
1.
Este Verão, na praia, surpreendi-me a fechar na mão toda a areia que ela pudesse conter.
Afinal, a vida é como este punhado de grãos de areia. Cada, um momento, um instante, uma alegria, uma angústia, uma desalento, uma tristeza.
E, no entanto, se abrir a mão, assim, a maior parte dos grãos esvaiu-se. Desapareceu.
É certo que eu senti um formigueiro na mão. Mas... A gente teme tanto os formigueiros. São tão maus prognósticos...
E se tudo isso se tivesse passado no interior de uma ampulheta gigante?
Quem me dera que o istmo, entre os dois balões, fosse insuficientemente apertado para eu poder passar, cair na almofada de areia que até ali me suportara e, alguém, até um animal de estimação, sei lá, virasse aquele contador de tempo para que se repetisse o efémero...
Sísifo a exaurir na sua escalada.
2.
No Inverno, numa tarde de chuva incessante, saio à rua para comprar tabaco.
A tarde seria insuportável sem fumar.
Volto com tabaco, chocolates, vinho e jornais.
Resolvo acender um cigarro. O vento impede-me de o conseguir. Praguejo. Um homem passa por mim e escarnece. Quando me preparo para o insultar, reparo que parou de chover.
Fecho o chapéu-de-chuva.
Continuo.
E, se de repente, uma enorme gota, a soma de milhões de gotas prováveis naquele fim-de-tarde, reunisse a fúria dos Elementos e me esmagasse num aluvião de deixar Noé boquiaberto?
3.
Quando me sinto inexoravelmente lúgubre, imagino-me na Plataforma de Gelo Larsen B, desprendida na península da antárctica, convertida num iceberg de 12500Km2.
Perante tamanha vastidão, a ferocidade do vento, não sou capaz de caminhar, construir um abrigo, sinalizar a minha presença, pedir socorro.
Irei morrer.
Espúria, acalentarei a fantasia de desmaiar por hipotermia e congelar.
Escavo uma cratera minúscula no gelo. Sacio a sede. Perscruto o horizonte.
Vazio.
Súbita, a sensação de bexiga cheia. Aflijo-me. Como fará o João Garcia para se aliviar?
Ao longe parece-me ouvir, a instantes, vozes e música, um certo tilintar. Turistas... Será possível? Aproximaram-se para lascar pequena quantidades de glaciar para as flutes de champanhe, para os copos de whisky, para comemorar o sucesso da viagem à Terra do Fogo?
Desinteresso-me.
Plofff!
Um gremlin bate na película de gelo da poça de água que eu escavara. Encharcado, demora 20 segundos a reproduzir-se. Uma hora depois, aquela área parece um bolo de amêndoa com cobertura de chantilly polvilhada de pepitas de chocolate.
Um frenesim inaudito.
Irá ocorrer uma explosão demográfica?
####
Foi-me atribuído o
Sunshine-Award
Gentileza da Ana (In)Cultura
http://sonhar1000.blogspot.com
Foi-me atribuído o
Sunshine-Award
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Os nomeados
http://bibliofiliaentreparentesis.blogspot
http: //doce-ou-travessura.blogspot.com
http://lis-costa.blogspot.com
http://amartaeeu.blogspot.com
http://recalcitrante-meg.blogspot.com
http://passosnoescuro.blogspot.com
http://raraavisinterris.blogspot.com
http://obviario-obviario.blogspot.com
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E se de repente, o mundo -este mundo tão nosso conhecido - se revelasse estranho?
ResponderEliminarUm abraço.
Acredito que sim, tendo em conta que estamos em vias de regressar ao terceiro mundo... Para além do instinto de sobrevivência, a falta do que fazer pode mesmo dar azo a uma explosão demográfica...
ResponderEliminarÉ estranho que nós, sabendo que não passamos de grãos de areia no Universo, tenhamos, ainda assim, a capacidade de mal nos apercebermos disso!
Olá
ResponderEliminarAndamos todos afectados por mudanças de humor...
Bjs.
Se surgiu um bolo desses... venha ela! A tal explosão demográfica.
ResponderEliminarE se....tudo não fosse nada???? Apenas uma ilusão de óptica....
ResponderEliminarInteressantes as questões....
Obrigada pela visita
Beijos e abraços
Marta
Gosto tanto destes relatos divididos em partes especulares!
ResponderEliminarMas que não venha a explosão demográfica antes das eleições...com as ganas de votos que os candidatos andam...
Beijinho
"A ciência estudou o átomo segundo seus efeitos, definindo que todos os elementos da matéria no Universo se compõem de átomos. As matérias se diferenciam entre si pela vibração ou emanação do núcleo central."
ResponderEliminarBastava mudar a vibração e tudo seria diferente...
Mas uma coisa é certa, se, no entretanto, a minha vibração não for alterada, no domingo carrego com todos os meus átomos e vou votar ;)
Bjos
Um texto muito bem escrito e imaginativo para mostrar um estado da alma, um fio condutor de tudo o que escreve!
ResponderEliminarAbraço. :)
Um presente; um poema de W.H AUDEN.
ResponderEliminarEspero que gostes; pessoalmente, é o meu favorito.
Beijos e abraços
Marta
Stop all the clocks, cut off the telephone
Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.
Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He Is Dead,
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.
He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last for ever: I was wrong.
The stars are not wanted now: put out every one;
Pack up the moon and dismantle the sun;
Pour away the ocean and sweep up the wood.
For nothing now can ever come to any good.
Pois é JPD...é mesmo assim! Podes ter a certeza que não sou de desistir, mas até me encolho com o recibo encolhido...ou serão efeitos da gripe?
ResponderEliminarSaúde e boa sexta!
Beijinho
O mundo é mesmo um lugar estranho, e nele tudo pode acontecer - os teus receios, os meus receios, infelizmente podem concretizar-se hoje, logo, daqui a uma hora...
ResponderEliminar(Claro que também estou de mau humor:)))
Oi querido JPD
ResponderEliminarDeliciosos fragmentos encontro aqui.
Como estou roubando momentos em Wi-Fi , fico pouco a vontade pra demorar e ler tudo pausadamente como gosto.
Tenho caminhado pela praia e reparado na areia que escorre entre os dedos como os instantes de vida que posso ainda ter, e tenho pensado meio que assustada.
"Afinal a vida é esse instante..."
Volto depois pra te observar e comentar o texto ok?
Hoje te abraço mesmo com esse oceano a atrapalhar rsrs
com carinho
Sempre interessantes as tuas divagações e reflexões. Esta percorreu todas as estações e depois... quem resiste a pepitas de chocolate ;-)
ResponderEliminarBeijinhos
OS TEUS TEXTOS DÃO SEMPRE QUE PENSAR...TÊM SEMPRE MÚLTIPLOS SENTIDOS E INTERPRETAÇÕES...DESDE OS GRÃOS DE AREIA...A AMPULHETA GIGANTE...SE FOSSE SUCIENTEMENTE ESTREITA PARA TRAVAR O FENÓMENO TEMPO...PARA RECUPERARMOS MAIS EM AFECTO,CARINHO,AMIZADE...E UM ALUVIÃO VIESSE PARA PROVAR O QUANTO SOMOS UM FRAGMENTO INSIGNIFICANTE NESTE IMENSO MISTÉRIO DE PLANETA TERRA...E AINDA MAIS ESTRANHO É IMAGINAR-SE NUMA PLATAFORMA GLACIAR...AS VOZES,A MÚSICA...HAVERÁ ESCAPATÓRIA POSSÍVEL PARA A EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA? NEM NOS GLACIARES...E SE O URSO BRANCO SURGIR NO HORIZONTE...?
ResponderEliminarE O DEGELO?
QUANDO OLHARES PARA O CÉU LEMBRA-TE QUE OS MEUS OLHOS SÃO DA MESMA COR...
BJS
Hoje 22, na véspera de domingo... estou com medo que depois das eleições, vir a sofrer de ciclotimia... se Cavaco ganhar... vou ficar, messssssmo, com o meu humor muito alterado lol
ResponderEliminarBjos
Voltei para ler as "Três preocupações para uma ética da autenticidade"... um resumo perfeito que está em sintonia com aquilo que eu sinto, mas que, por vezes, não sei explicar.
ResponderEliminarBjos
Caro JPD, não sei se me centre nesta extraordinária verve, salpicada por encantadoras pitadas de surrealismo, ou se atenda às belíssimas achegas d'"A ética da autenticidade". Qualquer dos textos interpela e enriquece quem os lê. Muito obrigada pela riqueza partilhada e nunca ciclotímica. Se tivéssemos de classificar a tonalidade emocional deste blogue, eu apostaria mais numa saudável e moderada 'mania' :)
ResponderEliminarAbraço grande e grato pela generosidade de cada visita ao 'bibliofilia'.
JPD,
ResponderEliminaro mundo é lugar estranho... ou será que somos nós?!
Bom fim de semana
Gostei destes seus textos,
ResponderEliminarem forma de apontamentos.
Saudações minhas
JPD,
ResponderEliminarRecebi um Sunshine Award, “concedido” ao meu blog pelo “http://falcaodejade.blogspot.com/ que agradeço!
Tenho agora que o “re-oferecer” a 12 blogues que gosto.
Escolhi este blog!
Pode passar(mais logo) no meu a recolher o prémio e depois terá de passar o “sunshine award” a 12 blogs de que goste (não é obrigatório!);
Tem de avisar os bloguistas escolhidos e explicar o que devem fazer...
Parabéns pelo seu blog!
Navegar é preciso, JPD.
ResponderEliminarE tu navegas bem nas ondas altas ou baixinhas do entrelaçado das palavras, das ideias....
Abraço
Agradeço o prémio mas agora... escolher entre tantos blogues que gosto... vai ser difícil...
ResponderEliminarmas prometo que vou tentar :)
Bjos
Caro JPD, a escolha não só me sensibiliza como, sobretudo, me honra, por partir do autor de um espaço que tanto aprecio e admiro. Aqui fica um sincero agradecimento e a retribuição, mais do que justa, de tal gentileza :)
ResponderEliminarUm abraço reconhecido.
JPD, fico muito honrada com a escolha. Obrigada.
ResponderEliminarEstou num pequeno intervalo, logo mais darei conta...
Beijinho e bom dia!
SÓ POSSO ESTAR IMENSAMENTE GRATA...ASSIM QUE FOR POSSÍVEL PROMETO POSTAR.
ResponderEliminarUM TERNO BEIJO NA FACE
Obrigada pelo prémio!! Vou ver se nomeio, muito obrigada.bjos
ResponderEliminarA regressar, aos poucos, às leituras que me apaixonam...
ResponderEliminarDescobri que o tempo não existe.
Os (soberbos) textos que leio aqui, são como essa descoberta: apesar de os pressentirmos, de parecer que sempre estiveram nas nossas cabeças (mais palavra, menos palavra, que fazem a diferença:-)...surpeendem-me sempre.
Prémio bem merecido. A unica penalizada sou eu, por ter estado afastada tanto tempo.