a meio da boca, a cerzir os lábios, como se tivesse de repente uma oração urgente "Valha-me Deus!".
«Marcar o corpo, porquê?»
«Adornos, mãe.»

«Um fio, uma gargantilha, Ana. Haverá maior elegância? Uma tatuagem removível?»
«Não!»
«Então?»

«Estou a pensar numa espiral de estrelinhas até ao ouvido.»

«Evita o irremediável, filha.»

[Nesse dia (25 de Janeiro de 1938), entre o pôr-do-sol e as 22 horas,
em todo o Norte de Portugal, foi visto no horizonte, a norte e nordeste,
um enorme clarão vermelho que espalhou a confusão e o pânico
entre a população.
Há relatos de que as pessoas correram para as igrejas
julgando estarem perante o fim do mundo.]

«Os avós, jovens, resolveram casar. Mais tarde -- Eis porque me interessei tanto pela tua curiosidade pelas estrelas -- relataram de uma forma tão emocionada a luz que inundou os céus, que eu nunca mais deixei de olhar para cima, desejando ardentemente a repetição do fenómeno.»
«Não se repetiu.»

«Pois não. Dava tudo para que fosse possível ainda hoje, amanhã.»

«Não vais ter essa sorte.»

«Sabes o que é que o avô me disse?»

«Conta.»

«Olhar para o céu cansa. Porque não constróis uma pequena superfície de água para olhares o céu no seu espelho, Celeste?»

«Como, mãe?»

«Isso que te disse, Ana.»

«Funcionou?»

«Em noites limpas, sim. Era muito mais confortável.»


Eu já tinha decidido que a espiral de estrelas até ao ouvido passaria a ser de búzios. O mais próximo do ouvido, seguido de duas réplicas de volumetria decrescente para transmitir a ideia de movimento, de ascensão.
Simbolicamente, a escalada estabeleceria a ligação entre o mar, a terra e o céu.
O sussurro que eu registaria, após a sua chegada, ou seria um eco do mar, ou de um homem apaixonado a declarar-se.
Surpreendida, a minha mãe
«Sendo essa ideia tão bonita, tão inspirada, Ana, porque não optas por uma tatuagem temporizada, daquelas que duram uma semana, pouco mais.»
«Mas não percebes, mãe. O meu príncipe está a chegar.»

«E ele gostará de ver-te tatuada?»

«Será possível o amor, a liberdade. Transparência sem desejo de pureza, mãe?» (*)

Um homem de estatura média, barba ruiva, ao cruzar-se comigo, piscou-me o olho esquerdo.
Repôs os óculos escuros e seguiu.
Não o insultei, por um triz.
Ainda o ouvi soltar uma rizadinha, o alarve.
Voltei-me para trás.
Uns olhos azuis claros, vitreos, quase sinistros, fixaram-me.
Para além de um bigode ruivo, mal cuidado e fora de época, mais nenhum pêlo a singrar na alvura da sua facies.
Senti-me verdadeiramente enojada e ameaçada.
A minha ideia de Janus não coincidia com o verso e o anverso daquele provocador.
Corri, até perder o fôlego, até me sentir encurralada num beco sem saída.
Não se ouvia qualquer sinal de perseguição.
No entanto, em vez de me acalmar, eu continuava a gritar e, ou estava surda ou afónica, ninguém veio saber o que se passava.
Não caí da cama por estar a ser amparada pela minha mãe.
«Então, Ana. O que se passa, filha?»
«Que pesadelo estúpido... Ando a recalcar o quê...»
Uma criatura tatuada assim...













(*) Em «Século (O) de Sartre» de Bernard-Henry Lévy (Pg. 20; §2º) a frase é afirmativa; eu preferi a interrogação, uma vez ser outro o contexto.

29 comentários:

  1. Olá, caríssima!

    Registo com agrado o seu de tenra idade interesse pelo que está em cima!

    Saudações poéticas

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  2. A respeito de tatuagens, como mãe e há muitos anos, tive de aceitar que a minha filha fizesse uma aranha no pescoço e um dragão à volta do braço e também há muito que aceitei que cada um é livre de fazer o que quiser com o seu próprio corpo, porque, isso, em nada prejudica a liberdade alheia.
    Eu opto por viver e um dia morrer, apenas com os sinais com que nasci ;)... uma outra escolha, nem melhor, nem pior.

    Bjos

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  3. Bem!!é suficiente para qualquer um fugir, um tatuado fantasma dissuade o mais fervoroso adepto de sonhos escritos na pele, embora a ideia das estrelas seja perfeita. gostei.

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  4. Não gosto de corpos tatuados, talvez por uma questão geracional; na minha juventude( que foi há décadas) só os marinheiros e os prisioneiros se tatuavam.

    Da sua escrita , gosto cada vez mais.

    Bom dia.

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  5. Olá

    Uma bela analogia entre o sonho e a realidade.
    O subconsciente em "acção".

    O mistério e beleza da aurora boreal confrontados com a repulsa da criatura tatuada.


    Bjs.

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  6. Se não há estrelas no céu temos que as inventar!
    A ideia de um espelho de água é brilhante, talvez assim, se veja sentado a abóbada celeste.
    Uma corda de búzios parece excelente, será o eco de Bach na subida para uma das portas de Janus.
    O passado ou o futuro?

    Magnífico...

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  7. Fez-me lembrar um livro que li há muito tempo, emprestado pelo meu pai, que sempre teve um fascínio especial pelo espaço sideral: "Contacto", de Carl Sagan. A personagem central (mais tarde interpretada por Jodie Foster, no filme com o mesmo título) tinha por hábito, na sua infância, deitar-se sobre a relva para apreciar as estrelas. Muito possivelmente, um reflexo da própria paixão do escritor pelo firmamento e por tudo o que ele mostrava e encerrava.
    Obrigada, o texto é belíssimo!

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  8. Minha filha fez a estrela no pé da barriga, quase onde fica a calcinha, achei ruim,,,, depois fez borboletas coloridas nas costas... Me disse em pleno velorio dum tio, do lado do caixão, rs, pra que eu não reagisse, me pegou numa hora de fragilidade, pois eu tinha ficado brava com a estrela, dai as borboletas eu chorava, tbm de raiva, rs... mãe sofre, beijinhos.

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  9. lol

    Então continuem os recalcamentos que a tatuagem é medonha.

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  10. Só uma imaginação muito fértil consegue um texto assim, que nos faz ver estrelas e ter repulsa por tal personagem qual pesadelo :-)
    Recalcamentos quem os não tem ;-)

    Beijinhos

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  11. JPD, a tua imaginação constrói-se em textos extraordinários. Duplo registo discursivo; realidades que se confrontam; duplicidade irónica.
    Onírico e subtil.
    Bjs

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  12. Da tatuagens não gosto em regra. Do texto gosto sim!

    :)))

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  13. SEI DE MUITOS JOVENS QUE GOSTAM DE SE TATUAR ATÉ À ALMA...OBRAS DE ARTE NO CORPO...UMAS DE BOM GOSTO,OUTRAS, PÉSSIMO...O TEXTO ESTÁ DEVERAS INTERESSANTE...NÃO HÁ COMO UM PESADELO PARA DISSUADIR DE OUTROS INTENTOS...

    LI QUE PENSAS IR AO EGIPTO...OU GOSTARIAS,QUE SORTE A TUA...ADORARIA!!!

    BEIJO

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  14. E por aqui andamos, neste mundo deprimente e causador de pesadelos, a sonhar com estrelas e transparências de mar. Que os sonhos nos dêm força! E que continues a produzir estes belos textos poéticos:))

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  15. Oscilamos, suavemente, entre universos fascinantes: o marítimo e o celeste; o sonho e a realidade, como se confortados pelo embalo de uma cadeira baloiçante.

    (Um abraço, duplamente agradecido, pelo encantamento que aqui sempre proporcionas e pelas considerações sempre cuidadas e estimulantes.)

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  16. E aqui nos mostras como ver estrelas tanto pode ser um belo sonho, como um tremendo pesadelo!...

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  17. Depois que Adão aceitou a maçã nunca mais foi o mesmo.
    daí até a tatuagem foi um Salto! nao era pra herdarmos a sabedoria JPD ?
    ... Prá quê a fixação num paraíso se apenas nos faltava a doçura de um companheiro?
    texto delicado que estimula o desejo do princípe que se interesse por alguem com uma tatuagem escondida rs

    bons abraços , bom dia

    PS - o Rio está em guerra com o poder do tráfico e a cidade um caos!

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  18. Espreite, li e... fiquei fã!
    (Há por aqui muito talento)

    Abraço

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  19. Obrigada pelo comentário bonito sobre a fruta !
    gosto sempre de deixar um sabor doce ou ácido pros meus leitores rs
    e quanto ao que ocorre no Rio de Janeiro - concordo que a "droga é um flagelo difícil de debelar " principalmente quando o descaso dos governantes deixa chegar a um nível incontrolável.
    -e nossos problemas são "imensamente" grandes ( só pra ter uma ideia os dois morros muito proximos um do outro , Vila do cruzeiro e Complexo do Alemão estima-se em 800 mil pessoas) famílias totalmente oprimidas e tendo que aceitar ordens dos traficantes que recebem a Polícia à bala ,
    - os Gerentes do tráficoé quem manda por lá, dá as ordens,um caos nunca visto,basta dizer que pra entrar em algumas favelas tem que pedir
    -o Governo atual munido de coragem está enfrentando e já invadiu e tomou o poder (?)de algumas menores e em represália a cidade sofreu a semana toda com ataques de terror, incêndios de carros ,ônibus, motos e bases da polícia.
    A guerra está instalada JPD
    agora é rezar rsrs
    e a policia agora há pouco pediu , deu o veredicto: rendam-se ou vamos subir o morro com todo o aparato do Exército e mais de 2 mil homens armados ,( o poder de fogo deles tbém é muito grande)
    - não há rendição até agora, vai ter confronto.
    ainda bem que estou longe da mira de tiros, mas o ir e vir fica prejudicado.
    agora eu me alonguei,
    desculpe.
    todos os abraços e bom domingo JPD

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  20. :) gostei muito de ler, duarte. eu tenho uma tatuagem no ombro. um coração dividido em três... esqueço-me tantas vezes dela... mas nunca me arrependi de a fazer. um grande beijinho.

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  21. diria que estas estrelas que colocaste neste céu enevoado me trouxeram uma avalanche de sentimentos, tantos que sinto vontade de o reler, mas algum receio de outras tantas ideias me assolarem.
    Sem tatuagens...vou tatuando em mim as palavras que encontro nas estrelas que a vida me vai oferecendo
    um beijo e ...parabéns

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  22. A GATINHA...QUE NÃO É MINHA...ANDAVA A FUGIR DE MIM...

    BJS JPD

    NESSA IDADE DAS TATUAGENS NÃO HÁ MESMO ESTRELAS NO CÉU...RUI VELOSO TEM RAZÃO...E A CANÇÃO FALA DA PUBERDADE...BOA CONJUGAÇÃO ENTRE TEXTO E TÍTULO QUE ALUDE A UMA MÚSICA QUE EXPLORA O MESMO TEMA.

    MAIS UM BEIJO

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  23. JPD,

    Ler-te é, de certo modo, passarmos a uma outra dimensão. Das palavras ao sonho... numa leitura sôfrega e intensa.
    Gostei muito, fez-me bem, porque sonhar alivia-nos do peso da realidade.
    Bem hajas!

    Um beijo da Meg

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  24. E há sempre boa escrita por aqui!!! :)
    É extraordinária a tua capacidade criativa, além texto, saltas a linearidade e levas-nos para outra dimensão textual!
    Se não há estrelas no céu... é por elas poisaram aqui e brilham cada vez mais!

    Beijinho

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  25. Excelente texto!
    ... imaginar uma tatuagem no pescoço em espiral de estrelinhas até ao ouvido, é de um encanto tal, quanto a escrita e o entrelaçar.

    Abraço

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  26. Primeiro que tudo peço imensa desculpa de só hoje vir agradecer a visita amável ao meu blog Reflexões Caseiras mas o meu tempo de andar pela net é escasso.
    Gostei do que aqui encontrei, é bonito e original. Espero voltar mais vezes.

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  27. Estrelas apenas as que iluminam a noite...
    Nunca fiz tatuagens; não achei necessário...
    Necessário e interessante é ler o teu texto encantado...
    Adorei...
    Obrigada pela visita
    Beijos e abraços
    Marta

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  28. Adorei!
    Muito bom e interessante.Bem, a tatuagem é que ...

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  29. ... esse título não é uma canção do Rui Veloso? lol

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