Quarta-feira, 8 de Junho de 2011

A Pipoca Exterminadora


(Gentileza Google)


A partir de certa altura, foi evidente para o grupo de perseguidos que a chance de sobrevivência estaria na separação.
Disseminado o foco, a perseguição tomaria um rumo diferente: mais demorada, mais penosa para os dinossauros.

O Tim escolheu uma cabana abandonada para se esconder.
Um erro de análise, uma escolha problemática.

A cabana tinha, no piso térreo, uma bancada em "éle".
Na sua extremidade mais curta, abria-se uma porta para uma casa de banho rudimentar. Ao lado dela, erguia-se uma escada retráctil.
Tim subiu, recolheu a escada e escondeu-se num dos quartos. Aplacou a respiração e mobilizou todos os sentidos para perceber o que se passava lá fora.

Ouviu um trote longínquo. A sua intensidade produzia um som claro de corrida, em afastamento. Subitamente, deixou de se ouvir. Silêncio curto. Agora, o som superava a distância. Convergia para a cabana. Som de passos pesados, cavo. Pela primeira vez, ouvia-se claramente respiração entrecortada.
Um dinossauro aproximava-se.
Não restava qualquer dúvida.
O Tim afligia-se.
Na urgência da fuga ficara para trás a análise aos pontos de fuga daquele abrigo.
Pior, esquecera no rés-do-chão do saco com clones de dinossauro.
Foram imediatamente descobertos.
Perante aquela descoberta, o dinossauro faria o quê:
Avaliaria o estado dos clones?
Urraria para alertar os parceiros de perseguição?
Vasculharia a casa?
O cheiro a adrenalina do Tim denunciá-lo-ia?
A cabana resistiria à fúria devastadora do dinossauro?
Os clones condicionariam esse impulso?

O Tim estarreceu quando reparou no feixe de luz desenhado por debaixo da porta do outro quarto.
Estava perdido.
No rés-do-chão o dinossauro começou a reagir, a partir tudo. Encetou uma corrida à volta da casa.
No instante em que introduziu a cabeça pela janela, reparou na fuga do Tim para o quarto iluminado.

Inundado por um intensíssimo cone de luz, sugado, o Tim reapareceu no seu quarto. Na desarrumação destacavam-se, um balde de pipocas polvilhadas de canela e açúcar, uma televisão acesa.
O dinossauro ficou perplexo pela intensidade da luz, pelo cheiro a pipocas.

O plano fechou e no ecrã surgiu a facies horribilis do dinossauro imobilizado, a olhar, curioso, a perscrutar. Não tardaria a reagir.
O Tim tossiu.
O dinossauro olhou-o através da tv.
Quando a imagem evoluiu para 3D o dinossauro entrou no quarto. Ignorou as barricas-de-ovos-moles-de-Aveiro que o Tim lhe estendia -- Os ovos de clones não seriam assim. -- interessando-se apenas pelas pipocas.

AAAAAaaaaaaHHHHHHhhhhhhhh!!!!!!!!!!

O Tim gritou até à afonia, o dinossauro retirou-se e os pais do Tim entraram no quarto.
A barafunda era tremenda: havia pipocas por todo o lado. Na tv passava a ficha técnica de «Parque Jurássico». Os pais do Tim desesperavam por uma explicação.

No hospital, o diagnóstico médico salientou um invulgar estado de excitação e, embora remota, era possível haver um pedaço de milho de pipoca na parte anterior da campainha, à entrada do esófago. Por causa dela, o Tim era incapaz de falar sem se engasgar. Solução: seria sedado para repousar. Até era provável que, com a natural segregação de saliva, a remoção promovesse a recuperação da fala. Então, para alívio de todos, o Tim faria o relato dos acontecimentos da véspera.

Na manhã seguinte, o prognóstico médico confirmou-se: o Tim recuperara a fala. Porém, sem qualquer explicação médica, para além do trauma psicológico, debelável, o Tim não se cansava de reproduzir a seguinte sequência de palavras excessivamente salivadas:


Milho
Trilho
Sarilho
Baunilha
Cilha
Pilha
Ilha

Os paleontólogos -- Qual corte epistemológico! -- passaram a encarar -- com reserva e cuidado -- a conjugação do impacto do meteorito na terra e a alteração radical da alimentação através das pipocas, no estranho apaziguamento e extermínio dos dinossauros.
Como imaginar um dinossauro(*) a perder peso e fulgor e, em vez de urrar, soltar um vago e displicente «Piu enquanto esgravatasse a terra num zelo de galináceo?



#

(*) «A voga dos dinossaur(i)os (...) a origem desta fascinação (...) começou no percurso imenso do tempo em que os monstrozinhos viveram e o que vai de nós até à sua extinção. O que seduz neles não é o seu aspecto medonho, a sua massa mastodôndica, mas o terem vivido durante centenas de milhões de anos sem haver homem na terra. E terem-se passado sessenta milhões de anos sobre o seu enigmático desaparecimento até que o primeiro ser humano tenha consciência de tudo e de si. E o problema obscuro que se insere no caso e explica a generalizada fascinação é esta simples pergunta que se ignora e ninguém faz: que significa haver Deus no tempo dos dinossauros em que o homem não existia e se ele não viesse a existir?»

In:

«ESCREVER»
Entrada 82
Virgílio Ferreira
Bertrand

20 comentários:

  1. Essa pergunta ninguém a faz porque suspeita da resposta... há respostas que se preferem ignorar, por serem incómodas... Se ele não viesse a existir, dificilmente existiria o conceito de Deus, o que não significa de todo, que Ele não exista desde sempre :) beijinho. Everyone seams to be invited but me... and I never go where I'm not welcome... :)Big kiss

    ResponderEliminar
  2. é por isso que vale a pena perguntar às crianças:
    "e tu, quando fores grandes, o que é que queres ser? - para além de um dinossauro, claro..."

    ResponderEliminar
  3. Tu nem me fales em pipocas, que detesto o som da sua trituração nas salas de cinema!!

    Dorme bem

    Espero que o truque que me ensinaram faça mesmo com que o comentário entre, rrss

    ResponderEliminar
  4. A próxima palavra seria "olho"???
    Um choque terrível para o Tim...
    Beijos e abraços
    Marta

    ResponderEliminar
  5. Uma história fantástica para atingir um fim bastante polémico.
    Será que Deus andou a brincar aos monstrinhos e ninguém nos diz nada...ninguém pia? Quem sabe se não existe uma semente por aí a engasgar a história da humanidade.

    bjs

    ResponderEliminar
  6. JPD,
    Foi ver a película de Terrence Malick?
    Há qualquer coisa de parecido...
    :)))

    Gostei.

    ResponderEliminar
  7. Boa noite, Ana

    Não fui ver o filme do Terrence Malick.

    Quis fazer uma brincadeira com o medo, os dinossauros e o público.

    No Poltergeist de Spielberg, no início do filme, a criança é sugada no cone de luz para aparecer mais tarde.
    Esse expediente serviu-me para, desta vez, o Tim escapar ao dinossauro.
    O momento de tensão está na possibilidade do animal poder, através da tv, ver o que o Tim está a fazer no quarto. Falsa indução de ataque. Tal como os cinéfilos, também o dinossauro se rende às pipocas.
    (Esta a ironia a propósito do mastigar nas salas de cinema. Detestável!)
    Tudo o resto é inventado.
    Depois a citação de V.Ferreira para remate.

    Bjs, Ana

    ResponderEliminar
  8. JPD,
    As pipocas são de facto irritantes.
    Vergílio Ferreira é um must. Não li este livro!

    Há uns tempos atrás eu gozava com as dicas publicitárias nas salas de cinema a respeito do silêncio e de deixar a sala limpa...

    A "civilidade" perdeu os seus tempos áureos!:))

    JPD estou curiosa para saber o que pensa do filme: "A Árvore da Vida", porque eu estranhamento não achei nada de transcendente. Tinha expectativas altas.
    O filme fez-me lembrar fenómenos ligados à "New Age". Tenho que perceber se estou a perder qualidades ou se preciso de rever o filme. Vou esperar para ler críticas sem ser dos críticos dos media. O seu texto tem um ponto de contacto com a história do filme, mas apenas um.
    Bjs.

    ResponderEliminar
  9. Sempre me pareceu - e agora está provado!- que comer pipocas enquanto se vê cinema só pode trazer maus resultados:)))
    Excelente, a mistura entre ficção e realidade (quem gosta muito de cinema, não há separação enquanto se vê um filme...)

    ResponderEliminar
  10. (com a ajuda da Sara, já resolvi o problema com a entrada dos comentários...)
    Bom fim-de-semana!

    ResponderEliminar
  11. Quem aguenta o som das pipocas no cinema?

    ResponderEliminar
  12. O blogue que refiro é este http://oguizoeogato.blogspot.com/ e a caixa de comentários rejeita a minha conta ( url). Pedia-lhe que deixasse lá o seguinte comentário: A Isamar dos blogues Cata-Vento; alfazema e Sophiamar informa que a caixa de comentários dos seus blogues não a deixa registar a sua conta google pelo que não pode deixar quaisquer comentários assim como no seu mais recente blogue. Isto só começou a acontecer recentemente.
    Bem-haja!

    ResponderEliminar
  13. JPD, o medo humano foi aqui caracterizado de forma extraordinária, mas a metáfora dos «clones e dinossauros» seria excelente para os tempos que vivemos...
    Beijinho

    ResponderEliminar
  14. Se reflectirmos bem...efectivamente aqueles seres descomunais ...que desfrutaram da terra durante centenas de milhões de anos...ainda nós nem éramos gente...e que terá acontecido depois? E Deus ...durante todo esse tempo...?! É um verdadeiro mistério que ninguém consegue decifrar...A origem de tudo...

    Gostei imenso da tua aventura...muito bem narrada!!!

    Beijos JPD

    ResponderEliminar
  15. Quem diria que um monstro mastodôntico poderia ser exterminado por... pipocas! Será que há imagens que se associam ao medo que poderão ser minoradas por algum humor e pensamento divergente? É provável que sim.
    Grande argumento que aqui construíu, JPD.
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  16. Olá

    Apesar do medo, do pavor somos atraídos pelo mistério.

    Bjs.

    ResponderEliminar
  17. Nunca mais como pipocas ! Quer dizer nesse próximo tempo enquanto me lembrar da tua história...
    De toda maneira, nunca com canela porque sendo gravemente alérgica a ela, eu não escapava como o Tim !
    Beijinhos
    Verdinha

    ResponderEliminar
  18. Quando enfrentamos o medo, mesmo quando o enfrentamos com prazer, como no caso do cinema de terror, é normal bater o dente... E, como a ida ao cinema ou a visualização de um filme são programadas, aproveita-se e leva-se o que possa ser trincado... No caso do Tim, tá visto que não funcionou, porque, além de se esquecer de trincar, engoliu no pior susto, quer dizer, quando devia ter apenas engolido em seco...

    ResponderEliminar
  19. Além do barulho, já tive a sorte de pisar pipocas, até comentei com o meu garoto sobre os porcalhões da sessão anterior que deviam estar a querer levar à letra e serem os autênticos e verdadeiros... pigs ;)

    Bjos

    ResponderEliminar
  20. Magnífico, JPD! Ri muito! Um bálsamo, este teu texto, brilhantemente rematado com o grande Vergílio Ferreira. Já esgotei o léxico no que toca a elogios para aqui deixar... :)

    ResponderEliminar