Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2011

Ceci n'est pas une pomme

«Tudo quanto vemos esconde outra coisa:
adoraríamos ver o que aquilo que vemos
esconde de nós...»(*)
René Magritte

1.
O espelho que a Ana pendurou na parede lateral interior da cabine de fotografias tipo passe era de dimensões iguais às do espelho fixo da cabine e estava à mesma altura.
No exterior da cabine, um tripé suportava uma máquina fotográfica apontada para o espelho da parede lateral da cabine.
Sincronizada a máquina exterior com a da cabine, tanto no número de disparos como no intervalo de tempo entre cada um deles, a Ana preparou o ensaio geral.
Introduziu as moedas na cabine, instalou-se no banco. Primeiro, de frente para o espelho lateral, de costas para a porta da cabine; depois, de frente para o espelho fixo da cabine, oferecendo o perfil esquerdo à máquina do exterior; finalmente, de frente para a máquina do exterior, de costas para o espelho lateral, com o perfil direito para o espelho fixo da cabine.

Consultadas as fotos, havia que corrigir a cadência das rotações do banco.
A intensidade da luz estava adequada.

2.
Primeiro take:
A Ana sentou-se no banco para cumprir a sequência de rotações.
A sincronia das máquinas funcionou; a rotação do banco entre cada pose esteve desajustada.

Segundo take:
A Ana sincopou as rotações; a exposição aos flashes foi quase perfeita; esteve segurança na pose.

Terceiro take:
A Ana manteve a primeira pose, i é, de frente para o espelho lateral; perfil esquerdo para o espelho fixo da máquina da cabine; de costas para a porta da cabine.
A rotação para a segunda pose correu bem. De frente para o espelho fixo da máquina da cabine, expôs-se com naturalidade.
A rotação para a última pose foi perfeita. Porém, para minha surpresa, a Ana ergueu a perna esquerda, pousou o tacão na extremidade do banco, travou a perna, cruzando os braços à sua volta. Sorriu com displicência.

Eu estava a seguir as sequências , a fotografar tudo, disparei com a agilidade possível.

«Resultou?»
«Não me parece, Pedro.»
«Então?»
«Procurei um instante em que o meu olhar e a sua imagem coincidissem...»
«É possível?»
«Parece-me impossível.»
«Vamos para casa. Sem o visionamento dos takes qualquer conclusão será precipitada.»


Magritte


«Passeou pelos espelhos dos dias
suas clandestinas alegrias
que mal se reflectiram desertaram»(1)
Ruy Belo

3.
Mais céptica do que o Pedro, a Ana sentou-se para avaliar o trabalho.
O primeiro take confirmou a excessiva ansiedade.
O segundo take correu lindamente. Estavam ambos de acordo, Porém, intuição da Ana
«É impossível ver o nosso olhar. Jamais será possível captar esse instante...»
No terceiro take, quando a Ana resolveu apoiar o pé na borda do banco, a imagem reflectida no espelho lateral, nas suas costas, é uma réplica da sua pose. Há duas Anas a olhar para o exterior da cabine. O mesmo sucede com o Pedro. A imagem projectada replica-o como se fotografasse a segunda Ana. O que era pura ilusão. («O olhar do observador, quando olha para o espelho, não é devolvido. O que conta é esse momento de pânico e não a sua explicação»(*) R. Magritte)
Excitado, o Pedro trincou uma maçã.
A Ana apenas foi capaz de pedir-lhe uma para ela.

A ambos pareceu ter escutado
«Ceci n'est pas une pomme!»


Magritte

______________________________
(*) «Magritte» de Marcel Paquet, Ed TASCHEN & PÚBLICO
(1) «Aquele Grande Rio Eufrates» Ruy Belo; Ed Presença

23 comentários:

  1. Continuo a gostar do que escreve.

    Um abraço.

    ResponderEliminar
  2. Tal como no quadro que(tem a imagem, mas não a maçã) o mesmo se aplica às personagens do teu FABULOSO texto.

    Descobrir e decifrar o mistério que encerramos...

    Bjs.

    ResponderEliminar
  3. gostei muito
    (mas... isto não é um comentário)

    ResponderEliminar
  4. Olá queria parabenizar você pelo blog e pedir que visita se o meu simples blog: informativofolhetimcultural.blogspot.com será uma honra ter a visita tua lá. Espero que goste...
    Ass: Magno Oliveira
    Folhetim Cultural

    ResponderEliminar
  5. Fiquei a pensar no texto. Com efeito, muitas vezes vemos o que queremos e não a realidade!

    ResponderEliminar
  6. A realidade...JPD ...que caleidoscópio!
    Belíssima construção.
    Beijo, meu amigo

    ResponderEliminar
  7. Um texto interessante à volta de um espelho e de uma máquina. Gosto deste espelho de Magritte porque preserva a intimidade. Adoro Magritte porque nem sempre o que parece é.
    «É impossível ver o nosso olhar. Jamais será possível captar esse instante...»
    Um instante pode perder-se mas a memória fotográfica é eterna!
    Ver o que se quer é sonhar, ver a realidade é acordar num mundo sem esperança. Por isso, o espelho de Magritte é magnífico!
    Deu-me uma ideia.
    Abraço!:)

    ResponderEliminar
  8. A imagem e a realidade.É o mesmo como representação mas não é o mesmo, o real e o que nós captamos dele, são diferentes,logo, nenhuma realidade se pode captar enquanto tal. podemos repeti-lo até ao infinito. um jogo de espelhos.boa.

    ResponderEliminar
  9. QUERO QUE SAIBAS QUE ESTOU MUITO AGRADECIDA PELAS TUAS INTERVENÇÕES PERTINENTES,SENSATAS,AFÁVEIS...
    REVELAM QUE ESTOU CERTA ,POIS ADMIRO-TE IMENSO.

    VIREI DEPOIS LER-TE COM CALMA.

    BJS

    ResponderEliminar
  10. Olá, bom dia!

    Apresso-me a pedir desculpa mas,

    inadvertidamente,

    rejeitei o seu prezado comentário

    à minha última postagem...

    Depois... já era tarde para recuperar.

    Saudações poéticas.

    ResponderEliminar
  11. A verdade e a ilusão.
    Textos sempre bem arquitectados e que merecem reflexão.

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  12. O mistério onde menos se espera... ou em todas as coisas, porque acho que tudo tem um bocadinho de mistério para alguém. E aí está a graça da vida :)

    ResponderEliminar
  13. DE FACTO A FOTOGRAFIA DE ALGUÉM NÃO É ESSE ALGUÉM MAS A SUA REPRESENTAÇÃO .O VERDADEIRO MISTÉRIO DAS COISAS NUNCA ESTÁ FORA...NUNCA É ÓBVIO...CAPTAR A ESSÊNCIA,A ALMA... TUDO QUANTO VEMOS ESCONDE UMA PRIVACIDADE,UMA INTIMIDADE...QUE PROVAVELMENTE NINGUÉM CHEGA LÁ..E ENCARAR-NOS NÃO É TAREFA PARA TODOS.OLHAR-SE AO ESPELHO NÃO SIGNIFICA QUE NOS VEMOS...QUANTAS VEZES SOMOS ESTRANHOS DE NÓS MESMOS...

    TALVEZ SEJA NA SIMPLICIDADE QUE RESIDA O VERDADEIRO ENIGMA...

    BEIJOS

    ResponderEliminar
  14. Andamos meia vida a não querer ver que isto não é uma maçã e muito menos uma cereja... é, mesmo, um osso duro de roer... e vamos sonhando que um dia ainda lhe cresce carne ;)

    Bjos

    ResponderEliminar
  15. Dá mesmo que pensar este intrincado jogo de espelhos!

    ResponderEliminar
  16. Este texto é muito bom!
    A realidade existe ou é, apenas, o reflexo que queremos ver?
    Dá que pensar!

    ResponderEliminar
  17. palavras que se transformam em filme que se visualiza com prazer
    um beijo

    ResponderEliminar
  18. O texto está espectacular e tenho (mais uma vez e como quase sempre, perante os teus textos) sérias dificuldades em comentar. Por falta de entendimento, creio...
    Penso que há momentos (e talvez haja momentos desses congelados em fotos, como, por exemplo, na célebre foto do Che Guevara), em que conseguimos vislumbrar o que está escondido pelo que vemos.
    No espelho é para esquecer! Nem adianta entrar em pânico, porque o nosso olhar nunca nos será devolvido por um espelho, nem o que no espelho vemos alguma vez terá algo por trás que não o próprio espelho. (Parece que a arte e o pragmatismo estão condenados a viver separados!...)

    ResponderEliminar
  19. boa boa

    é o olhar dos outros que nos devolve a nossa imagem
    imperfeitos assim nos asumimos
    a conversa com o espelho é outra, boa ou má depende dos dias
    o meu saldo é reconfortante

    o olhar(me) exercício frequente e intenso.
    à imagem habituei-me
    enquanto sã e leal responsável e amigável, ça va

    importante estar atento e ver para além do que se nos apresenta
    Magritte pintou uma bela romã

    ResponderEliminar
  20. Gosto da sua forma de escrever.

    bjs
    Insana

    ResponderEliminar
  21. A auto-observação está cativa do reflexo dos múltiplos espelhos que nos rodeiam: o feedback dos outros, a percepção subjectiva desse feedback, a auto-avaliação derivada do efeito ricochete que são as consequências das próprias acções, a observação dos gestos individuais nos gestos dos outros, etc., etc. Não há, efectivamente, outra forma de nos observarmos senão através do reflexo que a experiência e realidade individuais devolvem. E, como sempre, caríssimo JPD, a inocência e 'poesia' destes textos constituem matéria inesgotável de reflexão.

    Um forte abraço!

    ResponderEliminar
  22. A reflexão sobre o que "se dá" ao espelho está excelente... maçã não é uma maçã, p.e.

    Abraço, JPD

    ResponderEliminar