Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Including The Kitchen Sink...«Mais, oui!»

«Bóra lá à Av da Liberdade pedalar nus pela cidade.» -- Desafiou a Isabel
«Quem, eu...»
«Sim. Passo pela tua casa. Que tal?»
«Nem pensar. Sem roupa, está fora de questão.»

No regresso, a Isabel relatou
«Houve urbanidade e civismo.»
Cinicamente, acrescentei
«Não mostrando as
"Vergonhas", os participantes foram recatadas...»



1.

Sempre que a minha mãe me levava ao pediatra, conversava longamente com o médico sobre o meu desenvolvimento e as perspectivas do meu crescimento. Do ponto de vista da puericultura havia sempre detalhes a reconsiderar.
A minha mãe andava deslumbrada com as profundas argolinhas nos meus braços e pernas. Eu era o seu menino barroco.
Profissional, o médico aconselhava uma dieta saudável. Desde cedo eu ultrapassei a curva de crescimento das tabelas pediátricas, pesando excessivamente.

2.
Na adolescência cresci incessantemente e fiquei esquálido.
Houve necessidade de expandir o meu quarto para lá colocar uma cama maior.
Um tira-linhas, só pele e osso.
Comia sofregamente, prato a transbordar.
Sentava-me a ver televisão. Meia-hora depois de jantar levantava-me para ir ao frigorífico à procura de iogurtes ou à dispensa, aos pacotes de bolachas.
Um perfeito totó!
Ao cruzarem-se na rua comigo, as pessoas afligiam-se.
Claro que não tinha ténia.



3.
Cheguei a andar de bicicleta, de patins em linha.
Estão a ver a falha neste incisivo, isso, no maxilar superior. Sim, esse mesmo. Resultou da primeira queda. Uma aflição para os meus pais. O sangue jorrou. o desespero esgotou-nos. Não voltei a andar de patins e abandonei a bicicleta.
Como é que engordei desta maneira?
Chego a pensar haver um bug no meu ADN.
Terei sido um zigoto perfeito. Porém, a divisão imperfeita de uma das células exponemciou a minha propensão para o sedentarismo, para a inacção, o avolumar de um colosso sobre uma estrutura óssea que vai respondendo mas dando sinais de falência.
Peso a mais.
Pergunto e continuo sem resposta:
Como foi possível aderir a todos os gadgets e fazer do meu quotidiano uma clausura que se revigorava, a cada instante, da luz do PC, do telemóvel, das consolas?
Eu deveria ter sido um vegetal. Verde. Exuberante. A rebentar de fotossíntese!

4.
Vivo sozinho.
A minha casa está confinada a um hall, a uma perda de divisões para conceder espaço à cozinha.
Continuo a comer compulsivamente.
O que me salvou foi ter conseguido um acordo com a Teka para colaborar na área I&D de ergonomia.
Mal me mexo.
A robótica não prescinde de pessoas como eu.
Felizmente temos um clima a extravasar de amenidades.
Por sugestão da Isabel -- Adormecida ao meu lado há mais de meia-hora -- mandei construir esta pérgola à volta da casa, a nascente e a sul, para nos protegermos do vento. E é assim, em tardes de canícula como a deste Sábado, que a Isabel veio cá a casa -- E até é capaz de só sair daqui a uma semana. -- para convivermos, petiscar, beber e conversar.
Estamos tão gordos que desafiámos Christo a tapar-nos. Ele aceitou. Ter-se-á seduzido pelo nosso volume?
Agora alternamos a paleta de Botero, os figurinos de Christo, e as nossas escolhas suffisamment blasés
Não é fantástico!
A Isabel desenhou um acento circunflexo com boquinha minúscula e disse
«Mais, oui



#


Esta edição é a resposta ao desafio de Escrita Criativa
feito por
Eva Gonçalves

http://including-the-kitchen-sink.blogspot.com/


##


Esta é também a centésima edição
de
O Guizo E O Gato

Comentado tão assiduamente,
resta-me concluir:
A vossa resistência supera a minha!



Prontos para dobrar esta meta?

Beijos e abraços

18 comentários:

  1. história de peso...

    [... e parabéns pelo centenário!]

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  2. Olá
    chego aqui, "via Eva" e parece que em excelente altura, pois não só neste post, respondes ao seu interessante desafio de escrita, como se comemora o centenário de entradas do teu blog.
    Parabéns. E espero voltar, claro.

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  3. Só posso dizer que adorei o texto... quase consigo beliscar as gordurinhas... só teve um senão... realmente desde que me meti nisto da net... sentadinha ao computador e sempre desejosa de chegar a casa sem prolongar o passeiozito a pé... já estou a sentir... something que não estava aqui ;)

    E... parabéns pela centésima ediçao :)

    Bjos

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  4. Parabéns pela centésima edição! Por mim, dobro a meta, claro! A história está muito gira, claro e que honra (embora a parte da obesidade e sedentarismo... não sei se gostei assim lá muito, rrrsssssssssssss) E não é que também tu não respeitaste a única regra do meu concurso?? :))) Mas o que se passa com os meus leitores?? Não me digas que vou ter que ignorar a única regra que estabeleci e aceitar os textos todos... sabias que já rejeitei 4 textos que não cumpriam o ÚNICO CRITÉRIO?? rrssss Já leste a minha página do concurso com a devida atenção? Agora, fica o dilema... que faço? Mudas o título ou aceito assim mesmo? :)))))))beijinho

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  5. Parabéns pela perspectiva, na 100.ª edição!

    Quase me apetece recomendar-te uma espreitadela ao blogue do meu descendente, pois responde ao teu percurso:

    http://teopragma.blogspot.com/


    beijo

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  6. Muito bem conseguida a história!
    Ainda pensei que terminaria no programa da Júlia, aquele dos "anafadinhos" do qual não me lembro o nome..
    Mais oui, ça va très bien!
    Parabéns pela 100ª edição!

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  7. JPD,
    Parabéns pela centésima edição.

    "Christo" fez bem em tapar o "Adão" e a "Eva" porque os pneuzitos não são lá muito estéticos. :)))

    O Pc é anti-natureza mas também só 100 edições não dá para o pneu ser muito grande.
    Vou espreitar o site referido.
    Bjs. :)

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  8. Olá

    O teu humor fascina-me!

    Hummmmmm...que tal concorrer ao Peso Pesado???

    Parabéns pelo centenário. Espero estar por aqui no próximo.

    Bjs.

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  9. Eu já tinha adicionado o teu texto à pagina do concurso, com o título que estava, mas agradeço o gesto de o alterares :)Se reparares, poucos participantes seguiram a regra! Se calhar, a culpa foi minha que não me expliquei bem. Portanto, está tudo certo! Obrigada mais uma vez por participares. ainda por cima, com um texto tão girinho...:) Beijinho

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  10. Encontrei!!!!!!!!!!!!!!!:-) pensei que tinha perdido este blogue.

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  11. Mais oui, mais oui, c'est très bien écrit !
    Et félicitations pour la 100ème édition !

    bisous
    Verdinha

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  12. Já vos vejo uma tela de Botero;
    Corpos rechonchudos, lânguidos e pálidos à sombra de uma pergula que entrelaça folhagens e flores de tamanho invulgar e generoso.

    Mais oui... très bien!


    Parabéns pela centésima edição. Desejo boas inspirações, claro está!
    Bjs

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  13. Parabéns!
    Não andei por cá a acompanhar as cem edições, mas posso afirmar, considerando aquelas que conheço, que a centésima é um remate à altura. Um texto levemente (ou não tão levemente :)) irónico para avivar a atenção para um dos grandes males do mundo ocidental.
    Cá espero as próximas cem e prometo não arredar pé. :)
    Um abraço e um óptimo fim de semana!

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  14. Faz pouco tempo que venho acompanhando-o e suficiente pra lhe dizer que vamos sim dobrar essa meta , quero estar junto pra comemorar!
    Parabéns JPD
    O seu texto é primoroso, adorei como nao podia ser de outra forma.
    Este é um desafio para um blogueiro criativo ,isso é fácil pra ti, aplicado, admirável e inconfundível.
    deixado abraços com muitos oui !!

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  15. Parabéns pela escrita, sempre criativamente inovadora, limpa, imaginativa,crítica e irónica, e também pela efeméride! É obra!!

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  16. Parabéns pelo centésimo aniversário...é data de honra e assinalar...os teus textos abordam sempre temas actuais, A obesidade é um problema de saúde ...ninguém ganha nada em ser obeso=gordo=excesso de peso...pelo contrário...só se perde...perde-se em saúde e estética...lembraste-me um artista que não ouvia falar dele desde os meus tempos de universidade...O Christo e as dimensões grandiosas... estrondosas...vou revê-lo aqui na net!!!

    Beijo grande

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  17. É uma resposta que nunca desilude e uma meta, no mínimo, a quintuplicar ;)
    Muitíssimos e repetidos parabéns!

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