
Anonimato
«É beneficiarmos de uma certa invisibilidade oferecida pela multidão citadina»
Agora, consumada a separação, ocorre lembrar-me que o Sérgio e eu alguma vez dançámos.
Estranho...
Ambos gostamos tanto de música. Somos capazes de cantar, assobiar uma melodia e, no entanto, tendo-nos abraçado tão naturalmente, com tanto afecto, tamanha volúpia, fomos incapazes de dançar.
Nunca dançámos...
A coreografia organiza o espaço.
A dança estabelece e renova constantemente a nossa maneira de habitar.
A presença e o abandono acontecem em simultâneo.
Como foi possível termos estado apaixonados e não nos ter sido possível fazer coexistir sentimentos, paixões e afectos (As nossas almas) e o corpo.
O que foi feito do nosso desejo?
A Dulce, no meu voice-mail:
«Querida, muito resumidamente, o que Santo Agostinho -- «Confissões» -- escreveu sobre a Vontade é que, o seu objecto, o seu campo de acção não é nem o corpo, nem a alma, mas a própria vontade.
A isto, lembro-te que Kant -- «Crítica da Razão Prática» -- fala da exigência da formulação de uma Lei que a Vontade se atribui a si própria. Isto é, de acordo com Nietzsche -- «Para A Genealogia da Moral» -- a Vontade é a capacidade de fazer a sua própria lei e, ao fazê-la, forjar o mundo dessa lei.
Andas com vontade de mudar alguma coisa, Sofia?
Aparece.
Beijos »
Quem me dera conhecer Ítaca para perceber Ulisses e errar por esse mundo fora.
Ah! Perder-me numa invisibilidade inexcedível...
Já devia ter atirado fora este anel que o Sérgio me deu...
Bah!
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Ler «SOLIDÃO» -- Editado em 09 Fevº -- é importante para compreender «O ANONIMATO».
(2º/3)
Em 29 de Janeiro, Pedro Mexia assinou no Público um artigo sobre «Privacy And Freedom» definindo 4 aspectos da privacidade.
Com base neles, desenvolvi esta edição. A próxima será a última.
Olá
ResponderEliminarQuando uma relação acaba ficam as recordações, fazendo-se um balanço concluiu-se que afinal não se conheciam...
Bjs.
Continuo a gostar dos teus textos.
ResponderEliminarBeijinho
Nem os barcos sabem explicar
ResponderEliminaro ciclo das marés
Acordamos com Sol e regressamos a casa debaixo de chuva forte....
ResponderEliminarPorquê????
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta
O anonimato tão utilizado neste mundo.
ResponderEliminarBeijinhos
Terei que procurar a aconselhada obra...
ResponderEliminarAté lá só te poderei entender esse anonimato citadino que, como um agasalho, evita o escândalo provinciano...mas como vivo na província, o anonimato citadino assusta-me como a animal bravio encurralado. Pertenço ao grupo dos felinos...
Beijo amigo
(É bom pensar se ser nas minhas burocracias...)
Olá, como está?
ResponderEliminardepois duma forçada ausência
aqui estou de novo a visitar os amigos!
Saudações minhas
um convite à leitura da Filosofia alimentada de grandes pensadores, 3 deles, aqui bem mencionados, fazendo "jus" à arte de ensinar a refletir.
ResponderEliminaro anonimato, a forma mais fraca de fugir à verdade.
Este post é uma torrente de matéria 'nobre' para reflexão. A dança a dois por concretizar. A dança literal e a dança metafórica, traduzida na separação. Há a dança de vontades divergentes. Há a vontade, em si mesma, frequentemente indomável e sobreponível aos afectos e/ou há razão, numa espécie de 'comando' com vida própria. Há a Filosofia, inesgotável em interrogações e alegorias, de que Ulisses é um bom exemplo. E há ainda a formulação das frases na primeira pessoa do plural: desfez-se a relação, mas não o vínculo.
ResponderEliminar(E haveria muito mais ainda...)
Um abraço! :)
JPD,
ResponderEliminarA vontade segundo o livre arbítrio de Santo Agostinho, a Lei Kantiana sobre a própria vontade, mais pragmática, e finalmente, a lei de Nietzsche de forjar a própria vontade - esta mais dionisíaca - são três estádios evolutivos da vontade que caminham para o prazer/desejo?
O melhor é ser errante como Ulisses!
Gostei do exercício metafísico e abstenho-me de falar no pragmatismos da dança.
Abraço!
Joga-se fora o anel, tenta a invisibilidade e dança ... rsrs
ResponderEliminarvontade doida de mudar algumas coisas JPD
vou ler Pedro Mexia que diz ter demônios que lhe assopra as palavras todas rsrs (Vida Oculta)
mando abraços e agradeço bela partilha
Há aqui "pano filosófico" para uma série de mangas (ou para uma tertúlia de muitas horas)!
ResponderEliminarFico-me pelo caminho que se calhar nunca nos levará a Ítaca - sabendo que o importante é o caminho...
A vontade de dança ainda é coisa remediável, basta, tantas vezes, sucumbir ao abandono. Já a dança da vontade será coisa mais complexa. Ou não. Bastará, tantas vezes, sucumbir ao abandono :)
ResponderEliminarBom fim de semana, JPB! Com direito a ser deixado em paz, se para aí se inclinar a sua vontade :)
Quem envereda por lugares públicos sabe que acabando o anonimato passa a frequentar um sítio onde a privacidade é quase uma utopia, mas, por cá, em nome da liberdade à privacidade vão-se cometendo muitos crimes de lesa-pátria e aí... alto e pára o baile porque a dança... é outra ;)
ResponderEliminarBjos
Nem sempre o desejo e a vontade coabitam, nem sempre alcançamos o que achamos fácil, e a desilusão é muitas vezes uma constante.
ResponderEliminarSempre muito interessantes os teus textos mas nem sempre fáceis para mim confesso.
beijinhos
Sem dança a dois... "um anel", mais dia menos dia é deitado fora.
ResponderEliminarAbraço, JPD
a R diz que se desfez a relação mas não o vínculo e a frase fica a ecoar, de tal modo é forte, eu não sei se percebi este texto, percebi que a vontade do outro é um mistério quando a nossa a quer compreender. quando te apartas, levas a minha na tua vontade, sem qualquer liberdade, é isso?
ResponderEliminarum texto pleno de referências culturais que nos engrandece. gostei muito de ler, duarte. um grande beijinho.
ResponderEliminarFalando mal e depressa, isto é areia de mais para o meu camião... (desculpa a grosseria, mas é verdade)
ResponderEliminarDe qualquer maneira, o anonimato, do qual desfruto aqui e agora, permite-me o atrevimento suficiente para aventar uma simples e duvidosa interpretação...
Às vezes vivemos com vontades "emprestadas" sem nos apercebermos disso. Quando queremos viver a nossa real e original vontade, exigimo-nos uma responsabilidade superior e isso pesa tanto, que chegamos a suspirar pelo anonimato.
Nunca o anonimato deixou de o ser como hoje...veja-se o que se passa nas redes sociais. As pessoas mostram tudo,o que têm e o que não têm...tornou-se uma moda expor a todos o beijo do marido, o beijo da namorada,confissões de amor...a intimidade exposta de livre vontade.
ResponderEliminarNas grandes cidades é provável que se consiga recato e sossego...o mesmo não se passa nas pequenas ...
Beijo