Quarta-feira, 5 de Janeiro de 2011

Dia de Reis

Em casa dos meus avós maternos (Não conheci os paternos.), a entrega das prendas era feita no Dia de Reis, em Janeiro.
Em casa dos meus pais não se fazia a árvore de Natal; o presépio ficava ao critério das crianças: fazíamo-lo.
À noite, antes de nos deitarmos, deixávamos uma bota ou um sapato -- Transbordariam de prendas, doces e surpresas que era impossível saber onde estiveram guardadas (Um segredo preservado anos a fio) -- a que acedíamos pouco depois das sete da manhã, esgotados de tamanha espera.

A primeira vez que olhei para uma árvore de Natal fixei-me numa enorme e rutilante bola dourada.
Apanhei um susto de morte!
Do lado de lá, em plena convexidade, um sósia, corpulento, transfigurado, a crescer para mim sempre que me aproximava para perceber aquela criatura, o simile da minha ideia de fisionomia.
Fugi a sete léguas, tantas quanto num liliputiano é capaz de percorrer -- Foi a última vez que repeti a velocidade de um espermatezoide -- para trepar para o colo da minha mãe e chorar, dividido entre a rejeição das prendas e o roubo descarado das ditas que estaria a ser premeditado.

Como fazer a árvore de Natal: sabia lá se a bola amarela iria ou não parar dentro da minha bota, ao desprender-se da árvore, impedindo-me de receber as prendas!

Afinal o Natal não era uma quadra de alegria, bonança e benquerença.
A história dos sininhos era uma treta para enganar incautos.
Sofrimento, angústia e solidão, eis a novidade que os adultos escondiam, nada fazendo para preservar as crianças... NÓS!

___________
Citação #4.

«Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há -de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir uma Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
(...)»

«LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS»

David Mourão-Ferreira


26 comentários:

  1. Olá

    Recordei os meus Natais quentes (continuo a ter saudades)...tinha árvore e presépio (afastados)...o sapatinho ficava junto ao presépio, não havia pai-natal, mas Menino Jesus.

    Fizeste-me rir com a bola...qual espelho esférico...pareceu-me ouvir um miaaaaaaaaaaaau...

    Refecti...

    «Há-de vir um Natal e será o primeiro
    em que se veja à mesa o meu lugar vazio".

    Bjs.

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  2. Não me lembro de alguma vez ter visto uma criança fugir da árvore de Natal, mas, se calhar, sempre vi o acto de bravura, isto é, ainda que o medo da bola fosse grande, não seria maior que a vontade de ver os presentes...
    É verdade, o Natal é triste, pelo menos, enquanto herança da religião católica...

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  3. rrrss Adorei! rrs

    Fez-me lembrar a reacção do meu filho quando descobriu o pinheiro ainda em estado primitivo no chão da sala rrss

    Um abraço

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  4. Nossa Caro Amigo,

    Que grandiosa escolha, David Mourão Ferreira.

    Que grande "prisão" quando o leio. Esgoto cada letra que ele oferece.
    Já valeu a prenda esperada e não aparecida.

    Forte Abraço

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  5. Episódio traumatizante, para uma criança. :D

    Não dou grande importância ao Dia de Reis... só sei que dia 5 como bacalhau e dia 6 desfaço a árvore.

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  6. Podemos estar verdadeiramente sozinhos...
    Este ano, houve um prato vazio na mesa lá em casa....
    Obrigada pela visita....Bom Ano para ti....
    Beijos e abraços
    Marta

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  7. Como sempre desarmas o leitor com a tua ironia!
    Apesar de te conhecer o estilo ia muito sossegada a avançar sem sobressaltos quando apareceu a terrível bola!
    Fatal como o destino! :-))

    Abraço

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  8. A única partilha é que também ficava ansiosa para que chegasse o dia seguinte para ver as prendinhas no sapatinho, mas era no dia 25 de Dezembro e era o Menino Jesus que dava.
    Tive sempre uma árvore próxima do presépio.
    Sempre gostei das bolas e do reflexo... uma miragem.
    Apesar de triste acaba bem o seu Natal com o último verso de David Mourão Ferreira.
    Parabéns pelas memórias originalmente registadas.
    Bom ANO!:)

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  9. Nem me lembro se tinha ou não árvore de Natal a minha magia era o presépio.
    Os meus filhos fugiam do Pai Natal (que era eu disfarçada)acho que os traumatizei ;-)
    Agora faço este ritual quase por obrigação, nem sei bem porquê...

    beijinhos

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  10. Tantos Natais que tive, tão diferentes, não por vontade porque essa, seria repetir um ou outro que fica na memória... mas uma coisa é certa, nunca estamos preparados para que eles mudem... por força das circunstâncias.

    Bjos

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  11. Que o sorriso e a boa disposição que estas memórias invocam, sejam um bom augúrio e se mantenham por todo o ano. Já o esquecimento a que, brilhantemente, se refere DMF não deve preocupar-nos. Não estaremos presentes para sofrer por ele. Façamo-nos presentes, sim, enquanto temos o privilégio de o concretizar.

    Abraço expectante num bom ano para todos!

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  12. Me parece que noutros países a troca de lembranças é feita em dia de reis. Tudo a ver pois foram eles segundo consta que as trouxeram ao menino Jesus.
    Não tenho boas nem más recordações de Natal de quando era miúdo, mas as melhores vieram com a chegada da primeira filha e têm sido gratificantes.
    Onde há crianças o Natal tem o melhor dos sabores e as surpresas acontecem.
    Muito bem disposto com a leitura, me vou, deixando meu kandando.

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  13. Amigo,
    era mesmo assim...também na casa dos meus avós maternos (no meu caso não convivi com os paternos).
    Gostei muito de ler a edição.
    (Já te disse que fui prof. do José Luís Peixoto?).
    Beijinho

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  14. Ai, meu amigo...tenho trabalhado horas sem fim e sem proveito...até já pensei fechar o blogue...
    como te compreendo!
    bj

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  15. Adorei a descrição...gozada....
    Bem enquadrado o David Mourão Ferreira
    Abraço

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  16. Obrigada pelas palavras.
    Não percas a poesia do Zé Luís, especialmente a mais antiga.
    Beijinhos e boa noite

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  17. Os meus Natais, com presépio e menino de jesus, com árvore e pai natal, com sapatinho.... tão feliz!
    Com o tempo, foi-se perdendo o pai natal e o sapatinho, nada que não seja recuperável...faço por ser feliz!

    Abraço, JPD

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  18. na minha família, o natal (ainda) é para as crianças, sempre presentes. este ano saíu-me na rifa fazer de pai natal - um sucesso.
    mas, com o passar dos anos, começa também a ser pautado pela tristeza... este ano, havia mais dois lugares livres à mesa.
    feliz doismileonze jpd.

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  19. JPD,
    Em Espanha as prendas são dadas no dia de Reis.
    é mais coerente com a tradição (forma os Reis que levaram as prendas) e o Natal é mais sossegado, podendo-se viver em família, o verdadeiro espírito do Natal.

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  20. meu blog voltou com tudo acompanhe durante a semana noticiário cultural. Espero que goste. Me siga. Abraços boa semana.

    informativofolhetimcultural.blogspot.com

    Magno Oliveira
    Folhetim Cultural

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  21. há certamente qualquer coisa de triste no Natal, é bem verdade, mas talvez que dentro da maior alegria não deixe de roçar a tristeza. bjo Bom dia de Reis!

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  22. Nostalgia, ternura, realismo, medos e alguma tristeza, tudo neste teu delicado mas intenso texto. Afinal, tudo o que compõe a nossa vida...
    Abraços

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  23. AS CRIANÇAS SÃO ANJOS DESPROTEGIDOS...PRECISAM DE ABRAÇOS E BEIJOS E MUITO COLO...PARA ELES TUDO É MEDO E DESCONHECIDO...ATÉ A MAGIA DO NATAL...

    DAVID MOURÃO FERREIRA É TÃO VERDADEIRO...POR MAIS QUE ESSAS PALAVRAS SEJAM NOSTÁLGICAS

    UM ABRAÇO MEU PARA TI

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  24. Engraçado que encontrei neste teu texto algumas semelhanças com o que se passava em minha casa. Gostei de relembrar.
    Bom Ano! Ainda vou a tempo, pois que começámos a dar os primeiros passos. Esperemos que quando chegarmos ao fim estejamos mais satisfeitos.

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  25. Uma bela e animada descrição de outros e novos tempos... infelizmente o espírito de Natal já não é o que era...

    É sempre bom ler-te!

    Beijinho

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  26. viajei até aos meus primeiros natais, diferentes e com uma magia tão única
    beijo
    bom ano

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