Quarta-feira, 18 de Maio de 2011

Dois sabores?!


1.
No comboio com destino a Lisboa, uma senhora de idade sentou-se junto à janela, no extremo da carruagem.
A maior parte do percurso desde Cascais é feito à beira-mar. Com esta paisagem, viajar é puro deleite.
Quatro lugares à sua frente, um casalinho de jovens de 16/17 anos sentou-se a comer gelado cone-dois-sabores.

Com o comboio em andamento, o jovem levantou-se, abriu a janela e atirou o resto do seu cone fora.
No instante seguinte, em trajectória circular, o resto de uma bola de gelado a desfazer-se, entrou pela janela da senhora de idade, esmagando-se numa das lentes dos seus óculos de sol, salpicando-lhe abundantemente a cara, o cabelo e o vestido.
Suplicante, a senhora fez ouvir um
«Oh, meu Deus!»
A jovem que o acompanhava virou-se e ficou estupefacta
«Vê o que aconteceu à senhora, Luís.»
Era inacreditável.
A seguir o comboio parou. Um senhor entrou na carruagem, aproximou-se da senhora e ficou perplexo.
«O que lhe aconteceu, mamã?»
Enquanto levava a mão à boca e exclamava
«Ahs afligidos, sem se aperceber disso, a jovem inclinou o seu cone sobre o colo do namorado, de onde se soltaram restos de gelado.
Ao reparar no gelado salpicado na parede da carruagem, por cima da cabeça da mãe, o homem pensou imediatamente no pior.
«Agora já agridem senhoras de idade!»
Aproximou-se do Luis, deu-lhe um estalo com tanta violência que ele esmorrou uma arcada ao bater com a cabeça no apoio de braço do banco ao lado.
A Isabel, entre gritos, choro, tentou explicar que que tinha havido um acidente, nada de agressão, o homem teria de aceitar a explicação.
O revisor entrou na carruagem, a convulsou terminou com o homem a exigir-lhe que chamasse a polícia para a estação de comboios mais próxima para que uma queixa fosse apresentada.

2.
Autos

Senhora de Idade:
«Quando os jovens entraram na carruagem eu já estava sentada.
Pareceram-me educados. Eram namorados. Cheguei a enternecer-me.
Comiam gelado.
O rapaz levantou-se, abriu a janela e atirou o cone do seu gelado fora.
Subitamente, uma pasta fria esmagou-se na lente dos meus óculos. Deixei de ver. Fiquei toda salpicada. Quase enojada.
Era estranho: na comissura dos meus lábios senti um gosto adocicado, agradável. Fiquei perplexa. Que anjo era aquele que me vinha tirar a luz, deixar a noite e, para não me inquietar, deixava um sabor a framboesa nos lábios, uma leve e inequívoca algidez nas faces?
O meu filho entrou. O conflito desenfreou. Ouvi gritos. Pareceu-me ouvir alguém cair. Uma jovem a gritar «Parem. Parem. Há uma explicação para o sucedido. Parem!»
A seguir, alguém entrou na carruagem. Pediu calma, tudo terminou.
Pela primeira vez podia ser ouvida.
«Miguel, o que está a acontecer? Limpa-me a cara, filho!»

Luís:
«
Eu não gosto da bolacha dos gelados. Seja qual for os sabores que escolher, mal chego à bolcha sou incapaz de terminar o gelado. Fico cheio de sede. Chateia-me. Não gosto.
Sei que fiz mal. Preparava-me para pedir desculpa à senhora.
Como é que eu ia adivinhar que, atirando o cone pela janela, o gelado entraria pela janela da senhora, atingindo-a daquela maneira?
Eu sou incapaz de agredir seja quem for. Muito menos uma senhora de idade.
O filho dela nem quis saber da nossa tentativa de pedido de desculpa.
Aquilo não se faz a ninguém.
Eu nem sou mal educado, nem insolente.
Eu não merecia uma agressão com aquela violência.
Mantenho a queixa de agressão.»

Isabel:
«A ideia de comermos um gelado foi minha.
O Luís não gosta da bolacha dos gelados. Para minha surpresa, atirou-a pela janela. Eu tinha na mão um lenço de papel para a guardar. Ele sabia disso. É nosso o costume de utilizar os caixotes do lixo. Tão naturalmente como comer gelados.
A reacção do agressor do Luís é inaceitável.
Tamanha violência sem nos ouvir, sem aceitar o nosso desesperado pedido de desculpa à senhora, é incompreensível. Já não fomos capazes de dizer mais nada.
O que é que a senhora, coitada, pensará de nós...
Não podemos deixar de apresentar queixa de agressão, não é.»

Miguel:
«Há tanta violência, tanta falta de respeito pelas pessoas de idade, os senhores guardas sabem disso melhor do que ninguém.
Não me contive. Imaginei o pior para a minha mãe.
Não reagir é que seria de estranhar.
Sinceramente, um resto de gelado atirado fora a fazer um arco de circunferência para reentrar na carruagem por outra janela, esmagar-se na cara de alguém, é demais.
Eles mentem.
Como é que isso pode acontecer, explique-me.
Mantenho a queixa, claro.
Os pais do casalinho têm de saber o que eles andam a fazer, não acha?»

3.
«Uma chamada para ti, Raul.»
«Quem é?»
«Polícia de Oeiras.»
«Quem?»
«O Luís está na esquadra.»

20 comentários:

  1. De facto, a Verdade não existe: há sempre a verdade de cada pessoa .

    Um abraço

    ResponderEliminar
  2. De facto, isto só aconteceu porque somos maus inquilinos. Ingratos para com este planeta onde deixamos que a poluição cresça, cresça, cresça...
    Este jovem fez com a bolacha do gelado o que faria com outra coisa qualquer que não lhe interessasse.Aqui está, quanto a mim, o cerne da questão. Mandam as boas regras que nunca se faça isto. Depois,vieram as diferentes interpretações a que um acontecimento, relevante ou não, está sujeito. Do encontro das várias versões, com bocadinhos de verdade, chegar-se-á à verdade.
    Como uma coisa, aparentemente sem consequências, se tornou numa verdadeira tragédia num pequeno percurso de comboio.É pena, lamentável, que o jovem não considere falta de educação o que fez.Insolente não me pareceu.Terá aprendido?
    Bem-hajas!

    Beijinho

    ResponderEliminar
  3. Rir logo de manhã faz bem embora não goste de gelados! :-))

    ResponderEliminar
  4. Cada cabeça pensa de uma forma e muitas vezes pensamos que as outras pessoas pensam e veem as coisas como nós... mas não é assim! Infelizmente muitas pessoas não se interessam muito em tentar perceber o ponto de vista do outros...

    ResponderEliminar
  5. A narrativa está curiosa... Ponto um, o Luís não deveria atirar janela fora o resto do gelado...é falta de civismo. Ponto dois, coitada da senhora...é extremamente desagradável ficar com o rosto sujo de gelado...que nojo...Ponto três, o que reagiu pior foi o Miguel...não se pode partir logo para a agressão física...nem se deve resolve nada com violência...nem ouviu os intervenientes...francamente ....que falta de tolerância . A sua versão não convenceu em nada...

    O Luís agiu mal mas pelo menos mas foi sincero,foi verdadeiro e admitiu que errou.

    BJO

    ResponderEliminar
  6. Todos vêem as coisas à sua maneira... é um facto! Mas gostei deste teu jogo... realmente, cada um conta a história como quer.

    ResponderEliminar
  7. De como as coisas mais banais da vida podem dar origem a conflitos graves!
    (e, qual "Quatuor" de Durrell, 4 perspectivas diferentes sobre a mesma realidade. Assim acontece sempre, no nosso quotidiano)

    ResponderEliminar
  8. Olá

    Hoje precisava de rir...conseguiste!
    Soberbo a teu humor.

    A falta de civismo é gritante, hoje em dia.

    Janela aberta no combóio para Oeiras??? Não seria o combóio do Tua?

    Ahhhhh...prefiro sorvete a gelado.
    Hummmmm...sempre de manga e maracujá com cobertura de chocolate negro...com ou sem bolacha.

    Bjs.

    ResponderEliminar
  9. Gosto sempre destas tuas histórias a várias vozes. Como sempre, o conto está exemplar... A primeira vez que li, assumi que o Raul estaria a ser informado que o Luís estava detido e então redigi este comentário "reflecte muito bem o que se passa em termos de justiça neste país (faz lembrar este caso e depois, o facto da senhora grávida que foi violada pelo psiquiatra, não ter sido ela própria alvo de queixa e passado a arguida, é um mero acaso...). Há uma sensação de impunidade que atravessa a sociedade" Bom... depois reli o texto e apercebi-me que o Luís também poderia estar na esquadra a fazer a queixa de agressão do Miguel..." :)) Nestas questões policiais há sempre várias versões, mas de facto, o que o jovem fez, foi impensado mas não é crime... enquanto que a agressão, apesar de eventualmente "compreensível", constitui crime... e enchem-se os tribunais destes casos... :) Beijinho

    ResponderEliminar
  10. Embora me tenha feito rir, é um bom texto para reflectir.
    Infelizmente, há muita gente como o Miguel - não sabe escutar e respeitar os outros.
    O Luis até se comportou bem - admitiu o erro e se o Miguel o tivesse deixado pedir desculpas, talvez a senhora o perdoasse por aquela "fatalidade".
    Beijos e abraços
    Marta

    ResponderEliminar
  11. Um texto criativo com bastante sentido de humor. Aqui estão três perspectivas, três perfis e três análises num conto com bons ingredientes.
    Bjs. :)

    ResponderEliminar
  12. Oi JPD
    Concluo que um gesto espontâneo e irresponsável esbarra em outro intolerante e estúpido que no mínimo merecia só pedidos de desculpas e não incomodar a polícia já tão perdida ... rsrs
    Diverti-me com o texto .
    deixo meu grande abraço

    * estou tendo dificuldades pra acessar seu blog JPD me desconectam toda hora!!
    depois volto antes que atire"um sorvete " rsrs

    ResponderEliminar
  13. bela história a duas visões do mundo. São relatos quase credíveis não fora a observação irónica do ponto de vista do meu querido narrador!
    Beijo

    ResponderEliminar
  14. Interessantíssimo aproveitamento de um cone de gelado de dois sabores (neste caso, de framboesa e de mais 4).

    De entre o Luís e o Miguel, que venha o diabo e escolha!... Tanto um como o outro parecem carecer de civismo e inteligência, coisas que, por sinal, não faltam à senhora de idade...

    ResponderEliminar
  15. É provável que me desvie do centro vital da narrativa, mas devo dizer que o que apreciei mais foi o testemunho para auto da senhora de idade: aquela que parece ter sido mais lesada foi a que, simultaneamente, teve a reacção mais positiva (o anjo que, para não inquietar, lhe trouxe um sabor de framboesa aos lábios - muito bom!!) e mais pragmática ("Limpa-me a cara, filho!"). Gosto de acreditar que a idade traz alguma sensatez :)
    Um abraço! Bom domingo!

    ResponderEliminar
  16. Eu gosto de morango e baunilha...
    A verdade tem tantos lados quantas as pessoas envolvidas...

    ResponderEliminar
  17. O Luis devia ter chupado melhor a bolacha, assim, não tinha sujado os óculos da velhota... mas ainda bem que ela usava óculos senão podia ter ficado com um olho furado, Mas... se o Luis fosse magistrado, aí... estava safo com o tal artº 91 como a tal magistrada que andava a conduzir em contramão e com uma tosga 6 vezes superior ao permitido.
    Analizando bem os factos, os verdadeiros culpados serão os pais do Luis que o deviam ter gerado mais cedo e ter obrigado a tirar um curso de magistrado... nem que fosse nas novas oportunidades ;)

    Bjos

    ResponderEliminar
  18. Cada um com a sua versão e eu...acho que vou comer um gelado de dois sabor...
    Beijinhos
    Verdinha

    ResponderEliminar
  19. Hilariante, JPD :)
    Leve e fresco como um delicioso gelado num dia quente à beira-mar. Tão poderoso no efeito evasivo quanto uma boa notícia que dissipa as sombras. Em suma: um ''must'!
    Um abraço agradecido pelo óptimo momento!

    ResponderEliminar
  20. Só podia ser um gelado do Santini para provocar o efeito anjo que retira a luz e não inquieta A mim provoca-me os mesmo... deixo de ver para saborear apenas. Limão e framboesa, o meu preferido :)))

    Post também com dois sabores: piada e mensagem cívica.

    ResponderEliminar