Quarta-feira, 16 de Março de 2011

«WTC: TO REACH THE CLOUDS»



Em 1966,
Aida Luiza Ash Bul vaticinou:
«As Torres Gémeas (WTC)
tanto poderiam ser o início de uma nova era
para os arranha-céus,
como as maiores lápides do mundo.»

Em 1974,
(Conquistadores do inútil?)
Philippe Petit caminhou sobre um cabo esticado
entre as Torres do WTC.


Para o segundo dia de estadia em NY, o roteiro incluía uma passagem pela grelha do metropolitano onde Marilyn Monroe esteve a fazer o seu take mais famoso, no cruzamento da Forthy-ningh com Lexington e, a seguir, ida ao Ground Zero.

Eu e o Sérgio vestíamos calções; a Ana, calças de ganga; a Margarida, saia.
Para o Sérgio, a passagem pela grelha seria uma prerrogativa das senhoras; eu ofereci-me para filmar.
A Ana deu dois passos. Parou em cima da grelha. Afundou as mãos no seu farto cabelo a roçar os ombros e, segura do efeito, esperou que a corrente de ar o enfunasse.
Ficou exuberante.
Feliz por ter captado aquele momento, ainda hoje rejubilo.
A Ana saiu da grelha, aproximou-se
«Deixa ver como ficou... Excelente, Luís
Beijou-me.
Todos concordámos. Ficara magnífica.
A Margarida, recuou dois ou três passos. Tomou um balanço contido e fez o pino em cima da grelha. Por breves segundos, preservou o que parecia inevitável, a réplica da elevação da saia como, lúbrica, a Marilyn fora incapaz de impedir.
Ninguém estava à espera de uma coisa assim.
A Margarida a fazer o pino com a saia colada ao corpo. O vento expandido da grelha forçando a saia a cobrir-lhe as pernas.
E era tão singular a silhueta dela.

Quando chegámos ao Ground Zero o mutismo foi inevitável.
As imagens de desolação e incredulidade eram esmagadoras.
O vazio e a revolta, veementes.

Para nossa surpresa, a agitação da Margarida residia numa narrativa surpreendente.
O pino na grelha, aquele upside down, revelara-lhe um funâmbulo.
Afligia-se tanto, porquê?
É que, em vez de aparecer em cima do cabo de aço, agarrado à barra de equilíbrios, a imagem do funâmbulo surgira-lhe invertida, como se estivesse colado ao cabo, de cabeça para baixo.
Seria premonição se esta imagem tivesse sido captada antes do atentado. Agora, significaria o quê?

A experiência ensina-nos que a vida será mais simples se estabelecermos elos de ligação, integrarmos redes de interesses, se socializarmos.
A resistência e a força dessa rede é tanta quanto a robustez das ligações obtidas uma vez sujeitas às adversidades e ataques do exterior.

O equilíbrio daquele homem inversamente visualizado pretendia evidenciar réplicas de pontos de rotura imperceptíveis?
A posição era inverosímil.
Porém, porque razão lhe era impossível equilibrar-se em cima do cabo?

A Margarida relatou que ao desfazer o pino a imagem invertida do funâmbulo se desvaneceu.

É possível forçar limites?
Podemos evitar ser surpreendidos?
Continua a ser insuportável aceitar que

«O mal ameaça a razão humana,
pois põe em causa a nossa esperança de que
o mundo tenha sentido.»

Susana Neiman
«O Mal No Pensamento Moderno»
Gradiva


21 comentários:

  1. Ler estes textos é um prazer.Escrever com eloquência é um privilégio de uns quantos e acrescentar este sabor especial à escrita,que a torna tão apelativa, faz deste blogue uma referência.

    Bem-hajas!

    Abraço fraterno

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  2. Argumento perfeito...
    Curioso não vou a NY desde essa "revolução" das Torres. Tenho adiado, de dia para dia, essa "visão". Obrigado amigo, por mais este excelente "documentário" e, pela visão angustiante:

    Em 1966,
    Aida Luiza Ash Bul vaticinou:
    «As Torres Gémeas (WTC)
    tanto poderiam ser o início de uma nova era
    para os arranha-céus,
    como as maiores lápides do mundo.»

    que não conhecia!

    Um abraço!

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  3. Olá

    Vaticínio meio-certo...(a pior metade).

    O limite existe. É a força mais poderosa.

    Parabéns pelo texto BRILHANTE.

    Bjs.

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  4. Há sempre limites....mas não devemos deixar de sermos surpreendidos.
    Porque o "mundo tem que ter um sentido"...
    Texto brilhante...
    Beijos e abraços
    Marta

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  5. Se eu ainda encontrasse Roland Barthes ter-lhe-ia dito:
    - lembra-se da diferença entre «prazer» e «fruição» do Texto?
    Dar-lhe-ia de exemplo este texto! Os teus textos são para fruir, que isso do prazer é enganoso.
    Gostei muito.
    Agora, meu amigo JPD, ainda vou ser escrevente de uma Acta enoooooooooorme. Logo eu que detesto verborreia.
    Beijo

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  6. livro do genesis:

    «em toda a terra, havia somente uma língua, e empregavam-se as mesmas palavras. emigrando do oriente, os homens encontraram uma planície na terra de sinar e nela se fixaram. disseram uns para os outros: «vamos fazer tijolos, e cozamo-los ao fogo». utilizaram o tijolo em vez da pedra, e o betume serviu-lhes de argamassa. depois disseram: «vamos construir uma cidade e uma torre, cujo cimo atinja os céus. assim, havemos de tornar-nos famosos para evitar que nos dispersemos por toda a superfície da terra».

    (torres de babel, torres de papel...)

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  7. O mundo não tem mesmo sentido, mas é muito saudável arriscar coisas novas em circunstâncias idênticas, forçando limites. Sinal de juventude...

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  8. É possível forçar e ultrapassar limites :-)
    Deveríamos saber evitar NÃO SER(mos) surpreendidos :-))
    Esta (maravilhosa e surpreendente) escrita que aqui encontro ajuda-me a questionar o sentido do mundo. E é bom,

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  9. JPD,
    Gostei do seu comentário e vinha deixar-lhe uma resposta. Acerca deste texto vou pensar e depois partilho as sensações.

    (Acerca do Japão)
    Há quem faça previsão sísmica com modelos que se aplicam à economia e com uma aproximação razoável. Já a intensidade é mais difícil, ao que parece.
    Tempo útil? Penso que é difícil porque os meios tinham que ser muitos e a probabilidade é só aproximada. Ainda há muito para fazer neste campo.

    O homem quer vencer a natureza mas a sua capacidade é limitada! A natureza supera todas as expectativas e cálculos.
    A angústia daquele povo é exasperante e a factura a pagar é imensa. Neste caso para que importa a noção de tempo?
    Só há instante, segundos, e anos de recuperação ilimitados.
    O tempo sempre ele a demarcar a vida.
    A sua noção divide-se em três parâmetros:
    -cognitivo, funcional e simbólico! Ao primeiro corresponde a percepção, ao segundo, o calendário e ao terceiro a divinização do tempo num ritual sagrado.

    Abraço!

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  10. Todo o teu texto é perfeito e arrepiante, destaco no entanto o último pensamento tão actual e apropriado.

    «O mal ameaça a razão humana,
    pois põe em causa a nossa esperança de que
    o mundo tenha sentido.»

    Estamos a ficar sem esperança.

    bjs

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  11. Oi querido JPD
    Lendo o admirável texto lembro de um versículo bíblico ( sou leitora assídua rs) que diz em Provérbios 16.25 assim:
    "Há caminho que parece direito ao homem, mas afinal são caminhos de morte."
    Palavras do sábio rei Salomão, famoso pesquisador judeu lembra que por nao encontrar sentido pra sua existência o homem provoca sua própria ruína.
    Há sentido na realidade , sim ,imperceptível , as tais causas e efeitos.
    O filósofo Schopenhauer, disse que " não existe um deus benevolente por trás da natureza "
    Há de haver limites...
    Obrigada pelo primoroso texto .
    Gosto de vir reafirmar minha admiração e carinho.
    com abraços

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  12. Estes teus textos são um prazer para quem gosta de ler bom português e narrativas sempre originais.

    Momentos e lugares que marcam.

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  13. Interessante este colorido de momentos, que se mistura e se destaca.

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  14. Fico sempre preenchida com a passagem por aqui. Preenchida de bom humor, preenchida pela inesgotável capacidade de surpresa que aqui se encontra e preenchida de ideias para reflectir. Neste particular, junto-me a ti na resistência à formulação de S.N. Tenho para mim, que se aceitarmos o mal como parte integrante do mundo, retiramos-lhe o poder de perturbar a razão. Bem pelo contrário, tudo se torna mais claro, porque menos ingénuo, mas nem por isso menos 'esperançoso'. Até porque é frágil a esperança alicerçada na rejeição do mal. Para que persista, impõe-se, antes, a expectativa do bem que há-de sobrevir.

    Abraço!

    PS: Subscrevo inteiramente a importância dos laços e a aferição da sua robustez pela observação do que resta do confronto com os desafios...

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  15. Como sempre, um excelente texto, mas o que é que esta Lélé captou? Quase nada, diria eu (que sou ela, afinal).
    Aquelas perguntas finais: é possível forçar limites? Acho que sim... até ao limite do limite e depois vê-se qual é esse limite (como está a acontecer na nossa política, aliás). Se podemos evitar ser surpreendidos? Penso, também, que sim, mas como preferimos as más surpresas à perda das boas surpresas, optamos por não tentar sequer evitar...
    (Penso que acabei de forçar um limite. Mas sou muito limitada mesmo.)

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  16. JPD,
    Não reli o texto, estou a escrever sobre o que a minha memória captou.
    Chegar às nuvens, ou andar nelas é um hábito constante para me salvaguardar da Terra que vai ficando menos bonita, o que a safa são as flores, o chilreio e o ruído que me parece todos querem ignorar com o uso de headphones.
    No arame todos os dias, Raul Brandão escreveu bem sobre isso.
    Limites? Um de cada vez... tropeçando sempre antes de os alcançar.
    O bem e o mal, uma preocpação constante assente na verdade, mas o relativismo é desculpa para tudo...
    Se fechar os olhos não quero ver o mal, sendo cega no que respeita a ele só restam as nuvens.

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  17. Eu penso que os limites existem...somo seres limitados...e quando se pensa ultrapassá-los corremos sérios riscos...
    Se podemos evitar ser surpreendidos? Penso que não...é tarde demais para que a surpresa deixe de nos chocar...há surpresas boas e más...as últimas podiam ser travadas...mas o Homem não faz nada por isso...
    O mal ameaça porque permitimos...o mal ameaça porque o Homem tornou esse mal uma coisa viva...uma coisa necessária...e quanto mais acredita nisso mais se afunda...

    O teu texto tem muito por onde se possa explanar...

    Bjs

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  18. O confronto com o mal e as suas distintas manifestações, tão distintas quanto a diversidade de percepções individuais, é, quanto a mim, uma inevitabilidade. E mesmo perante esta consciência, não é possível, tantas vezes, evitar a surpresa. O mal é insidioso e apanha-nos desprevenidos. Creio que, ainda assim, é possível construir alguma protecção: a solidez de valores individuais e os elos afectivos e sociais serão moderadores de relevo.
    Mais uma vez, uma magnífica construção narrativa!
    Um abraço e bom domingo!

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  19. Já me tinha chamado a atenção do feito do Petit, como o mesmo edifício nos pode invocar tão fortes e contraditórios sentimentos. fiz até um post sobre isso. a questão do mal nunca é absoluta, se o fosse o mundo talvez perdesse o sentido, assim não, permanece numa tensão infinita, tensão essa verdadeiramente necessária.bom texto.bjo

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  20. Meu caro JPD, infelizmente, não é apenas o mal que torna o mundo incompreensível. É que o mundo não faz mesmo "sentido"... A única certeza é de que vamos ser sempre surpreendidos.
    Quanto à vida ser mais simples, se socializarmos, não sei se concordo... talvez discorde mesmo. Mesmo assim, ou se calhar, por isso mesmo, decidi voltar a complicar a minha, voltando à blogosfera. Adquirido o portátil, era inevitável... predictable? :)Abraço

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  21. Apesar de existirem limites também existem sempre surpresas...

    Abraço JPD

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