
1.
São nove da manhã.
Não consegui obrar.
Tomei duche. Já me serviram o pequeno-almoço.
Vou falhar a alta hospitalar.
Tenho um objecto no tubo digestivo: ontem, à hora da endoscopia, estava no estômago; seria desejável que, tendo descido ao intestino, repousasse no cólon para ser evacuado.
Relato médico: objecto oblongo, pequeno, com densidade, pouco pesado.
«Faz ideia do que se trata?»
Lembro-me de ter ido ao frigorífico, retirar a embalagem de iogurte líquido, já encetada, fechar os olhos, vor(Z)áz!, abrir a goela e sentir algo estranho esófago abaixo.
Ontem, a Sara esteve comigo até às onze da noite.
Saiu do hospital com a pulseira Manchester e eu cheguei a temer não ser visto pelo médico.
«Homem, a si acontece-lhe tudo: ingere um objecto, desaparece-lhe a pulseira. Mero acaso ou é sempre assim?»
Aonde terei deixado o meu telemóvel... Se estiver na carteira da Sara, estou safo.
2.
Cá em casa, cada um tem o seu pc portátil.
O meu pai montou uma rede doméstica e resolveu instalar o rooter e a impressora no escritório.
O ponto fraco desta solução é o reabastecimento dos consumíveis. Toda gente a servir-se sem querer saber se há papel suficiente ou se é necessário substituir os tinteiros. Consequência: rebentam fortíssimas discussões, acusações recíprocas de egoísmo, falta de zelo. Não custa nada avisar. Ninguém se dá a esse trabalho.
Hoje descobri que o Luís anda a fazer experiências e abandona-as no tabuleiro da impressora. Bonecadas! Quis imprimir um trabalho para levar amanhã para a escola e não há papel em casa.
O safado não atende o telefone, nem responde às mensagens.
Quando estiver com ele, vai ver como elas mordem. Ai dele que venha com aquela sonsice de "Desculpa mAna!" Passo-me até ficar bruta.
3.
«Estás com mau aspecto, Luís. Sentes-te bem?»
«Mais ou menos.»
«Então?»
«Tentei vomitar: não resultou. Também não consegui obrar.»
«Falaste com o médico?»
«Não!»
«Pediste um laxante à enfermeira?»
«Não!»
«Vais ficar aqui no hospital até quando?.»
«Não faço a mínima!»
«A tua irmã está fula contigo.»
«Falaste com ela.»
«A Ana mandou-te uma mensagem a chamar-te idiota e coisas piores. Precisou de papel e descobriu que estoiraste as folhas a imprimir "merdas". Lê.»
«Ela tem razão, Sara.»
4.
Quando decidimos ter duas crianças com uma pequena diferença de idades, achei que o ideal seria ter um casalinho -- «Ok, consagração de estereótipo, Bla-bla-bla!» -- seria excelente: um rapaz e uma menina não 'chispariam' tanto quanto dois irmãos do mesmo sexo. Enganei-me. Toleram-se com dificuldade, chegando a insultar-se abundantemente.
Pela primeira vez estou assustada.
A Ana está descontrolada porque não tem papel e, principalmente, suponho, por ter sido forçada a dizer-me que desconhece o paradeiro do mano.
Estava a ser tão agradável este fim-de-semana aqui em Santa Clara-A-Velha!
«Se estivéssemos em Saltzkammergut correríamos para o aeroporto para socorrer os meninos...»
É por estas e por outras do Raul, que o Luís se sentirá desafiado a superar o pai... Pode lá ser outra coisa!
«Não digas disparates, Raul. Vamos para Lisboa.»
O crime:
Desenhei uma série de esquissos de um homem a soerguer-se, desde a posição de repouso até à de Homo Erectus -- «O meu Frankensteiner de estimação a rebentar de benignidade!» -- a apontar o indicador para o botão da impressora, com um sorriso nos lábios.
Passadas estas folhas a uma velocidade constante, o movimento conferiria animação e o desenho tornar-se-ia humano.
A minha irmã não quis saber do que se tratava tremenda era a sua fúria.
Para retaliar, foi ao frigorífico e arrancou dois pin de bolas do Sporting -- Anos de Campeões Nacionais de Footsal -- e introduziu uma em cada garrafa de litro de iogurte. Sabe que sou doido por piña colada.
O castigo:
A porta do nosso frigorífico está dividida em quatro quadrantes:
- O inferior-esquerdo, onde se encontram os nossos pins é o «EFÉMERO EM QUEDA»
- O superior-esquerdo, «EFÉMERO EM ALTA», receberá do quadrante inferior-esquerdo os nossos pins daqui a uma semana quando a sonsa da minha mAna colocar um lacinho nos pins dos 'cótas' e no meu. Reconciliações é com ela!
- O inferior-direito, «MEMORÁVEL EM QUEDA», um pin de Santa Clara para cada um de nós com entrega embargada.
- O superior-direito, «MEMORÁVEL EM ALTA», um pin de Santa Clara escolhido pelos meus pais a prender uma fitinha de papel «INESQUECÍVEL! -- SCV(*)» Daqui a uma semana terão o tal lacinho. Vão ver!
______________________
(*) SCV = Santa-Clara-A-Velha
;)
ResponderEliminar[e fez-me lembrar aquela história antiga de um cirurgião que deparou na mesa de operações com o amante da sua mulher. tirou-lhe o apêndice mas deixou propositadamente uma pinça no interior do abdómen. após o julgamento que se seguiu à morte inevitável do amante - a autópsia só veio revelar e confirmar os factos - ao saber da sentença fatal, consta que a mulher terá ironizado: "o crime... não compinça"]
De uma criatividade hilariante...delirante! :-))
ResponderEliminarGostei!
Afinal engoliu um pin ou ainda não evacuou?! :-))
Histórias do quotidiano, nem sempre com final feliz, como é a vida, mas perpassadas de humor que me fizeram rir, coisa rara neste momento.
ResponderEliminarEspero que "objecto oblongo, pequeno, com densidade, pouco pesado" tenha saído naturalmente.
Bem-hajas!
Abraço fraterno
Magníficas estórias entrelaçadas ... Beijinhos *
ResponderEliminarOlá
ResponderEliminarSoberbo!Uma imaginação fabulosa!!!
Fizeste-me rir, pois recordei a peripécia que foi quando um aluno meu engoliu uma moeda, ainda no tempo dos escudos). Fiquei aflita...estive quase a ir com o miúdo para o hospital.Chamei a mãe e ela resolveu. Deu-lhe um copo de azeite e sentou-o no "penico" até saiiiiiiiiir.
E tu?...Em que ficamos??? Engoliste, já evacuaste ou queres um copo de azeite???
Desculpa este testamento todo.
Bjs.
Lisa
rrsss as férias não te retiraram a verve, felizmente
ResponderEliminarUm abraço
Olá JPD
ResponderEliminarUma incógnita que me traz apreensiva. Qual será o nosso futuro e principalmente dos jovens???
A Banca e o grande Capital são os responsavéis, a meu ver. Não sou de esquerda, respeito qualquer ideologia desde que sejam coerentes.
Estamos num BURACO sem fundo!
Desculpa o desabafo.
Bjs.
Lisa
Terrível mesmo. O teu sarcasmo é tão fino, meu amigo.
ResponderEliminarBeijo
Fico imginando o sufoco,sentado no trono a espera do pin rsrs
ResponderEliminare a vingança é maligna nessa harmoniosa family rs
Adoro seu humor e suas luzes darwini-anas.
abraços JPD
Fiquei a pensar nos múltiplos significados que a divisão dos quadrantes pode suscitar! :)
ResponderEliminarUm Abraço!
Haverá pins que, uma vez recuperados, não merecerão figurar em nenhum quadrante... Certo? :))))
ResponderEliminarUm abraço e um bom fim de semana!
As guerras entre irmãos dão muitas vezes maus resultados. Minha mãe ficou grávida de meu irmão quando amamentava a minha irmã e não se aprecebeu logo. A miúda ia morrendo de fome já que só se alimentava de leite materno. O meu irmão nasceu no dia em que ela fazia um ano, e mais ou menos até ao fim da adolescencia não se podiam ver um ao outro. Duas vezes ele lhe partiu a cabeça, e uma vez ela lhe cortou a sola do pé entalando-o propositadamente num carril. Ele levou 32 pontos no pé.
ResponderEliminarPor isso acho que a história dos pins nem é tão louca assim.
Um abraço e bom fim de semana
A história tem muito que se lhe diga...e efetivamente as guerras entre irmãos chega a ser feroz e pode dar péssimos resultados...
ResponderEliminarObrigada pelos esclarecimentos.
Bjs
Pois eu tenho pena que os pins do canto "superior-esquerdo, «EFÉMERO EM ALTA»" desapareçam, principalmente o verde claro!
ResponderEliminarParabéns pela escrita tão criativa e a imaginação. Vou ter cuidado com os meus pins! :))
Bj.
Escrita delirante, inteligente, exigente! E com a conclusão moral surrealista, de que não há crime que não tenha castigo!!!!!!!
ResponderEliminarAbraço
JPD só tu para hoje me fazeres rir :))
ResponderEliminarNunca pensei que os pins pudessem dar origem a um excelente e hilariante texto.
beijinhos e boa semana
O enredo está feito...na base musical, de uma imaginação força.
ResponderEliminarFalta apenas o click mágico da voz rouca:
Acção!
O filme começa...um hospital de fundo e ele perdido às voltas com os pins...que colecionara nas leituras de encontros...
CORTA!
Sara...quando saíres do hospital...dá um toque da tua graça...OK!?
ACÇÃO!
...apenas o ruído da máquina de filmar no silêncio do caminho até ao grande plano...
CORTA! PERFEITO !
Venho reler e deixar o desejo de uma boa noite.
ResponderEliminarbjs