Quarta-feira, 22 de Junho de 2011

Mas...

Gentileza Google

«Esteja atento nas entradas e saídas»
«Take care of your belongings»

1
.
Um senhor de sessenta e tal anos entrou na estação de metropolitano do Marquês de Pombal às 8H30 da manhã.
A composição vinha lotada.
O senhor imobilizou-se na plataforma intermédia da carruagem, de pé junto à porta.
Na Estação da Avenida, saíram três pessoas e entraram dois homens e uma jovem.
Distraído, não estabeleceu qualquer relação entre eles.
Reparou, no entanto, que a jovem era alta, de formas exuberantes e vestia garridamente.
Afligiu-se com a entrada abrupta de um quarto sujeito. Salvou-se de um valente entalão por uma unha negra, tal é a violência com que as portas se fecham.
A jovem foi projectada para cima do senhor.
Subitamente desatou a gritar
«Você não tem vergonha, seu velho babado. A aproveitar-se. A apalpar-me. Eu não lhe admito, ouviu! Perdeu a cabeça!»
Profundamente abalado, o senhor saiu nos Restauradores.
A composição continuou para a Baixa-Chiado.
Para seu espanto, a carteira e o telemóvel tinham desaparecido.
Acabara de ser roubado.

2.
Na pastelaria, o Sr Lacerda já estranhara a ausência do amigo.
Passava das onze e ele sem aparecer.
O sr Acácio, intrigado
«Mas então, o nosso amigo Leonel e as senhoras não vêm hoje, Sr Lacerda»
Claro que teria havido um contratempo.
A D. Leonilde ligou para o marido
«Se o Leonel estiver aí contigo, pergunta-lhe porque não atende a Amélia.»
«Ele não está comigo.»
«Está aonde?»

«Sei lá!»


3.
A D. Amélia estava com a D. Leonilde.
Apreensiva, esta ligou para o marido.
«Leonel, o que passa? Porque levaste tanto tempo a atender o telefone... Estou numa aflição...»
Uma voz canalha, respondeu
«Ah, ele chama-se Leonel... O seu marido é um atrevidote!»
«Quê. Quem é a senhora? Que conversa é essa...»
«O Leonelzinho tentou apalpar-me no metro. Se visse o que ele tem no bolso do casaco.... Um maroto, é o que ele é!»

A D. Amélia ficou destroçada.

4.
Em casa, a D. Leonilde velava a cabeceira da D. Amélia.
Um calmante forçava-a a repousar.

Leonel agarrou no braço do amigo para conversarem numa divisão ao lado.
«Lacerda, olha para este comprimido azul. Sabes do que se trata?»
«Viagra
«Acreditas em mim. Lacerda?»
«Claro, Leonel. Somos amigos desde sempre, caramba.»
«Tu achas que eu entraria numa farmácia para comprar esta merda do Viagra?
«Não.»
«Não o quê, Lacerda?»
«De certeza absoluta que não, Leonel. Onde queres chegar?»
«Tu achas que eu alguma vez sairia de casa para, enquanto viajasse de metropolitano, apalpar miúdas que poderiam ser minhas filhas?»
«Não. Claro que não!»
«Então como é que eu vou explicar à Leonilde que uma miúda, com um decote monstruoso, as mamas prestes a rebentar-lhe o vestido, se encostou a mim, para me roubar a carteira e o telemóvel, e ainda por cima, deixar Viagra no bolso do casaco e desafiar a Leonilde a verificar, Lacerda?»
«Tinhas muito dinheiro na carteira, Leonel?»
«O que é que se está a passar?»
«Comunicaste o roubo e pediste a anulação do cartão do telemóvel à operadora?»
«Então agora as ladras servem-se do corpo para roubar?»
«Eu acredito em ti, Leonel!»
«A Leonilde não me pode ver. O que vai ser da nossa vida?»
«Deixa-a repousar. Serenar. Ela compreenderá. Tratou-se de um roubo... Diferente...»
«A gente da nossa idade agora é um alvo privilegiado... O que é que está em curso?»
«Ela voltará a aceitar-te. Tenho a certeza.»


9 comentários:

  1. :))))Excelente. Coitada da D leonilde... como se não bastasse o roubo, ainda o marido é incriminado! rrss Realmente, as pessoas são todas potenciais vítimas, mas um roubo destes, diferente, a cavalheiros (estou a supôr, enfim...) incautos de uma "certa" idade, são muito fáceis de concretizar, descredibilizando a vítima ; infelizmente, outros tipos de roubo são o pão nosso de cada dia. Se há crime que me perturba nos dias de hoje, é precisamente o roubo/burla das parcas economias dos idosos. Acho mesmo revoltante e as notícias, são diárias...
    beijinho

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  2. Olá

    Li o teu interessante texto e dou-lhe dois "mas"...

    1-ºPoderá ser o dia a dia(inseguro) em que vivemos.
    2º A rapariga poderá ter razão. Há tantos "velhos babados" por aí...

    Cabe à D.Leonilde decidir em quem acreditar.

    Bjs.

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  3. Já um homem não pode andar de metro à vontade... :)

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  4. Ser duplamente vítima, quase dá vontade de dizer que, se fica com a fama, então há que tirar proveito?
    Tem-se visto tanta coisa, tanta alteração de comportamento, tanta deslealdade... Tantos filmes, que nos mostram que o inimigo pode ser quem nunca esperaríamos que fosse, que a nossa confiança também se vai abaixo!...

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  5. As entradas e as saídas são lugares/tempos arenosos, meu amigo.

    bjs

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  6. Um duplo crime: dos bens materiais e da idoneidade. O último bastante mais gravoso, pois já não se trata dos "anéis", mas dos próprios "dedos"...
    Excelentemente urdido, como sempre, JPD!
    Um abraço.

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  7. JPD,
    Uma narrativa, em forma de conto negro, excelentemente lavrada!
    Parabéns.
    Bjs. :)

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  8. Cheguei aqui através de uma amiga comum. A Isamar que já algumas vezes me falou do seu blog.
    Gostei do conto(?).
    Efectivamente hoje em dia as pessoas idosas parecem ser alvos preferenciais dos jovens gatunos. E eles lembram-se de cada coisa...
    Um abraço e uma boa semana

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  9. Neste blogue já consigo comentar. Que bom! Houve a tal alteração a que te referiste há pouco e fico muito satisfeita por isso.
    Quanto ao tema, daria para um conto bem maior. Não sei se a situação é inteiramente ficcionada mas não tinha conhecimento do pormenor do comprimido para completar os objectivos dos meliantes em relação à tempestade que irá ocorrer se a D. Leonilde não quiser ouvir o Leonel. Pobre homem! Ficou sem telemóvel, sem a carteira, foi insultado publicamente e ainda vê o casamento ameaçado. Há alvos mais fáceis e a esolha foi certeira. Bem, todos os cuidados são poucos e isto não deixa de ser um aviso a ter em conta.
    Bem-hajas!

    Beijinho

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