Quarta-feira, 3 de Agosto de 2011

Dois tristes tigres


Tigre
Júlio Pomar
Gentileza Google

1.
A Tânia e o Bruno têm passado a tarde a discutir. Na viagem a Espanha, irão a Córdoba e Alhambra ou ficarão por Sevilha?
Estão bloqueadosl: (1) O dinheiro disponível é insuficiente para o roteiro Ilha Mágica-Córdoba-Alhambra; (2) Decidiram viajar os dois. Agora, falta-lhes amigos para desempatar; (3) A Tânia constrói de forma incipiente a opção Córdoba-Alhambra. Se apontasse uma cenoura ao Bruno, dir-lhe-ia que, no regresso, parariam o tempo que ele desejasse na Ilha Mágica; (4) O Bruno, bru(n)to, acha a ideia de Córdoba-Alhambra uma seca.
A discussão foi tão persistentemente parva que chego a surpreender-me que ambos ainda tivessem capacidade para ir ao frigorífico retirar a embalagem de gelado de stracciatella para o lanche. Como é que não lhes ocorreu ir até à Sierra Nevada arrefecer os ânimos. Três horas a discutir, meus deus, para nada.

2.
Os meus vizinhos de cima (VdC) esqueceram-se que a construção civil portuguesa nunca se preocupou com a privacidade.
Involuntariamente, os condóminos escutam-se. Resignam, esmagados pela cacofonia do andar de cima.
Um flagelo.
Os VdC são jovens e discutem por tudo e por nada. Quando se esgotarem talvez comecem a conversar. Tanto quanto percebo, o fulgor afectivo tem sido insuficiente.
Ontem estiveram na reunião de condóminos. Ao integrarem-se no grupo, resolveram a questão antropológica. Com toda a naturalidade votam, aprovando ou recusando. Nunca se abstêm. Não me parece mal. Eis o seu expediente de socialização.

Aonde terei deixado o molesquine...

3.
Eu bebia café quando tocaram à porta.
Atrás da Tânia postava-se um dos Tigres de Júlio Pomar, o Bruno: mãos atrás das costas a formar a ideia de um ataque.
Mandei-os entrar.
Ao reparar na chávena com a reprodução de um tigre, a ideia de sósia aplacou-o.
Titubeante, a Tânia disse:
«Dona Lena, nós não...»
«Lena. Tire o "Dona"
, Tânia.»
«Lena... Nós não vamos para Espanha...»
«Como...»

Bruno tenso: «Vai ao ponto, Tânia.»
«Quem decide das nossas férias...»
Sem aguentar mais, ostensivo, Bruno estende a mão para mostrar o molesquine: «Que vem a ser isto, Lena?»
«O que se passa?»
«Então você atreve-se a tomar notas, a comentar as nossas conversas, a Lena?»
«Eu...»
A Tânia: «Sim!»
«Ah! Caladinhos, com o molesquine... A bisbilhotar...»
A exasperar, o Bruno abriu o molesquine, folheou à bruta, até quase ao fim: «Veja!»
«A nossa privacidade...» Atreveu-se a Tânia.
«...é sagrada, Lena!» Quase gritou Bruno.
«Então porque é que não me devolveram o molesquine quando o encontraram?» Retorqui. «Não resistiram a ler o conteúdo. Foi, não foi? Que vergonha!»
«Vergonha... Sua, Lena.»
«Porquê?»
«Voyeurismo!» Gritou a Tânia.

A tensão era tamanha que mal resisti a acender um cigarro, a tomar outra bebida... Personagens a revoltarem-se contra o autor... Que Baunty é a minha!

É claro que se recusaram a voltar para o molesquine.
Como a minha insistência não resultava, restou-me a decisão musculada: editar a ocorrência, deixando-os inapelavelmente confinados à sua condição de personagens, ao desígnio que lhes tracei: ir a Córdoba e a Alhambra e, só depois, se desejarem, à Ilha Mágica. Era só o que faltava que a minha vontade não fosse soberana!

5 comentários:

  1. gostei muito. e lembrei-me de outros tigres. sobretudo dos de borges:




    «Pienso en un tigre. La penumbra exalta
    La vasta Biblioteca laboriosa
    Y parece alejar los anaqueles;
    Fuerte, inocente, ensangrentado y nuevo,
    Él irá por su selva y su mañana
    Y marcará su rastro en la limosa
    Margen de un río cuyo nombre ignora
    (En su mundo no hay nombres ni pasado
    Ni porvenir, sólo un instante cierto.)
    Y salvará las bárbaras distancias
    Y husmeará en el trenzado laberinto
    De los olores el olor del alba
    Y el olor deleitable del venado;
    Entre las rayas del bambú descifro
    Sus rayas y presiento la osatura
    Bajo la piel espléndida que vibra.
    En vano se interponen los convexos
    Mares y los desiertos del planeta;
    Desde esta casa de un remoto puerto
    De América del Sur, te sigo y sueño,
    Oh tigre de las márgenes del Ganges.

    Cunde la tarde en mi alma y reflexiono
    Que el tigre vocativo de mi verso
    Es un tigre de símbolos y sombras,
    Una serie de tropos literarios
    Y de memorias de la enciclopedia
    Y no el tigre fatal, la aciaga joya
    Que, bajo el sol o la diversa luna,
    Va cumpliendo en Sumatra o en Bengala
    Su rutina de amor, de ocio y de muerte.
    Al tigre de los símbolos he opuesto
    El verdadero, el de caliente sangre,
    El que diezma la tribu de los búfalos
    Y hoy, 3 de agosto del 59,
    Alarga en la pradera una pausada
    Sombra, pero ya el hecho de nombrarlo
    Y de conjeturar su circunstancia
    Lo hace ficción del arte y no criatura
    Viviente de las andan por la tierra.

    Un tercer tigre buscaremos. Éste
    Será como los otros una forma
    De mi sueño, un sistema de palabras
    Humanas y no el tigre vertebrado
    Que, más allá de las mitologías,
    Posa la tierra. Bien lo sé, pero algo
    Me impone esa aventura indefinida,
    Insensata y antigua, y persevero
    En buscar por el tiempo de la tarde
    El otro tigre, el que no está en el verso.»

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  2. Excelente o "jogo de espelhos"! E muito interessante a referência leterária! Grande revolta:))))

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  3. Gosto do entrecruzar de realidade e ficção. Às tantas, quem é real e quem é personagem? Quem é afinal soberano: autor ou fonte de inspiração? É precisamente essa a parte boa: é o autor que decide onde termina a realidade e começa a ficção, quando termina a discussão, quando se dá o clímax do enredo...

    Gosto muito da incoerência do moralismo das personagens: não tens o direito de ouvir as nossas conversas mas nós temos o direito de ler o teu moleskine... Então onde termina afinal a nossa privacidade? E será efectivamente possível desligar a nossa atenção e evitar ser voyeurista (mais ou menos acidental) do próximo?...

    Já tinha saudades de passar por aqui...
    *

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  4. Olá

    Uma rentrée de luxo!

    Um misto de realidade e ficção. Mais realidade que ficção.

    Bjs.

    Lisa

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  5. perdi-me neste "jogo" e gostei de me perder

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