
«Agora o que dava estilo à cidade era o rio,
largo e azul como um segundo céu...»
«HOTEL LUSITANO»
Rui Zink
Ed . Planeta
largo e azul como um segundo céu...»
«HOTEL LUSITANO»
Rui Zink
Ed . Planeta
Quando o Dinis nos convidou para velejar no Tejo, a Amélia aceitou imediatamente.
Eu aquiescei.
Contrariar tanto entusiasmo seria desagradável.
A Amélia tinha uma péssima relação com o mar. Qualquer ondulação com mais de meio metro era suficiente para a deixar agoniada, irremediavelmente indisposta.
Viajaríamos para lá do Bugio. Quem nos garantiria que o mar seria "chão".
O passeio correu bem.
Fomos até Carcavelos e, no regresso, subimos o Tejo até à foz do Trancão.
A viagem foi muito agradável.
Um detalhe surpreendeu-me sobremaneira: a projecção do som da cidade no Tejo. Tão clara, tão depurada. Nada de roído, da cacofonia que tanto nos aflige. Havendo grafia para o som, nada de uma mancha indescritível, soberana a qualquer contorno. Nada. Que sensação extraordinária. É verosímil pensar que o som puro afinal, pode evoluir deste relato para o silêncio absoluto?
Nenhum olhar da cidade passou a estar dependente apenas de um sentido, nu e intacto. A conjugação do panorama, da luz, do som, do cheiro, até do contacto com a água do Tejo, favorecia o perfeito desempenho dos sentidos definindo sensações superlativas.
Que tarde!
«Ainda bem que viemos, Luís. A partir de hoje é-nos possível falar da cidade de Lisboa em várias perspectivas:
A de ao nível do mar, a mais recente e surpreendente;
A de na sobriedade do banco de jardim, onde quase nos é impossível ver singrar o rio e as Tágides, por isso a necessidade de imaginar uma réplica do céu;
A de no alto dos miradouros de Lisboa de onde o Tejo jamais replicará o céu consagrado mas não evitará o efeito de espelho de água tão glosado;
A de no planos dos aviões, a perfeição da recolha de sensações é quase sempre perturbada pelo roncar dos motores, ou porque estão a projectar-se para o espaço, ou porque estão a descerem para nos deixar em terra, onde a gente pensa, por preguiça, ser o lugar seguro;
O de na travessia da ponte sobre o Tejo, mais tangível que a perspectiva de avião.»
E eu a pensar na luz e na sombra, na audição e na distância, no corpo e no volume, no espaço, afinal, numa certa caracterização da identidade, na territorialidade e na sua relação com o mundo exterior.
Aqui sentado, num tradicional banco de jardim de Lisboa -- Sempre desejei ter uma réplica aqui em casa. No nosso jardim. Pena é que tenha sido tarde demais. A Amélia já não usufruirá. -- lembro-me que a Amélia sempre recusou ser fotografada nos bancos onde descansávamos nos nossos passeios pela cidade.
Acharia penosa a "datação" da idade que é inevitável na fotografia?
Desejaria que as pessoas se lembrassem dela através da impressão suscitada pelo mais recente contacto pessoal?
Se a vida alguma vez fosse (Alguma vez pudesse ser.) um eterno domingo, a luz que resplandecesse e cujo brilho aí se apresentasse tão generoso e desinteressado ao nosso fruir, transformar-nos-ia em pessoas mais felizes, menos fúteis, menos vezes incompreensivelmente recalcitrantes?
Um só sentido, sequer uma emoção, condicionarão o apreço que esta cidade me suscita quotidianamente.
Haverá um sonho para ela que eu tanto gostaria de aceder.
A Amélia andou lá perto.
Eu aquiescei.
Contrariar tanto entusiasmo seria desagradável.
A Amélia tinha uma péssima relação com o mar. Qualquer ondulação com mais de meio metro era suficiente para a deixar agoniada, irremediavelmente indisposta.
Viajaríamos para lá do Bugio. Quem nos garantiria que o mar seria "chão".
O passeio correu bem.
Fomos até Carcavelos e, no regresso, subimos o Tejo até à foz do Trancão.
A viagem foi muito agradável.
Um detalhe surpreendeu-me sobremaneira: a projecção do som da cidade no Tejo. Tão clara, tão depurada. Nada de roído, da cacofonia que tanto nos aflige. Havendo grafia para o som, nada de uma mancha indescritível, soberana a qualquer contorno. Nada. Que sensação extraordinária. É verosímil pensar que o som puro afinal, pode evoluir deste relato para o silêncio absoluto?
Nenhum olhar da cidade passou a estar dependente apenas de um sentido, nu e intacto. A conjugação do panorama, da luz, do som, do cheiro, até do contacto com a água do Tejo, favorecia o perfeito desempenho dos sentidos definindo sensações superlativas.
Que tarde!
«Ainda bem que viemos, Luís. A partir de hoje é-nos possível falar da cidade de Lisboa em várias perspectivas:
A de ao nível do mar, a mais recente e surpreendente;
A de na sobriedade do banco de jardim, onde quase nos é impossível ver singrar o rio e as Tágides, por isso a necessidade de imaginar uma réplica do céu;
A de no alto dos miradouros de Lisboa de onde o Tejo jamais replicará o céu consagrado mas não evitará o efeito de espelho de água tão glosado;
A de no planos dos aviões, a perfeição da recolha de sensações é quase sempre perturbada pelo roncar dos motores, ou porque estão a projectar-se para o espaço, ou porque estão a descerem para nos deixar em terra, onde a gente pensa, por preguiça, ser o lugar seguro;
O de na travessia da ponte sobre o Tejo, mais tangível que a perspectiva de avião.»
E eu a pensar na luz e na sombra, na audição e na distância, no corpo e no volume, no espaço, afinal, numa certa caracterização da identidade, na territorialidade e na sua relação com o mundo exterior.
Aqui sentado, num tradicional banco de jardim de Lisboa -- Sempre desejei ter uma réplica aqui em casa. No nosso jardim. Pena é que tenha sido tarde demais. A Amélia já não usufruirá. -- lembro-me que a Amélia sempre recusou ser fotografada nos bancos onde descansávamos nos nossos passeios pela cidade.
Acharia penosa a "datação" da idade que é inevitável na fotografia?
Desejaria que as pessoas se lembrassem dela através da impressão suscitada pelo mais recente contacto pessoal?
Se a vida alguma vez fosse (Alguma vez pudesse ser.) um eterno domingo, a luz que resplandecesse e cujo brilho aí se apresentasse tão generoso e desinteressado ao nosso fruir, transformar-nos-ia em pessoas mais felizes, menos fúteis, menos vezes incompreensivelmente recalcitrantes?
Um só sentido, sequer uma emoção, condicionarão o apreço que esta cidade me suscita quotidianamente.
Haverá um sonho para ela que eu tanto gostaria de aceder.
A Amélia andou lá perto.
Nasci em Lisboa e quase sempre tenho vivido cá, adoro a minha cidade...
ResponderEliminarPosso visitar muitas cidades mas a parte melhor é quando estou de volta... acho que isto é mesmo paixão.
A minha filha de vez em quando, ainda, fala que eu devia ir viver com ela para os EUA... tenho a certeza que uma das razões para não ir é mesmo Lisboa... ia morrer de saudades, do Tejo, do sol,... de tudo.
Bjos
Olá
ResponderEliminarlisboa tem um sonho...a luz do seu céu!
Bjs.
É sempre interessante ver os diferentes bairrismos. Quanto ao texto, só posso dizer o mesmo de sempre: muito bonito.
ResponderEliminarGostava de ser bairrista de algum lugar...
Ainda antes de lá chegar, também eu pensava, à medida que lia, que há toda uma multiplicidade de perspectivas para observar um mesmo espaço, uma mesma cidade. Em última instância poderíamos generalizar este raciocínio aos desafios da vida, à conotação dos acontecimentos, à interpretação de nós próprios e dos outros, da realidade, etc., etc. A beleza do teu texto não surpreende, porque já nos habituaste a encontrá-la aqui, e o mesmo se poderá dizer, e enfatizar, acerca da capacidade de nos interpelares.
ResponderEliminarUm abraço sempre grato pela boa leitura que nos proporcionas :)
PS: Gosto muito de Maluda. Boa escolha! :)
ResponderEliminarJPD,
ResponderEliminarLisboa é eterna, apesar de não ser Roma. Lisboa quer da tangibilidade do rio, quer do banco de Jardim é uma aguarela de sonhos e realidades. Do céu Lisboa é simplesmente fantástica, dos miradouros, do banco de jardim, todo o casario penetra nos nossos pensamentos. Este hino a Lisboa é belo e triste porque haverá sempre um banco de jardim vazio.
A futilidade esmaga!
Deixo a metáfora para si.
Gostei da beleza do texto, da originalidade da escrita.
Bjs. :)
Nasci, cresci, trabalhei, fiz-me gente em Lisboa.
ResponderEliminarAgora que não estou por lá, a melhor imagem que me ocorre, é independentemente da forma de me locomover para lá regressar, seja de avião, carro, mesmo até de comboio, nas diferentes perspetivas de como a começo a vislumbrar à chegada, é a sensação de quem volta ao conforto que só em nossa casa conseguimos atingir.
Lisboa é nostalgia, é festa, é vida pulsando... E todas as outras coisas que infelizmente não se consegue passar ao lado.
Kandandos
Eu gosto de dizer que sou provinciana, ainda ando a descobrir Lisboa e sinto que cada vez gosto mais desta cidade. O mar e o rio também me correm nas veias e sempre que me é dado a conhecer o que já não é novo noutras perspectivas será sempre, mas sempre o absorver de novas sensações.
ResponderEliminarE, como a vida nada nos garante, o melhor é erguer as velas se o caminho for mar, abrir as asas de for ar e se for terra, continuar a arrepiar caminho e seguir em frente mesmo o mais desafiador. A Amélia conseguiu.
Bjs
Boa noite.
ResponderEliminarA Justine não conseguiu editar o seu comentário.
A caixa de comentários não está restringida a ninguém com conta Google.
Lamento as dificuldades experimentadas por quem quis deixar um comentário e não conseguiu fazê-lo.
O comentário chegou-me por mail.
Agradeço e reproduzo-o.
Ei-lo:
«É texto de quem ama a cidade. É também texto de quem ama as palavras e sabe dar-lhes asas. E é, certamente, texto de quem procura.
(Lembraste-me L. Durrell em "Clea": "o nosso universo é a cidade onde se ama um dos seus habitantes")
Que o sonho se concretize!
Abraço
Justine
Obrigado, Justine
Um sonho ...quem não quer a matéria de um sonho, meu amigo?!
ResponderEliminarHá, de certeza, um sonho para Lisboa.
Beijo
Estava com saudades de suas palavras, meus dias sem ter o que dizer me tirou ate gosto por ler. mais volto e aos poucos recupero o que perdir..
ResponderEliminarbjs
Insana
É uma cidade magnífica, que gostaria de conhecer melhor. Tenho aí ido várias vezes, ao longo dos últimos 4 anos, em trabalho. Da cidade propriamente, só tenho tido um breve vislumbre durante as viagens de táxi, entre St. Apolónia e a 24 de Julho, onde fico presa em reuniões. E desse vislumbre guardo sempre a luz que dela emana e a vontade de a calcorrear.
ResponderEliminarO texto é magnífico e honra a cidade. É ele próprio um convite, uma porta aberta, ou uma janela aberta, como as da Maluda :)
Um abraço e um agradecimento sentido pelo esforço em editar os meus comentários. Felizmente, uma amiga deixou-me uma sugestão num comentário e resultou.
É sempre um grande prazer vir aqui ver voce JPD
ResponderEliminarUma beleza de texto e sempre me encanta.
As cidades - elas sempre despertam esse sentimento forte não só pela beleza geográfica mas também pela afetividade,pelas raízes e envolvimento que temos com elas mesmo que se pareçam com qualquer outra cidade do mundo.
Estou voltando pra uma temporada na minha cidade natal ,mais ou menos como recomenda Rimbaud : "partir para afetos e rumores novos." rs
Lisboa também é um sonho que a cada dia aumenta mais o desejo de materializar. Quem sabe?
Obrigada pela delícia de texto e gostei muito da tela de Maluda e do seu gosto particular de retratar paisagens urbanas.
grande abraço , até a volta
Lisboa...Tejo...Banco do jardim...Eu já andei um pouco de norte a sul de Portugal...Gostei de tudo...das sensações,das emoções mas a luz de lisboa...exerce um fascínio sobre mim...que não sei explicar...é como se tivesse vivido lá...numa outra vida ... ou antepassados meus ...não sei... um dia gostaria de descobrir qual o feitiço!
ResponderEliminarBeijos...afinal eu entrei foi na outra porta sem dar conta...(Sorrisos)