Em casa dos meus pais não se fazia a árvore de Natal; o presépio ficava ao critério das crianças: fazíamo-lo.
À noite, antes de nos deitarmos, deixávamos uma bota ou um sapato -- Transbordariam de prendas, doces e surpresas que era impossível saber onde estiveram guardadas (Um segredo preservado anos a fio) -- a que acedíamos pouco depois das sete da manhã, esgotados de tamanha espera.
A primeira vez que olhei para uma árvore de Natal fixei-me numa enorme e rutilante bola dourada.
Apanhei um susto de morte!
Do lado de lá, em plena convexidade, um sósia, corpulento, transfigurado, a crescer para mim sempre que me aproximava para perceber aquela criatura, o simile da minha ideia de fisionomia.
Fugi a sete léguas, tantas quanto num liliputiano é capaz de percorrer -- Foi a última vez que repeti a velocidade de um espermatezoide -- para trepar para o colo da minha mãe e chorar, dividido entre a rejeição das prendas e o roubo descarado das ditas que estaria a ser premeditado.
Como fazer a árvore de Natal: sabia lá se a bola amarela iria ou não parar dentro da minha bota, ao desprender-se da árvore, impedindo-me de receber as prendas!
Afinal o Natal não era uma quadra de alegria, bonança e benquerença.
A história dos sininhos era uma treta para enganar incautos.
Sofrimento, angústia e solidão, eis a novidade que os adultos escondiam, nada fazendo para preservar as crianças... NÓS!
___________
Citação #4.
«Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há -de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir uma Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
(...)»
«LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS»
David Mourão-Ferreira
Citação #4.
«Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio
Há -de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido
Há-de vir uma Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo
Há-de vir um Natal e será o primeiro
(...)»
«LADAINHA DOS PÓSTUMOS NATAIS»
David Mourão-Ferreira
Olá
ResponderEliminarRecordei os meus Natais quentes (continuo a ter saudades)...tinha árvore e presépio (afastados)...o sapatinho ficava junto ao presépio, não havia pai-natal, mas Menino Jesus.
Fizeste-me rir com a bola...qual espelho esférico...pareceu-me ouvir um miaaaaaaaaaaaau...
Refecti...
«Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio".
Bjs.
Não me lembro de alguma vez ter visto uma criança fugir da árvore de Natal, mas, se calhar, sempre vi o acto de bravura, isto é, ainda que o medo da bola fosse grande, não seria maior que a vontade de ver os presentes...
ResponderEliminarÉ verdade, o Natal é triste, pelo menos, enquanto herança da religião católica...
rrrss Adorei! rrs
ResponderEliminarFez-me lembrar a reacção do meu filho quando descobriu o pinheiro ainda em estado primitivo no chão da sala rrss
Um abraço
Nossa Caro Amigo,
ResponderEliminarQue grandiosa escolha, David Mourão Ferreira.
Que grande "prisão" quando o leio. Esgoto cada letra que ele oferece.
Já valeu a prenda esperada e não aparecida.
Forte Abraço
Episódio traumatizante, para uma criança. :D
ResponderEliminarNão dou grande importância ao Dia de Reis... só sei que dia 5 como bacalhau e dia 6 desfaço a árvore.
Podemos estar verdadeiramente sozinhos...
ResponderEliminarEste ano, houve um prato vazio na mesa lá em casa....
Obrigada pela visita....Bom Ano para ti....
Beijos e abraços
Marta
Como sempre desarmas o leitor com a tua ironia!
ResponderEliminarApesar de te conhecer o estilo ia muito sossegada a avançar sem sobressaltos quando apareceu a terrível bola!
Fatal como o destino! :-))
Abraço
A única partilha é que também ficava ansiosa para que chegasse o dia seguinte para ver as prendinhas no sapatinho, mas era no dia 25 de Dezembro e era o Menino Jesus que dava.
ResponderEliminarTive sempre uma árvore próxima do presépio.
Sempre gostei das bolas e do reflexo... uma miragem.
Apesar de triste acaba bem o seu Natal com o último verso de David Mourão Ferreira.
Parabéns pelas memórias originalmente registadas.
Bom ANO!:)
Nem me lembro se tinha ou não árvore de Natal a minha magia era o presépio.
ResponderEliminarOs meus filhos fugiam do Pai Natal (que era eu disfarçada)acho que os traumatizei ;-)
Agora faço este ritual quase por obrigação, nem sei bem porquê...
beijinhos
Tantos Natais que tive, tão diferentes, não por vontade porque essa, seria repetir um ou outro que fica na memória... mas uma coisa é certa, nunca estamos preparados para que eles mudem... por força das circunstâncias.
ResponderEliminarBjos
Que o sorriso e a boa disposição que estas memórias invocam, sejam um bom augúrio e se mantenham por todo o ano. Já o esquecimento a que, brilhantemente, se refere DMF não deve preocupar-nos. Não estaremos presentes para sofrer por ele. Façamo-nos presentes, sim, enquanto temos o privilégio de o concretizar.
ResponderEliminarAbraço expectante num bom ano para todos!
Me parece que noutros países a troca de lembranças é feita em dia de reis. Tudo a ver pois foram eles segundo consta que as trouxeram ao menino Jesus.
ResponderEliminarNão tenho boas nem más recordações de Natal de quando era miúdo, mas as melhores vieram com a chegada da primeira filha e têm sido gratificantes.
Onde há crianças o Natal tem o melhor dos sabores e as surpresas acontecem.
Muito bem disposto com a leitura, me vou, deixando meu kandando.
Amigo,
ResponderEliminarera mesmo assim...também na casa dos meus avós maternos (no meu caso não convivi com os paternos).
Gostei muito de ler a edição.
(Já te disse que fui prof. do José Luís Peixoto?).
Beijinho
Ai, meu amigo...tenho trabalhado horas sem fim e sem proveito...até já pensei fechar o blogue...
ResponderEliminarcomo te compreendo!
bj
Adorei a descrição...gozada....
ResponderEliminarBem enquadrado o David Mourão Ferreira
Abraço
Obrigada pelas palavras.
ResponderEliminarNão percas a poesia do Zé Luís, especialmente a mais antiga.
Beijinhos e boa noite
Os meus Natais, com presépio e menino de jesus, com árvore e pai natal, com sapatinho.... tão feliz!
ResponderEliminarCom o tempo, foi-se perdendo o pai natal e o sapatinho, nada que não seja recuperável...faço por ser feliz!
Abraço, JPD
na minha família, o natal (ainda) é para as crianças, sempre presentes. este ano saíu-me na rifa fazer de pai natal - um sucesso.
ResponderEliminarmas, com o passar dos anos, começa também a ser pautado pela tristeza... este ano, havia mais dois lugares livres à mesa.
feliz doismileonze jpd.
JPD,
ResponderEliminarEm Espanha as prendas são dadas no dia de Reis.
é mais coerente com a tradição (forma os Reis que levaram as prendas) e o Natal é mais sossegado, podendo-se viver em família, o verdadeiro espírito do Natal.
meu blog voltou com tudo acompanhe durante a semana noticiário cultural. Espero que goste. Me siga. Abraços boa semana.
ResponderEliminarinformativofolhetimcultural.blogspot.com
Magno Oliveira
Folhetim Cultural
há certamente qualquer coisa de triste no Natal, é bem verdade, mas talvez que dentro da maior alegria não deixe de roçar a tristeza. bjo Bom dia de Reis!
ResponderEliminarNostalgia, ternura, realismo, medos e alguma tristeza, tudo neste teu delicado mas intenso texto. Afinal, tudo o que compõe a nossa vida...
ResponderEliminarAbraços
AS CRIANÇAS SÃO ANJOS DESPROTEGIDOS...PRECISAM DE ABRAÇOS E BEIJOS E MUITO COLO...PARA ELES TUDO É MEDO E DESCONHECIDO...ATÉ A MAGIA DO NATAL...
ResponderEliminarDAVID MOURÃO FERREIRA É TÃO VERDADEIRO...POR MAIS QUE ESSAS PALAVRAS SEJAM NOSTÁLGICAS
UM ABRAÇO MEU PARA TI
Engraçado que encontrei neste teu texto algumas semelhanças com o que se passava em minha casa. Gostei de relembrar.
ResponderEliminarBom Ano! Ainda vou a tempo, pois que começámos a dar os primeiros passos. Esperemos que quando chegarmos ao fim estejamos mais satisfeitos.
Uma bela e animada descrição de outros e novos tempos... infelizmente o espírito de Natal já não é o que era...
ResponderEliminarÉ sempre bom ler-te!
Beijinho
viajei até aos meus primeiros natais, diferentes e com uma magia tão única
ResponderEliminarbeijo
bom ano