I am sailing, I am sailing.
home again, 'cross the sea.
I am sailing stormy waters
To be near you, to be free
I am flying, I am flying
Like a bird 'cross the sky
I am flying, passing high clouds
To be with you, to be free.
(...)»
Rod Stewart
I am sailing stormy waters
To be near you, to be free
I am flying, I am flying
Like a bird 'cross the sky
I am flying, passing high clouds
To be with you, to be free.
(...)»
Rod Stewart
1.
Surpreendida, a tripulação do barco de parasailing foi abordada por dois estranhos. Algemada e amordaçada, foi encerrada numa cabine. Nessas condições era impossível um alerta.
Surpreendida, a tripulação do barco de parasailing foi abordada por dois estranhos. Algemada e amordaçada, foi encerrada numa cabine. Nessas condições era impossível um alerta.
Até nem estava muito ansioso. Mas pareceu-me excessiva a demora da tripulação.
O barco chamava-se The Pequod. Não liguei.
2.
A partir do momento em que se abre o pára-quedas, é-se puxado para cima com uma força indescritível. A seguir, o cabo que nos liga ao barco é distendido e acontecem duas coisas, em simultâneo: distanciamento da embarcação e aumento da altitude, de ansiedade, se for caso disso.
Ultrapassada a primeira e forte emoção até estabilizar numa altitude apreciável -- Mal distinguia o barco que me arrastava, lá em baixo -- cheguei a lembrar-me de Klein, da sua "Época Azul" em que pretendeu conciliar a cor, a escala humana e a intensidade luminosa. Enquanto pensava isto, olhava em frente, por cima da linha do horizonte, e regozijava-me. Então acrescentava a esse pensamento as associações que são atribuídas ao azul: positivas -- espiritualidade, justiça, limpeza, higiene; negativas -- valores trocados, secretismo.
A manhã resplandecia. A luminosidade era tão intensa que a diferença entre o azul do céu e o azul do mar mal se distinguiam. Vogaria no azul perfeito de um quadro de Klein?
A viagem de parasailing estava a alongar-se. O distanciamento da costa era cada vez maior. Reparara até que uma única vez a tripulação do barco olhara para cima, para avaliar as minhas condições de voo. Estava demasiado determinada em seguir em frente. A viagem deixara de ser de recreio. Teriam enlouquecido?
3.
Quando a D. Dulce entrou na arrecadação para abastecer o carrinho de higiene de detergente e papel higiénico para as casas de banho, primeiro imobilizou-se, a seguir tentou perceber o que faziam aqueles siameses amordaçados; depois, saiu a gritar por socorro.
Aproximou-se de mim uma gaivota.
Muito especial: João Capelo Gaivota.
«Sentes-te preparado para uma longa viagem, Ícaro?»
«Quê?»
«Estás agasalhado?»
«Colete em cima de uma T-shirt. Nada mais.»
«Não vais aguentar, rapaz.»
«Porquê?»
«Sabes o nome do comandante do barco que te arrasta?»
«Não.»
«Ahab.»
«Ahab...»
«Não te diz nada?»
«Ahab...»
«E Moby Dick?»
«...»
«O sujeito que tripula o barco é um descendente do capitão Ahab. Tem a mesma deficiência genética de Ahab. Acha que poderá capturar o Moby Dick.»
«Sim... Mas que tenho eu a ver com essa loucura?»
«Fugiu do manicómio... Escolheste a a hora errada para te recreares. Dia aziago para o parasailing.»
4.
O alerta foi dado.
A corveta da marinha de guerra de patrulha das doze milhas intersectou a embarcação de recreio.
Soltaram o cabo. Fugiram. Tive muita dificuldade em controlar a trajectória de descida.
O fascínio da altura, do azul e da luminosidade, desapareceram de imediato.
Não ganhei para o susto.
Para me salvarem, foi impossível capturar a embarcação.
Aquele movimento visaria consumar uma manobra de diversão para consumar um ilícito?
Mal posso crer nessa possibilidade.
A concentração na cor única. o azul, cuja missão era unificar o céu e a terra, diluindo assim a linha do horizonte é uma ideia deslumbrante. É inegável. Mas não nos acompanha nos longos instantes de angústia. Os que vivi lá em cima, foram dramáticos. Agora, sim. Em terra firme e incólume, posso dar-me a esse luxo, o de me afeiçoar a esta brilhante ideia de Klein, afinal, tão aliciante.

Olá
ResponderEliminarE porque não tentarmos unir o céu com a terra?!
Pessoalmente, prefiro não os unir...
Bjs.
Magnifico! De ler e querer ler mais.
ResponderEliminarabraço
oa.s
A chatice é que a arte não pode redimir tudo - ms ajuda, em muitas circunstâncias!
ResponderEliminarAzul bic ,cor agora com nome e sobrenome- Yves Klein , na moda depois que a neo-princesa Kate escolheu como look perfeito pras bodas!
ResponderEliminarPor ser extemamente saturado e luminoso tem muito a ver com a unificação perfeita entre o céu e a terra como tudo que o francês fazia com suas telas monocromáticas.
Claro que nao evitará que se morra de medo de planar indefeso. rs
JPD, venho de alguma dor com a passagem de um amigo blogueiro, a morte sempre me altera muito.Seja de perto ou de longe.
deixo um abraço e saudade de ler-te mais amiúde.
Brilhante este texto, é como o azul do mar sem fronteira com o azul do céu!
ResponderEliminarVislumbrar o horizonte é uma dádiva dos deuses, nem todos têm essa possibilidade, vale todas as angústias.
Ícaro não se salvou.
P.S. Aforo a ementa do lado direito do écran.
Bjs.
confesso que teria preferido um encontro afectivo com o simpático cetáceo...
ResponderEliminarassim, e em defesa de miss moby, deixo-lhe algumas das suas reflexões:
UMA BALEIA VÊ OS HOMENS
Sempre tão atarefados, e com longas barbas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar mas não nadam, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.
António Tabucchi, "Mulher de Porto Pim"
;)
Num se projecta o outro, no especular jogo de reflexos: c'est la vie.
ResponderEliminarbjs