Quarta-feira, 23 de Março de 2011

«'Tou quê?»

Na viagem de comboio para Lisboa, apenso nas costas do lugar à minha frente, encontrei um post-it amarelo com a seguinte inscrição manuscrita.


«TÁSÓLHAR?!»


Apeteceu-me guardá-lo.

Como o lugar ao lado do meu estava vago, coloquei-o nas costas do banco em frente e continuei a minha leitura.

Em S.Pedro, uma senhora de quase sessenta anos, leu o post-it, olhou para mim («Engraçadinho...») e ignorou-o.

Em Oeiras, o lugar foi ocupado por um homem de trinta anos. Terá reparado? Abriu o jornal («Alguém anda a 'gamar' post-it à empresa onde trabalha para tretas destas. Hum!...») e tapou o papelinho.

Em Algés, um jovem ocupou o lugar do homem, reparou no post-it, Riu-se («Um Cóta bem disposto. Adaptar-se-ia ao Facebook... Sei-lá se aceitaria um convite meu. Bah! Vou bazar...»), pegou nele e colocou-o nas costas do banco à minha frente. Sorriu. O comboio chegava a Alcântara.



Dos filmes épicos sobre a actividade marítima, quem se não lembra da figura das altas patentes de óculo em riste a perscrutar o horizonte, tentando “embutir” no diâmetro da sua lente um navio amigo, inimigo, uma ameaça, uma aproximação furtiva?

A luz que definia os contornos da observação, na prática, seria a mesma que trespassava o óculo arquitectónico do frontispício das igrejas, aonde os navegadores iam (Leia-se o capítulo da cerimónia na igreja, no «Moby Dick»), antes da partida para as grandes travessias marítimas. A benignidade dessa luz seria superlativa, talvez excelsa, porque, exaltando a fé dos crentes, ungia-os da bondade divina.

Tudo isso se foi perdendo.

Até muito recentemente, o óculo está confinado à porta da rua de nossa casas e, na maioria delas, já foi substituído pelo visor de imagem.

A evolução foi de tal ordem que quase ninguém acusa seja quem for de "bisbilhotar", voyeur, sim; causticante, muito estigmatizante.

Esta mudança, promoveu outra coisa ainda: um gosto viciante e viciado de olhar, ver, espreitar... apesar de os visados continuarem a detestar serem vistos, apesar do desprendimento quanto à privacidade que se vai acentuando.

Que dizer das filas intermináveis de candidatos ao Big Brother e tanta parvoíce que por aí tem grassado, como por exemplo, as conversas ao telemóvel,


«TÁS
Ó'VIR?!»


21 comentários:

  1. Gostei da reflexão, evidentemente.

    Boa semana

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  2. Não!...TÓaler!!!

    Fizeste-me rir com o teu humor refinado.

    A vida é uma roda em constante evolução(muitas vezes para pior), onde nem o "bisbilhotar" escapou!!!

    Bjs.

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  3. A minha filha quando era mais nova tinha um telescópio que lhe ofereceram pela ocasião da passagem do Halley. Um dia, fui dar com ela a apontar o instrumento ao prédio do lado, "por curiosidade"... se calhar é a natureza humana. Sempre achei estranho que na terra natal da minha mãe, os ingleses não usassem cortinas nas janelas (nem persianas, estores, portadas ou afins claro está)e achassem perfeitamente normal que se visse para dentro de casa especialmente de noite. Para uma portuguesa que preza muito a sua privacidade isto é estranho... Eu, logo que escurece, fecho cortinas, persianas e respiro de alívio na minha redoma que é só minha...

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  4. E nos meios pequenos todos sabemos a vida dos vizinhos ainda que o não queiramos. É na mercearia( ainda as há), na venda, na compra do pão,do peixe, da fruta, junto dos carros dos respectivos distribuidores,tudo se desvenda,tudo se comenta...
    E vai-se assistindo a um big brother cada vez mais alargado...

    Bem-hajas!

    Abraço fraterno

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  5. Numa hora em que os nossos «actores» desenham um Portugal estranho...só tu, com a tua perspicácia para, ironicamente, me devolveres um pouco de humor/esperança na inteligência humana!
    Quando lia Freud e os que lhe sucederam essa palavra «voyeur” parecia-me uma doença muito perigosa...
    Beijinho

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  6. Olha-se muito mas vê-se muito pouco, acho eu! Muito interessante e original, a tua reflexão:))

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  7. Nem todos sabemos olhar a fundo e interpretar os sinais....Precipitam-se em conclusões desastrosas e vira-se o mundo de pernas para o ar...
    Texto interessante para meditar....
    Beijos e abraços
    Marta

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  8. Olá, meu caro!

    Obrigado pelos seus votos sobre ao meu livro.
    Dizem-me que correu bem e que me vão enviar um vídeo.
    Depois coloco-o no blog.

    Forte abraço

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  9. Venho à pressa dizer-lhe que lhe deixei um presente no (IN)Cultura. Virei ler o texto com a atenção que merece.
    Beijinho.

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  10. JPD
    O verbo "olhar" tem essas variações
    delas o espreitar é mais sorrateiro furtivo .
    Me encanta mesmo são os olhares demorados da minha gata ( poderia ser gato rsrs)
    gostava dos flertes também , eram bons olhares rs

    e tem o horizonte , como é bom espreitá-lo!

    pra complementar sua bela escrita , vou deixar um poeminha de Galileu pra voce :

    "Pensava que aqui vinha
    espreitar o mar.
    Descobri que venho apenas
    para falar contigo,
    para te olhar,
    sentir e abraçar.
    O mar e o céu unem-se
    não em azul infinito
    mas em cor de prata cinzenta.
    Tu és uma dança de gaivota
    uma brisa de vento em liberdade
    és um aceno de fantasia
    que me cativa o olhar.!

    abraço e obrigada pela criativa postagem.

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  11. Tens muita razão, JPD.
    Boa Sexta

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  12. Tantos 'Ólhares' quantos os protagonistas. Bem visto! Cada cabeça (e respectivos olhos) sua sentença! O que por aqui se vê é sempre um laboratório experimental de ideias e palavras reunidas num resultado invariavelmente 'supimpa' e bem-humorado. Também se ouvem muitas coisas: as que aqui são ditas e os ecos que deixam na cabeça de quem as lê.
    Abraço! :)

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  13. Este post, JPD, fez-me vir à memória um livro que li na minha entrada na vida adulta: "O Homem Que Olha" de Alberto Moravia, uma excelente análise do voyeurismo. Mas se Moravia aborda o voyeurismo do amante, vemos agora grassar por aí um outro tipo, verdadeiramente pandémico e talvez, na minha modesta opinião, pouco consciente.
    Um abraço! Bom fim-de-semana!
    Não me canso de sublinhar o quanto gosto dos seus criativos exercícios combinatórios.

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  14. JPD:
    Mais um post certeiro, inteligente e que nos põe a reflectir sobre a natureza humana.
    Talvez por isso mesmo a internet tem tanta popularidade, observamos e ninguém nos vê, isto penso eu ;)

    beijinhos

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  15. Cada vez mais me parecem ser desnecessários óculos, binóculos e afins para espreitar a privacidade dos outros, já que eles próprios se encarregam de a escarrapachar para todos verem... Esquisito, porém, que fiquem depois muito incomodados por lhes terem "invadido" a privacidade!
    Era bem mais engraçado quando espreitávamos pelo buraco da fechadura e ficávamos com um grande Ó de frustração na cara, porque, do outro lado, o espreitado nos acenava alegremente, como quem diz "TásÓlhar? Então Ólha" e colocava a chave de modo a impedir a visão.

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  16. Virei ler-te calmamente...entretanto... aos meus ensaios, certo?

    Bjs

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  17. é o nosso olho clínico, a curiosidade matou o gato, não foi?

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  18. passei por aqui por acaso mas comecei a rir com este post e fui ficando até o ler todo!

    acho que devíamos todos desatar a colar post-its com ditos engraçados por aí!

    ainda sobre os post-its, há um blog que és capaz de achar interessante: thingsweforget.blogspot.com (e não, não é o meu, lol).

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  19. Uma evolução que mais parece regressão...

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  20. E o olhar olhou...nas mais variadas ruelas da imaginação. Excelente exercício, que proclama um escrever solto mas atraente. Nada de inédito, que por aqui já não tenha dito.
    Abraço!

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  21. Interessante esse post-it... ver as reacções das pessoas...isso de certa forma remete-me para aquele programa de tv "os apanhados"-

    As voltas que o mundo dá...pois é...nem óculo em riste...nem olho arquitectónico do frontispício...hoje a privacidade está exposta nas redes sociais e nas ruas em alto e bom som!!!

    Boa reflexão... muito a propósito dos tempos que vivemos!

    Bjs

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