
«O carácter de um homem é o seu destino»
Heraclito
1.
A convite do Nuno e da Matilde fomos almoçar. Ocupámos a única mesa disponível. A tarde resplandecia.
A viagem fora um sucesso.
Quase se atropelavam a detalhar a semana lá passada.
Trouxeram-me uma prenda.
Era pesada.
Abri.
A Matilde não se conteve.
«Lava do Etna, Paulo.»
Pensei que daria um óptimo pisa-papéis.
«O italiano quis saber se queríamos trazer certificação.»
Agradeci. Era tão obviamente vulcânica.
Exultante – Eu já havia reparado e achara lindíssima. – a Matilde apontou para a a pedra da sua gargantilha.
«Tão nobre como a tua pedra.»
Era verdade.
«Elegantíssima!»
«Oferta do Nuno. Não regressaria sem ela.»
E a olhar para o Nuno, acrescentou.
«Assim estarei livre de qualquer veleidade de um cíclope audacioso. Considerar-me-ão uma aliada. Bom, não é!»
Concordámos.
Mal contendo o riso, o Nuno relatou ter perguntado ao sujeito que vendeu as pedras que «dove fare» se o Etna voltasse a eruptir. «Scapare subito!»
2.
Na mesa à nossa esquerda, reinava a euforia. Uma senhora, com a mão direita apoiada na aliança, fazia-a percorrer no anelar até à sua extremidade. Abria os braços, com simetria e largueza para dar amplitude à sua narrativa. A seguir, debruçava-se sobre a mesa, a pedir coesão e cumplicidade.
Subitamente, fez um gesto único com a mão direita. A aliança, fora do dedo anelar soltou-se e, ao cair, fez um tlint, uma única vez, tão simples, tão claro, tão audível e desapareceu, evadindo-se de qualquer horizonte visual.
A senhora e as amigas fizeram recuar as cadeiras para, ansiosas, procurarem a aliança. Sem resultado. A angústia alastrou-se à nossa mesa também. É que o único tilintar era improvável. Apenas uma vez. Como fora possível.
Na mesa á nossa frente, ligeiramente à direita da mesa das senhoras, um casal, alheado, fazia a sua refeição. Eu já reparara que o bolso direito do casaco dele estava aberto, um pouco deformado até, pelo excesso de uso.
Seria possível que a aliança tivesse saltado lá para dentro?
Foi!
Disse à senhora «Peça àquele senhor para ver o bolso do casaco. A sua aliança terá saltado para o seu interior.» Incrédula, hesitou. «Pode lá ser!» O casal já suspendera a conversa.
3.
Trouxe o pedaço de lava para casa e atribuí-lhe a função de pisa-papéis. Copiei para um papelinho uma citação de Heraclito e coloquei a pedra em cima.
Desde que a pedra entrou cá em casa, parece-me ouvir o resfolegar do fole e o estrépito da bigorna. Uma premonição do Homo Faber Incessante, inesgotável, determinado. Terá origem no labor dos ciclopes exaltando a sua força e habilidade puramente manual, criadores do trovão, relâmpago e raio e a aliança a Zeus, apesar da aparente limitação de apenas disporem de um olho, ou, tratar-se-ia de Siegfried – Nesse caso, a pedra não seria lava do Etna – mas um artefacto dos Nibelungos e o labor era a preparação da espada que alvejaria o Dragão que guardava o anel.
4.
A simbologia do anel vale pela definição do interior e exterior de uma relação. A sua posse ou extravio é, por essa razão, altamente pertubador.
Como explicar que a fortuitidade do depósito da aliança no bolso do casaco, foi isso mesmo: uma ocorrência sem qualquer significado. A sua acompanhante deve aceitar o que lhe está a ser explicado. Se o relacionamento entre ambos estiver consolidado nada acontecerá. Caso contrario, haverá um problema...
E se a senhora achar que a a outra, a que afirma ter perdido a aliança, afinal não passa de uma provocadora que armadilhou tudo, depositando a aliança no bolso do seu acompanhante, para mais, com a cumplicidade do Nuno que apontou logo para o bolso...
Se, se...
Se for ainda considerado que afinal, para praticar a imoralidade, já nem uma réplica do Anel de Gyges, e da invisibilidade que proporciona, é precisa...
:) Se a acompanhante desconfiasse que havia sido uma armadilha, e se exaltasse no restaurante, eruptindo, o melhor que ele teria a fazer, já se sabe... scapare súbito, ah pernas para que as queria! rrsss
ResponderEliminarAh... para praticar a imoralidade, nem réplica de anel de Gyges, nem manto de invisibilidade... como lobo em pele de cordeiro, ela é tão frequentemente (e recentemente), escancaradamente apresentada como se da moral mais sublime se tratasse...
Beijinhos
Olá
ResponderEliminarSe...se...se...a vida é feita de tantos "SES"...
"SES" que por não serem devidamente esclarecidos podem originar dúvidas...
Mais um texto SOBERBO.
Bjs.
«O carácter de um homem é o seu destino»
ResponderEliminarHeraclito
Hoje debruço-me sobre este pensamento, e pergunto:
Quando o carácter de um homem traça o destino de milhões de pessoas o melhor é "Scapare subito"! :)
Beijinhos
1. Com o "nosso Etna" em erupção prolongada, para onde scapare???
ResponderEliminar2. Esstamos em tempo de improbabilidades. Acontecem todos os dias...
3. Um "fazedor" de raios e coriscos era o que nos dava jeito!
4. Estava com algumas dúvidas de estar a ler bem o teu post. Mas pelo conteúdo deste ponto 4, parece que percebi a tua ironia.
E achei tudo muito interessante:)))
Um relato magnífico sobre «o carácter». Partindo de um factóide do quotidiano...o carácter espelha-se.
ResponderEliminarBeijo
Ora como não há duas sem três, o essencial do que já tinha escrito é que estou como a Fê, a política está-me a dar volta à cabeça... bastou ver o título do teu post para que nada, nem a aliança, me fizesse distrair do título... apetecia-me scapare subito para fora deste país... de preferência amanhã... bem cedinho... ai, ai... Se... eu pudesse ;)
ResponderEliminarBjos
Gostei do pisa-papéis JPD
ResponderEliminare para dar mas funçao a ele, entrego-te outro momento de Heráclito pra colocares embaixo da pedra
"Nos mesmos rios entramos e não entramos, somos e não somos."
deverá haver problemas com a perda de um anel valoroso? apenas detalhes ... rs
deixo meus abraços e agradeço boa partilha.
claro que é uma pena que não te tivessem trazido a celebrada pedra filosofal, pois com ela poderias transmutar qualquer metal em ouro, ou seja, tinhas pegado numa colher ou um garfo e, pronto, num golpe de magia, oferecias um - ou vários - anéis à senhora. :)
ResponderEliminarquanto ao elixir da longa vida, bem, parece que os próprios alquimistas julgavem isso ser um pouco mais difícil...
Scapare subito e nada mais há a dizer!
ResponderEliminarParabéns pelo texto tão criativo.
Boa viagem!
Tal como o Etna e a Sicília também os teus posts são "vistos" com gosto.
ResponderEliminarA aliança procurou um bolso que parecia esperá-la. Até me pareceu tratar-se de uma despedida de casada, agora em voga, mas talvez tenha sido erro meu de interpretação.
Bem-hajas pela criatividade.
Abraço fraterno
Como sempre, não sou capaz de comentar mais este belo texto teu... Dá que pensar... (o texto e não a minha incapacidade, note-se!)
ResponderEliminarTodas as pessoas que comentaram antes de mim acrescentaram o teu texto e gostei muito do que li. Só não concordo muito com o que "Mona Lisa" escreveu. Acho que a vida não é feita de "ses", porque esses são os que ficam de fora...
Já pensaste que a aliança podia ter "fugido", farta da conversa das senhoras???
ResponderEliminarQuem não gosta das luzes da Ribalta???
Adorei o texto....
Beijos e abraços
Marta
Magínifico escrito este, meu caro.
ResponderEliminarLímpido e interessante, com tantas hipóteses possíveis.
Um bom fim de semana
Perante uma situação de perigo, é vulgar dizer-se que temos uma de duas possibilidades: ou lutamos ou fugimos. É claro que a roupagem da primeira parece ser (socialmente) bastante mais aceitável que a da segunda. Todavia, em determinadas circunstâncias, tenho que concordar com o James Stewart (revi o "Janela Indiscreta" ontem...) que dizia sardonicamente: "Ás vezes é melhor fugir que ficar" :)
ResponderEliminarGrande texto!
Um abraço.
A simbologia, da pedra vulcânica e da aliança...resulta num curioso (e bom!) paralelismo :) Muito bom, mesmo...Beijinhos
ResponderEliminarUm texto...perdão um relato digno. E lá falamos da minha Itália, onde estudei e estagiei...mas não conheço a Sicília...
ResponderEliminarPosso ser um pouco curioso (quem não é), a aliança evaporou-se mesmo?
É caso para "scapare subito"...dai ....conta o resto da "estória"...
Um abraço!
Exactamente...o carácter é tão fundamental nos destinos de uma casa, na rua, e nos destinos da nação...Por haver tanta falta dele...hoje estamos tão mal vistos!!!Não fazemos a diferença logo nessa questão...
ResponderEliminarExcelente abordagem!!!
BJO