
Decidiram passar uns dias na Costa Vicentina e, por essa razão, tornou-se óbvia a deslocação à Serra, às Caldas de Monchique, Monchique, à Fóia.
Anos atrás, o concelho resplandecia mais intensamente. A devastação florestal dos incêndios ainda não se replicava com regularidade sazonal. É estranho haver tantos incêndios numa zona onde há tanta água.
Quem por lá passar, vindo de Alzejur, por Marmelete, Monchique até à Fóia; ou de Portimão, pelas Caldas de Monchique, Monchique, indo eventualmente até à Picota e Alferce, satisfar-se-á com o magnífico passeio.
Por essa razão, instalaram-se em Lagos para não perder estes roteiros na Serra Algarvia.
Manhã cedo, foram até à Arrifana tomar uma banhoca e seguir para a serra.
Almoçaram no Abrigo da Montanha, para lá de Monchique a meio da subida para a Fóia.
2.
O Abrigo da Montanha é um restaurante com uma vasta esplanada pergolada, com uma ementa variada e um serviço discretamente eficiente.
As entradas estavam a ser servidas enquanto faziam as escolhas, os pedidos.
Nem repararam na aproximação da senhora e da menina com dois tripés a sustentarem passe-partout de dimensões diferentes.
A senhora distribuiu cartões da Ludicus -- Empresa de Animações, Eventos, Aniversários, catering e babysitting -- pedindo autorização para graciosamente fotografar o grupo.
A Lena foi peremptória
«Se isto for para apanhados, não alinho.»
«Estamos em campanha de promoção, minha senhora. Daqui a nada entregar-lhes-emos as fotografias.»
Mais ninguém reagiu.
«Você -- A menina a apontar para a Isabel -- ficará óptima como Carochinha.»
A mãe severa
«Matilde!»
Riram-se.
O Artur ficou a matutar: como é que a miúda topara que entre a Isabel e o Sérgio havia uma certa cumplicidade?
A seguir à fotografia de grupo, cada um dos quatro acabou por aceitar uma exposição individual. Abrindo uma excepção, por sugestão da Isabel, o Sérgio aceitou ser fotografada com ela.
Como é que a miúda...
A cataplana de cabrito estava divinal.
Por sugestão do Sérgio, beberam um tinto alentejano.
As sobremesas foram doçaria regional: a Isabel quis doce de amêndoa com gila, a Lena, um Dom Rodrigo, O Sérgio aceitou a sugestão do Artur: se houvesse estrelas de figo com amêndoas, cada um comeria uma. Havia.
O Artur a acentuar os trejeitos da boca
«Quando a grainha do figo nos incomoda a solução é um 'mosquito', Sérgio. Que tal um para cada um de nós?»
«Ah, pois! E as senhoras, desejam um licor, um digestivo, o quê?»
A Lena
«O quê... Um 'mosquito', Artur. Que bebida é essa?»
«Um 'mosquito' é um 'cal'ce' de medronho, pequenino, assim. Nem mais nem menos do que um cálice, um gole. Um dedal, como eles dizem por aqui.»
«Hum. Deve arder na garganta...»
«Queres experimentar?»
«Passo!»
«Nas mortes de porco as mulheres preparam "filhós de morte de porc'". Enquanto os trabalhos da matança decorrem, servem as filhós e os tais 'mosquitos'. »
«Uma roda viva, já percebi.»
«Pois... Com generosidade, abundância e sem hesitações.»
«O medronho é a única solução para remover a grainha acumulada na boca?»
«O que te parece, Sérgio?»
«Bem, Artur. Estão a olhar para mim, porquê? É verdade, Lena. Sim, Isabel. O figo, a amêndoa e o medronho... Combinam na perfeição.»
3.
Nas Caldas de Monchique, poucos quilómetros mais abaixo, a Lena e a Isabel foram à loja de souvenirs. O Artur e o Sérgio ficaram na esplanada a beber água e café.
A tarde estava esplêndida.
Uma miúda vestida de palhaço, com uma bola vermelha no nariz, aproximou-se para perguntar ao Sérgio
«Gosta de cantar?»
«Sim!»
«Conhece a "Tia Anica de Loulé"?»
«Não.»
«Quanto me dá se eu o ensinar a cantar?»
«Pá, miúda. Que Conversa é essa?»
A Isabel e a Lena regressavam. Tinham comprado um licor de amêndoa numa garrafa estilizada, lindíssima e um frasco de mel.
A Lena cada vez mais convencida de que a miúda e a mãe andavam a armadilhar-lhes o dia, resguardou-se. A Isabel quis saber
«Tu és a Matilde desta manhã, não és?»
«Eu...»
«O que aconteceu ao teu dedo?»
A miúda tinha um penso rápido no indicador esquerdo, para júniores, decorado com um patinho em fundo azul.
«Foi este pato maluco. Tentou morder-me o dedo. Esqueceu-se que a cola do adesivo o impediria de fugir. Assim que estiver boa, tramo-o. A minha mãe até disse: fazemos uma canja e, com o resto, um assado no forno.»
«Não me digas.»
«Digo, pois!»
«Ouve, miguinha...»
«Eh, calma! Eu estou a trabalhar. Não tenho amigos. Tenho clientes, mercado, produtos... Interesses!»
«Que idade terá esta miúda?» -- Quiseram saber.
«Tenho aqui um raminho de medronhos. Meia dúzia. Maduros e suculentos. Entre 10 e 12 euros, quanto é que estão dispostos a pagar?»
A mãe da miúda
«Não aborreças os senhores, Matilde. Vem!»
Ora aqui está um excelente texto para nos criar água na boca, os prazeres das terras Algarvias, comungo e acentuo. é ir e usufruir.
ResponderEliminarOlá...
ResponderEliminarIdade de gente grande, muito saber e perspicácia, uma comunicadora, independentemente das primaveras que terá já contado.
Óptimo feriado, kandandos.
Olá
ResponderEliminarHummmm...viajei contigo.
Os passeios pela serra forama divinais!
Prefiro o licor de canela(Farrobinhas).
Qual idade da miúda? Cronológica ou mental?
Bjs.
Um roteiro etnográfico, gastronómico e de afectos. A reter, para tentar copiar:)) Agradecida!
ResponderEliminarHá crianças assim: precoces na vida e na perspicácia das coisas adultas, para perplexidade dos que com elas se cruzam. Interessante é também observar os efeitos que a vida nelas vai moldando.
ResponderEliminarAs sugestões hedonistas são um 'must'. Perfilho-as :)
Abraço grato pelas sempre estimulantes impressões e votos de que a sugestão de leitura agrade :) [fico à espera de feedback ;)]
A curiosidade pela costa vicentina e pelo interior algarvio tem vindo a despertar em mim sobretudo nos últimos dois anos... e esta publicação agora só vem aguçá-la mais! Impõe-se um périplo à descoberta destes prazeres que aqui subtilmente enuncias!
ResponderEliminarDesenhas um percurso a saber a calor (pelo discurso, pelo espaço, pela experiência relatada), a destoar da época por que estamos a passar, e por isso mesmo se torna tão mais aliciante!
Quanto à miúda - mais do que indagar sobre a idade, eu pergunto, quem é ela afinal? Deixaste uma porta aberta para contar mais sobre essa curiosa criatura... espero que o faças! :)
Beijinho
Um passeio que já fiz várias vezes, sou casada com um algarvio dessas bandas, mas confesso que a tua narrativa supera até o passeio e os sabores ao vivo ;-)
ResponderEliminarA miúda é enigmática, só dá para saber que não nos contaste tudo sobre ela ;-)
Beijinhos
Olá, boa tarde!
ResponderEliminarFolgo muito em saber
que andou cá pelos meus sítios!
Saudações poéticas
eu já comia uma canjinha, duarte :) esta linguagem informal e familiar faz-me sentir os seus textos como se estivéssemos à mesa a saborear todas as iguarias mencionadas :) um grande beijinho*
ResponderEliminarFiquei curiosa...
ResponderEliminarBjinhos
Adoro medronhos e conheço os lugares, mas o colorido das tuas narrativas advém das personagens que crias!
ResponderEliminarBeijinho
O Sérgio tinha cara de João Ratão? A Matilde talvez fosse só uma miúda, a quem o tempo não envelhecia...
ResponderEliminarCriatividade a 500 à hora!... A tua, claro!
A miúda que não coma muitos medronhos vermelhinhos... são bem piores do que um mosquito ;)
ResponderEliminarBjos
Como apetece fazer o passeio e viver assim uns momentos.
ResponderEliminarEsta miúda tem futuro... na história.
Abraço, JPD
Idade cronológica? Mental?
ResponderEliminarEssa zona onde a estória se situa conheço-a bem. Mas quanto a banhos na Arrifana, bastou.me um, rrss
Um abraço.
Já há uns anos que não vou às Caldas de Monchique... achei graça à história e descrição da viagem pelas terras algarvias. Tem um estilo muito pessoal na sua escrita e nas suas histórias.
ResponderEliminarAbraço!
Foi um prazer saltitar de palavra em palavra.
ResponderEliminarUMA MIÚDA TODA ATREVIDA...ÀS VEZES É CURIOSO...COMO ESSAS CRIANÇAS SE SAEM COM CADA UMA...ADULTOS EM MINIATURA...PRECOCES.
ResponderEliminarBOM TEXTO.
BEIJINHO
Fiquei aqui a matutar na vida desta precoce Matilde, naquilo que ela lhe terá exigido para dela extrair tamanha esperteza e voluntarismo. É que por vezes a idade tem pouco a ver com o caso, e é a necessidade de sobrevivência que fala mais alto.
ResponderEliminarA infância precisa do seu tempo...
Um abraço e um bom fim-de-semana.
em hora do almoço as sobremesas abriram-me o apetite...
ResponderEliminar...quanto à idade da miúda é tão falacioso tentarmos descobrir a idade de alguém que pura e simplesmente prefiro não o fazer...deixo essa tarefa para o calendário
um beijo e parabéns
Vim ver se havia novidades...
ResponderEliminarFica para a próxima.
Saudações poéticas
:)))
ResponderEliminarUM CRESCIMENTO PRECOCE NÃO É SAUDÁVEL ...ÀS VEZES É A FAMÍLIA QUE FOMENTA ESSES COMPORTAMENTOS ADULTOS DE PALMO E MEIO...MAS CRIANÇA É CRIANÇA E ADULTO É ADULTO...
ResponderEliminarBEIJO
Parabéns! Seja quem for, sabe escrever!
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