
A nossa relação estava esgotada.
Era um facto.
O Afonso já o pressentira.
Eu disse-lhe
«É melhor acabarmos.»
«Como?»
«Não vale a pena continuarmos, Afonso.»
Terá pensado que estava a ser rejeitado.
Não aceitou.
Não suportou essa ideia.
Não era disso que se tratava.
«A gente não se vai entender, Afonso»
«...»
O Afonso entrou na fonte de água, no átrio do centro comercial, apanhou uma moeda avulsamente depositada sob os três golfinhos lançadores de água e, exibindo-a, gritou
«Quando atiraste esta moeda para aqui, Clara, que desejo formulaste?»
Eu fiquei tão perturbada que tudo pareceu imobilizar-se à minha volta.
«Responde Clara, é este o valor do nosso amor?»
Levei as mãos à cara mal suportando o espanto de quem por ali passava, aquela gritaria, o segurança, determinado, a caminhar direito a nós.
O Afonso encheu o boné de água, atirou-o à cara do segurança, deu-lhe um murro no estômago, deitou-o ao chão, pontapeou-o e desceu as escadas rolantes, em fuga.
Eu estarreci.
Deixei-me escorregar, sentar-me com as costas apoiadas na parede da fonte de água, a chorar convulsivamente, a sentir o movimento de fuga de todos, a dor do segurança, a vergonha que ensombraria a minha vida.
Olhei em frente e a imagem da rua que transpunha a entrada do centro comercial apresentava-se como um pano sem cor definida, exibindo um horizonte conturbado e sem esperança.
Assustador, tamanho era o vazio.
No instante seguinte, enquanto o segurança recuperava e pedia reforços, a silhueta do Afonso, imobilizada na escada rolante, emergia com um esgar vítreo, a regressar ao campo de batalha.
Que despojos haveria para recolher?
A primeira vez que fui a uma esquadra de polícia, mal transpus a entrada.
Partíamos para férias e os meus pais queriam saber se a nossa casa poderia ser abrangida pelos serviços de vigilância da polícia.
Mal recebi o formulário, desandei.
Agora sinto-me desolada.
Recebemos voz de prisão.
O ambiente é de intensa crispação.
Na participação de queixa à polícia o segurança do centro comercial indicou-me como acólita do Afonso.
Fomos sentenciados a trabalho cívico.
Durante três meses teremos de limpar a fonte dos golfinhos no centro comercial, encher balões e oferecê-los às crianças que passarem.
Ontem um miúdo de sete anos, depois de receber o balão, agradeceu e, perplexo, apontando frouxamente para nós, perguntou
«Estes são os d'à rasca, vó?»
«...
To look at you could ease my pain
Could be enough for me
I've lost my self
As we lost one another
I wonder if you know
The way you reached my heart
And touched my alien soul
Foolish love
Soon we fall apart
Why can't ease
For a sleepless heart
...»
«SLEEPLESS HEART»
Rodrigo Leão
To look at you could ease my pain
Could be enough for me
I've lost my self
As we lost one another
I wonder if you know
The way you reached my heart
And touched my alien soul
Foolish love
Soon we fall apart
Why can't ease
For a sleepless heart
...»
«SLEEPLESS HEART»
Rodrigo Leão
Muito bom, o texto.
ResponderEliminarBoa noite, Gato.
Olá
ResponderEliminar...são o rosto de um país sem "rei nem roque"!
Bjs.
não percebeste os olhares interessados do segurança, enquanto se recompunha e pedia reforços? tivesses dito que não sabias quem era aquele vândalo e estavas agora a namorar no centro comercial, de mão dada com o segurança, patrulhando civicamente os serviços de limpeza do afonso à sombra dos golfinhos...
ResponderEliminarque parva que és, clara.
Durante muito tempo (e não sei se ainda hoje acontece), os imigrantes eram culpados, apontados e condenados, porque vinham tirar o trabalho ao povo. Na verdade, vinham fazer o trabalho que muitos portugueses não queriam fazer, nem que lhes pagassem. Agora, que a verdade veio à superfície e os imigrantes estão a ir embora, porque, mal por mal, preferem estar onde os entendem, temos não uma, não duas, nem três, mas talvez umas cinco gerações à rasca, que quase pagam para trabalhar.
ResponderEliminarMudam-se os tempos e não só...
Onde é que fica esse sistema de justiça? Trabalhos cívicos para delinquências menores em menos de 24 horas... Sem contemplações!...
Um texto muito bem escrito que mantém o interesse do leitor até ao fim. O Afonso, por amor, ou por falta dele, ou porque tudo o mais lhe corria mal, esmurrou o segurança e um outro jovem, há dias, por amor,depois de ter feito um grafitti, foi parar à prisão por não ter cumprido o serviço cívico que lhe foi imposto. Espero que este par o cumpra, na íntegra.
ResponderEliminarAfinal todos nós sabemos que ficamos " à rasca" sempre que o amor vacila. Falta-nos tudo, arrastamos outros, descontrolamo-nos... e Só por amor.
Bem-hajas!
Beijinho
Como sempre, muito bom texto. Envolvente. Gostei muito do final :)Beijinho
ResponderEliminarPor amor ...será por amor que se esmurra um segurança? Que se provoca um escândalo? E depois submeter-se a trabalho cívico? Receio as pessoas que não têm controlo sobre si próprias...dar um murro na parede...um pontapé numa lata que se encontra na calçada...Nada jutifica a violência ...ninguém tem que apanhar com o "lixo" dos outros.
ResponderEliminarBelo texto, muito bom mesmo!
Bjs
Sempre a mesma capacidade de criar e ironizar!:-))
ResponderEliminarAbraço
Que volta deu a moeda!
ResponderEliminarGosto de Rodrigo Leão, da leveza da ironia fluída, e "c'est comme ça"!
ResponderEliminarSão os 'd'à rasca' a fazer, por mero acaso, trabalho cívico; mas podia ser do (mal)remunerado, já que é essa a maior probabilidade. Como sempre, as crianças são 'cristalinas'. Já o amor pode efectivamente ter esse efeito: o da perda (da razão) do 'eu'.
ResponderEliminarAbraço!
PS: Rodrigo Leão foi uma escolha perfeita! :)
à rasca até o avô
ResponderEliminarmesmo leão
com um bom texto
como sempre
Abraço
Oi JPD
ResponderEliminarVenho me deparando sempre com essa palavrinha em moda por aí "à rasca" confesso que precisei pesquisar porque era ate entao desconhecida rsrs
... "que parva sou" eu rsrs
o vocabulário de Portugal me escapa toda hora rs
nós abrasileiramos tanto que perdemos não só o sotaque ...
tenho aprendido muito com seus textos, voce é um mestre! obrigada.
pena que a "presidenta" como ela gosta de ser chamada precisou inerromper a viagem por conta do falecimento do ex vice ( uma perda sentida)
Rodrigo Leao e meu coração insone.
já é madrugada , dorme coração!
abraços
Um centro comercial não é o local adequado para se terminar uma relação....Essa violência não resolveu nada; pelo contrário, apenas agravou a situação...
ResponderEliminarE continuamos todos "à rasca"...Como sempre, um texto surpreendente....
Beijos e abraços
Marta
Gosto do texto muito bem tecido; gosto da ironia da pena aplicada; gosto do que leio nas entrelinhas!
ResponderEliminarGosto!
Sempre muito bom vir ler-te!
ResponderEliminarA ironia é, como foi dito, «a arma branca dos tímidos»...
Tens toda a razão no fundo temático: os «d'à rasca» não foram preparados para nenhuma espécie de rejeição.
Beijo de boa noite
Quando as vontades se dispersam em direcções distintas, bem se pode acabar assim: assumindo comportamentos bizarros ou encerrados numa "prisão". Quanto ao trabalho cívico, do mal o menos :) Se a punição para comportamentos similares fosse sempre esta, o mundo talvez fosse um lugar mais aprazível.
ResponderEliminarBom Domingo!
Os putos sempre foram muito espertos... e sem papas na língua.
ResponderEliminar;)
Ironia a tua... amei!
ResponderEliminarO mundo está em convulsão, e quem a promove parece ter planos para todos. Pouco auspiciosos, por sinal. No texto em questão - escrito com muito talento, diga-se - o Afonso e a Clara funcionam como uma espécie de cobaias observadas por quem, aparentemente, está fora do sistema. Mal sabem os observadores que também estão a ser observados. Falta é o texto.
ResponderEliminarParabéns, JPD!
Abraço
Curioso o bom texto
ResponderEliminarFoi a pergunta que o meu neto me fez
Ainda há muito para vir a lume...
ResponderEliminaressa da geração rasca!
Saudações poéticas