
Solidão
«Liberdade de estarmos sozinhos, à vontade em nossas casas, sem qualquer escrutínio.»
Estive pela última vez em casa do Sérgio.
A irredutibilidade, para desespero mútuo, grassava.
Foco de tensão: abandonar os nossos apartamentos para irmos viver juntos, num projecto de habitação com base de partida neutra.
Bloqueámos.
Subitamente, já gritávamos acusações de egoísmo, desinteresse, desistência.
Não dormi lá.
Não aceitei ser levada para casa.
Chamei um táxi: mais uma acha.
Nem nos despedimos.
Na Sexta da semana seguinte, um mail.
Melífluo, o Sérgio desafiava-me para um «jantarinho» cá em casa.
«Como nos velhos tempos. Que te parece, Sofia?»
Ensaiaria uma reconciliação?
Aceitei.
«Traz um vinho a preceito. Tratarei do resto.»
À refeição a conversa foi circular.
Não houve um tópico que nos tivesse empolgado.
Elogios recíprocos à comida, ao vinho e às flores, sim.
O projecto da habitação foi ignorado.
Já no sofá, à volta do café e dos digestivos, o Sérgio insinuou-se.
A minha recusa foi firme.
Quando nos separámos
Ele levou o meu sinal de reconhecimento.
Sem uma certeza.
Uma leve esperança animou-o.
Eu fiquei feliz.
Bom sinal para ambos?
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(1º/3)
Em 29 de Janeiro, Pedro Mexia assinou no Público um artigo sobre «Privacy And Freedom» definindo 4 aspectos da privacidade.
Com base neles, desenvolvi esta e as edições que se seguem.
pois por falar em pedro mexia (e antecipando o poedia de amanhã), imagino sérgio a telefonar a sofia...
ResponderEliminarEu amo
Eu amo o teu gravador de chamadas.
Ele não me abandona
e repete vezes sem conta
a tua voz.
Pedro Mexia
Desde que se termine sem demasiadas recriminações, é bom fina´l para ambos, eu acho.
ResponderEliminarSaudações .
Um fim não tem que ser em guerra. As pessoas civilizadas conseguem resolver tudo com harmonia.
ResponderEliminarBeijinhos
OLá
ResponderEliminarBom sinal...porque não?!
Amizade ou amor podem durar eternamente...(respeitando a liberdade de cada um).
Bjs.
Privacidade? Liberdade? Cada vez temos menos... e em casa... fica-nos a ilusão de as ter ;)
ResponderEliminarBjos
Estou a ver uma notícia macabra na TV: idosa morta há oito anos num prédio. Acabei de ler o teu post ...e penso na solidão e na privacidade. JPD, meu amigo, estranha é a vida.
ResponderEliminarBeijo
Estou de acordo com a Ana, nem sempre é fácil "escolher" entre a privacidade e a solidão.
ResponderEliminarUm tema muito interessante e actual, que merece uma reflexão profunda.
beijinhos
A privacidade é algo essencial, hoje em dia as pessoas gostam de viver cada uma em sua casa e depois vivem alguns dias em comum, talvéz essa seja a solução para este casal.
ResponderEliminarAo ler este teu post, lembrei "Elogio ao Amor", uma crónica do Miguel Esteves Cardoso.
ResponderEliminarAbraço, JPD
Na minha opinião, uma relação amorosa é mais consistente se cada uma das partes souber sustentar-se por si só, a todos os níveis... Mas isto não passa da opinião de quem nunca conseguiu construir uma relação amorosa e, portanto, não deve valer grande coisa...
ResponderEliminarAcabamos sempre por viver em solidão... o dia-a-dia leva-nos a vivê-la com mais ou menos intensidade.
ResponderEliminarAbraço!
Ainda estou a ponderar o facto de ter iniciado o seu post com a palavra "solidão" e não com aquela que seria mais expectável: "privacidade". Será que o excesso de zelo relativamente à nossa privacidade poderá desembocar na solidão??
ResponderEliminarE será que as redes sociais, mormente os seus benefícios, não representarão muitas vezes o sacrifício da privacidade em nome de uma fuga à solidão?
Hoje estou virada para as interrogações, como se vê. A "culpa" é do interpelador :)
Um abraço!
As razões da solidão são certamente incontáveis. Em alguns casos, como o texto parece indiciar, a solidão é fruto da inconciliação. Conciliar é difícil. A divergência, em maior ou menor grau, é uma variável constante nas relações humanas. Preservá-las passa, entre outras coisas, por esse exercício crucial de conciliar as diferenças (de vontades, de interesses, de valores, de ideias, etc., etc.). Veremos o que acontece ao Sérgio e à Sofia. Uma coisa é certa: independentemente do resultado final, 'reconhecimento' e 'esperança' são sempre ingredientes benéficos.
ResponderEliminarUm abraço 'reconhecido' pelos desafios sempre pertinentes :)
JPD,
ResponderEliminarVoltei porque na minha mente ficou a martelar a palavra solidão e a palavra privacidade. Não as leio como sinónimos.
Privacidade vem de privar segundo os nossos interesses. Não será?
Solidão é um acto ambivalente, ou seja pode partir de um acto voluntário ou de um acto involuntário. Neste caso, uma das premissas não parte de um acto consciente.
Privacidade é um sentimento legítimo e cada um usa-o à sua medida.
Quanto às redes sociais que agora li no comentário da Sara, são o Ego a libertar-se para o outro virtual. Podem ser mais do que isso, mas essa questão não me compete explorar.
As redes sociais são procuradas, por vezes como a fuga à monotonia rotineira, são a procura do reflexo num espelho. Talvez a partilha, mesmo que virtual, nos faça sentir menos sós porque a solução reage como um vaso comunicante. Depois há, ainda, uma questão relevante: do outro lado só há sombras e contornos sem rostos definidos...
Porém, também podem ser jogos e os dados são lançados para os interlocutores interessados.
Acima de tudo, é uma forma menos solitária de estar no mundo ou pode ser ainda, uma manifestação assumida, narcísica ou não.
Mas a vida não é afinal um jogo?
O tabuleiro está em cima da mesa, do mero peão ao cavalo, da torre ao bispo, da rainha ao rei, o jogo apenas pode ser jogado por quem quer.
A solidão nem sempre é má, pelo menos é criativa. A privacidade é um acto de vontade.
Peço desculpa por este longo monólogo.
A liberdade e a privacidade, a meu ver, trazem sempre consigo alguma solidão.
ResponderEliminarGostei muito da ambiguidade do final do texto: a vida tem essa ambiguidade...
JPD, agradeço-lhe os esclarecimentos deixados no meu blogue. Estarei certamente atenta aos próximos "desenvolvimentos".
ResponderEliminarBom fim-de-semana!
Hoje vi o filme "Biutiful", ainda estou a digerir...
ResponderEliminarAs notícias da solidão extrema, que é viver e morrer sozinho...
Foi um dia em cheio.
Vou ler um pouco.
Boa semana
de quando a conversa se substitui ao verdadeiro diálogo. gostei muito de ler. um beijinho.
ResponderEliminarGosto da solidão JPD
ResponderEliminare a gente pode sempre chamar um táxi rs
Gosto de ler sua página , sempre me enriquece.
abraços
Gosto de privacidade, mas detesto a solidão.
ResponderEliminarEstes textos enriquecem-me sempre, não só pela reflexão, mas mais pela beleza que encerram, mesmo quando os temas são doridos. ou sofridos,
(Por vezes é mau, darem-nos espaço a mais...mas isto talvez seja a idade madura a querer atenções que sempre fez questão de não precisar :-)
Na minha opinião privacidade,liberdade e solidão são todas distintas...ora vejamos; privacidade pode ser do casal ou individual,se estou casada com alguém não quer dizer que prescinda da privacidade...é um espaço próprio...um casal não tem de se intoxicar ...nem asfixiarem-se mutuamente...Saber gozar a liberdade individual é importante...saber ir e saber voltar...liberdade não é libertinagem...não façamos aos outros aquilo que não queremos que nos façam a nós...
ResponderEliminarSentir solidão pode significar que não sabemos estar um pouco sós......e sentir-se bem consigo e ter uma relação amorosa é positivo...Não podemos estar permamentemente colados à pessoa amada...senão é doentio...
Agradeço a recomendação,vou procurar saber.Não perco a leitura.
BJ