Terça-feira, 4 de Outubro de 2011

As sandálias do pecador...


Eu estava na Tower Bridge. Ajustava a profundidade de campo para o estuário do Tamisa. Terei percebido a oscilação da ponte e, no entanto, deixei surpreender-me. Basculava para um barco passar.
Quando quis recuar era tarde.
A sandália prendeu-se na extremidade da báscula. Desequilibrei-me. Incrédulo, baloiçava. Perdi a máquina e, qual saco de boxe, girei num eixo absurdo sobre o barco carregado de fardos de lã de carneiro, entontecido.
Subitamente, a sandália desprendeu-se, por rotura do cabedal, por fraqueza da presilha, numa vertigem assustadora, vi-me sugado pelo peso do meu corpo, pela gravidade, para o interior de um dos fardos de lã.

Do passadiço superior, a fotografar a Tower of London, a Guida estranhou o meu desaparecimento. As restantes pessoas estavam alheadas. Ao nível da ponte, houve quem se afligisse e a seguir ficasse perplexa. Sem sinais de queda de alguém no rio, tornando-se incerta a ocorrência de acidente, restava-lhes voltarem a ocupar-se dos seus interesses.
Entediado, o operador das máquinas da ponte limitou-se a registar a passagem de um barco carregado de fardos de lã.

Eu nunca usei uma gola de correcção de coluna, jamais experimentei uma gola quinhentista, branca e imaculada, prerrogativa de aristocratas. Essa lacuna acentuaria a minha inquietação. Mergulhado num enorme cilindro de lã, não sentia qualquer aleijão, não experimentava qualquer formigueiro. Cheguei a temer a deslocação de uma L3 ou L4, talvez até a lesão de uma cervical, c2, c3 -- Tanta ansiedade... Premonição de hipocondria, ora esta! -- Estaria perdido, não é. Não sentia dor, não sofria. Porém, não conseguia mexer-me.

A Guida ligou para a polícia. Tomaram nota e prometeram agir. A displicência mal dissimulada foi um péssimo presságio. A promessa de averiguações foi frouxa. Havia que aguardar. Seguiu-se o inquérito sobre o desaparecido: compleição física, vestuário, por aí adiante, acabando a Guida por dizer que «Não. Não se chama Sebastião.» Ao desligar, ainda acrescentou «Merdolas
A Guida voltou a ligar para o meu telemóvel. Era impossível atender. Não me conseguia mexer.

A polícia não gastou muito tempo nem recursos nas buscas junto à Tower Bridge.
Rapidamente confirmou que havia um sinal ténue de uma frequência de telemóvel a singrar no rio.

A esperança é a última coisa a desaparecer e eu achava que iria perecer sem uma réstia dela.
Se aqueles fardos de lã iam a caminho da Escócia eu acabaria nas fábricas de Kilt em que condições. Não tardaria a querer saber quem apoiaria: Celtic ou Rangers. «Quê, gosta de Whisky?»;
Se o destino fosse a Tate Modern que instalação seria aquela. Como reagiria a organização do evento, o autor da obra, o público, quando eu emergisse, qual caroço?;
Fiquei sem saber se seria melhor ir para a Sala de Horrores da Madame Tussauds ou para uma das salas de tortura da Torre de Londres: receber um 'camadão' de cera em cima e ter de aguentar indicadores de putos nos olhos ou nos ouvidos, ou, ser selvaticamente punido por um Beefeater. Que escolha me restaria?
Fosse o fardo de algodão, que bem me soaria um blue, até um gospel.

Agora, sim, percebo a ideia de turismo acidentado: sem uma fotografia que enclausure os derradeiros instantes da minha estadia em Londres e o meu desaparecimento, qual fuga inesperada ao sentimento de morte que uma foto e a sua paragem no tempo sempre exibe. Como se isso importasse. Afinal sou (Continuarei a ser...) mais uma daquelas pessoas que não participa na História nem com o seu nome, tão pouco com o seu anonimato (Vidé «O Amante Extremamente Minucioso» de Alberto Menguel)

Tanta falta me fizeram, as botas...

11 comentários:

  1. Que bom regresso! E nós ficamos também sem saber qual o destino do fardo de lã!! Ir a Londres sem levar as botas, é quase como ir sem levar o guarda-chuva!! Uma foto é sempre uma confirmação de um tempo que passou, uma lembrança constante da efemeridade... e noentanto, participamos sempre na História, quer fique registado ou não... :) beijo

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  2. Que texto Confesso que não sabia se havia de rir ou chorar... de rir.
    Um abraço e bom feriado

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  3. umas botas assim fazem sempre falta...

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  4. Aconteceu-me uma coisa parecida numa das pontes basculantes de Amsterdam - só que eu nunca teria o engenho e arte para descrever assim o episódio!
    Bem-vindo ao mundo surreal em que vivemos:-)))

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  5. Sempre de um cuidado absoluto na construção da «fable» e com um «récit» magnífico.

    Não resisti à deformação profissional.

    A imagem e o título muito adequados.


    Beijo

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  6. Terceira tentativa para comentar o teu post! As outras duas desapareceram, algures, no éter! Se este "teste" ficar, comento amanhã:))))
    (a Internet está de novo destrambelhada - a semana passada o meu blog foi removido, e vi-me "em papos de aranha" para o recuperar...

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  7. Palavras para quê? Incomparável! Só comparável a ti próprio, JPD. E, surpreendentemente, o nível mantém-se sempre elevadíssimo. Um "must"! :)

    Abraço.

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  8. Olá

    Voltaste com o "último grito" ,em botas, da colecção Outono /Inverno.

    Estou num dilema...ficção ou realidade?!

    Ahhhhh...espirrei, lendo-te!

    Bjs.

    Lisa

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  9. Excelente texto. Parabéns!

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  10. As botas serão de Magritte?
    Um instante fotogénico devido à proeza do desequilíbrio.
    Londres, cidade encantadora, deixa sempre que se entre na sua história.
    O que dizer do texto? Parabéns, chega não chega?
    Beijo. :)

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  11. Não JPD...nada de cruzeiros...aquilo é brincadeira...Beijo

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