Quarta-feira, 6 de Abril de 2011

circo

O circo instalou-se.
Uma vez erguida a tenda, um carro com uma corneta no tejadilho percorreu as ruas a anunciar


O Circo dos Sonhos tem a honra de convidar a população desta
magnífica comunidade para o espectáculo desta noite.

Não falte ao maior espectáculo do mundo!
Crianças acompanhadas pelos pais terão entrada livre.

Haverá fantasia para todos.

Malabarismo, Palhaços, Acrobacia, Monociclismo,
Contorcionismo, Equilibrismo, Ilusionismo.


Circo dos Sonhos
Às vinte e uma horas.


A adesão da população foi surpreendente.
A lotação esgotou.

À entrada, jovens simpáticas e esbeltas, envergando maiôs brancos com lantejoulas, ofereciam bolas de palhaço para o nariz.
Ao sentarem-se, as pessoas eram confrontadas com um enorme cilindro de lona que, circunscrevendo o perímetro da pista, ocultava algo.
Escassos segundos antes de as luzes se apagarem, foi pedido à audiência que colocasse as bolas de palhaço no nariz.
No escuro, a sala foi invadido pelo pontilhismo fluorescente das bolas de palhaço. Transformada numa enorme calote saturada de cintilações ou, sabe-se lá porquê, alguém alvitrou
«Estamos debaixo de um pomar de cerejas? -- Se estiverem maduras, quero uma mão-cheia delas!»
Subitamente, uma trupe de monocilistas começou a circular a grande velocidade à volta do cilindro.
A música com uma batida em crescendo, as grinaldas acetinadas e de cores variadas a vogarem, ao mesmo tempo que dos pedais se desprendia, cada vez com mais intensidade, fumo branco, levou a audiência a um estado de estupefacção inesperado. O que era aquilo? Mais parecia um cometa com uma nuvem na sua cauda... Premonitório do quê, meu deus. Alguém apontou para dizer
«Vejam. Há cor na plateia!»
Era verdade.
A plateia fora seccionada. As bolas amarelas, as das crianças, ocupavam as primeiras filas, junto à pista.
Os pais -- Mas que truque! -- de acordo com o género, estavam com bolas azuis, os homens; com bolas rosas, as mulheres.
Uma criança comentou
«Ate parece que estamos dentro de um tubo de smarties. Quem nos virá comer?»

Pela primeira vez, todos estavam verdadeiramente surpreendidos e felizes.
Sim.
Estavam no Circo dos Sonhos.




Um prestidigitador entrou em cena, desfez o cilindro de lona e exibiu uma enorme bola de espelhos.
A música, em crescendo, sustentava um coral sinfónico arrebatador. O Allegro molto vivace retumbou no preciso instante em que a esfera se abriu em flor e fez jorrar sobre a plateia um imenso caudal de luz pura e redentora.
As crianças deram as mãos e, em dois movimentos opostos, circularam à volta das pétalas abertas da esfera-flor.
Arrebatados, os pais encaminharam-se para o seu interior onde se adivinhava o gineceu e o androceu, porque a privacidade da entrega é tão íntima quanto incerta é a polinização para que algo ocorra.
Nada do que se via correspondia à macieira, tão pouco por ali andaria uma serpente.
Seria um local que alguma vez Adão e Eva desdenharia desfrutar?
Só por essa razão se terá escutado um passarinho mandão -- Deus? -- a soprar no flanco do primeiro homem para lhe dar vida e espírito (*).

Se o nosso mundo tivesse acabado em Botticelli e/ou Vivaldi, talvez fosse incompleto e insatisfatório. Porém, a beleza das «Estações», que cada um deles, a seu modo, nos legaram, não têm cessado de nos emocionar. (*)
Se este sentimento for seguro, então haverá nexo narrativo... Tranquilizador?
____________
(*) No último § da Pg. 163 de «A VOLTA AO DIA EM 80 MUNDOS» de Julio Cortázar, podem ser lidas estas duas ideias.
Todo o texto que as antecedeu e a questão do nexo da narrativa é lavra deste humilde blogger (Rsrsrs.)


20 comentários:

  1. Desculpa ter estragado o teu soberbo texto.

    Ao ler o título só me ocorreu o "circo" em que vivemos, no qual só actuam palhaços.
    Mataram os nossos "sonhos"...

    Bjs.

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  2. Que texto fantástico! Arrebatador! Li-o num crescendo de emoções parecendo estar a partilhar deste espectáculo que é , com toda a certeza, o maior do mundo.
    E neste momento das nossas vidas, em que tudo é cinzento e negro, trouxeste-nos um texto em que a policromia e o sonho deram as mãos na perfeição.

    Beijinho

    Bem-hajas!

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  3. Exactamente o que me desperta a música de Vivaldi - sonhos, cores, leveza....
    Porque realmente o mundo é cinzento demais....
    Adorei o texto....
    Beijos e abraços
    Marta

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  4. O mundo é cinzento, sim, mas a música - brecha na muralha - há-de sempre oferecer-nos as mais belas associações.
    Texto astuto e cheio de sentidos. Fantástico.
    Gosto muito de Julio Cortázar, descobri-o com «Todos os fogos o fogo» com as suas oito incríveis histórias.
    Beijinho

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  5. JPD,
    Não sei porquê mas viajei atá Raul Brandão e " A Morte do Palhaço", talvez pelo ambiente criado.

    No entanto a dicotomia mal e bem, cerejas/maçã; delícias/serpente um mundo imaginário onde o "Allegro molto Vivace" desafia o belo e o horror, isto extrapolando para a situação do nosso país.
    Reduzindo o seu texto ao sonho temos as pétalas da esfera flor amarela, sinónimo de luz, a coroar a fantasia dos sonhos, o voo libertador.
    Apoteose em Botticelli e Vivaldi importantes na sua estação.
    O pássaro, sempre os pássaros, ou a chave de todo o enigma será Maria Madalena?
    Um corvo da barca de Lisboa, segredou-me, não a anunciar a morte mas a vida.

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  6. um texto por demais cativante, sem dúvida, agarra o leitor da primeira à última palavra, deixando-nos no fim a desagradável sensação que no mundo em que vivemos, sonho é coisa só do mundo do papel mesmo...

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  7. É bom sonhar mesmo que a realidade seja nua e crua...Felizes dos que sonham e vão mais além...mesmo que haja frio,fome, armas e guerra a música há-de ficar...no coração daqueles que a escutam e sentem-na plenamente ...porque a música é a arte mais imediata....

    Bjs

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  8. Em resposta à tua pergunta, SIM, tranquilizador... :) São esses legados, na música, na pintura, na literatura, que nos emocionam, elevam e dão apesar de tudo, sentido e esperança...
    O circo dos sonhos, faz todo o sentido, em todos os sentidos :)
    Beijinho

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  9. Mas que lugar bonito, encantador, repleto de luz e cor. :')

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  10. O vórtice inebriante do circo que é a nossa vida! Metáfora muito expressiva e muito bem desenhada - mas nada tanquilizadora:)))
    (Posso estar a "tresler", mas foi assim que li...)

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  11. •*♥ڰۣ¸.•*♥ڿڰۣ✿ڿڰۣ¸.•*♥ڿڿ•*♥ڰۣ¸.•*

    Sobre o amor

    Fácil de acontecer, difícil é descrever.
    Amar é sentir sem querer, é querer sem perceber.
    Fugaz ou duradouro, não importa o tempo, o que vale é o sentimento.
    Que o eterno seja pra sempre, mesmo que seja breve.
    Sobre o amor é tudo que não sei, daquilo que já sei.

    Fim de semana de luz e paz,
    abraço.

    ڿ•*♥ڰۣ¸.•*♥ڿڰۣ✿ڿڰۣ¸.•*♥ڿڿ•*♥ڰۣ¸.•*♥ڿڰۣڿڰۣ

    Brasileiros enlutados ♥♥♥♥♥♥♥♥♥...


    ڿ•*♥ڰۣ¸.•*♥ڿڰۣ✿ڿڰۣ¸.•*♥ڿڿ•*♥ڰۣ¸.•*♥ڿڰۣ

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  12. Um "circo" tão bem apresentado, até eu gostava !
    Bom domingo e bons sonhos!
    Verdinha

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  13. ainda encontro na vida essa privacidade que nos faz aflorar um sorriso na boca
    não gostando normalmente do circo, adorei este circo, talvez pela música, talvez pelas palavras...talvez pela vida que aqui se encontra
    bjinho

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  14. Neste momento, ando às voltas com um livro de Marguerite Yourcenar, a "Obra ao Negro" (uma obra-prima, sem sombra de dúvida), em que a escritora, a certa altura, pela mão do seu personagem principal, discorre sobre os sonhos. Chama-lhes "jogos do espírito". E não pude conter a lembrança dessa expressão ao ler o seu texto: um jogo do espírito, uma metáfora interpeladora acerca de alguns meandros da condição humana.
    Excelente narrativa, como sempre!
    Um abraço e um excelente domingo!

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  15. O circo é encanto e é magia. E às vezes, como que por magia também, os filhos estão na génese dos pais.

    Como sempre, soberbo, JPD.

    Um grande abraço.

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  16. JPD,
    Antes de mais o texto é excelente, propício a diversas interpretações. Mas, talvez devido aos tempos plúmbeos que atravessamos, sou induzido a ver nele as 7 maravilhas dum mundo em que, apesar de tudo estar a ruir, os espectadores são conduzidos pela "máquina do destino" a caminhar pela autêntica vereda, a única, a verdadeira...
    Sei que me entende.

    Abraço

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  17. é caso para dizer: Grande Circo!! Juntamos-lhe o carrocel das almas e está feito!bjo

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  18. Gostei, mas que pena... este circo dos sonhos não ser de cá... crianças a entrar à borla... um descontozinho e já estávamos cheios de sorte... aqui as crianças quando nascem... já têm dívidas... um outro "circo" que de sonho não tem nada.

    Bjos

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  19. Júlio Cortázar, o bambambam da literatura gosta de viajar pela condição humana e diz que a esperança é como as estátuas - "que é preciso ir vê-las, porque elas não vêm até nós ."
    Texto excelente JPD
    o tempo é que não está mais para sonhadores
    o circo agora é quase sempre de horrores.

    um grande abraço e afeto

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  20. Vim trazer-te o meu beijo...não é de sonho mas contém Afecto...

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