
Primeira ida ao circo. Gostei das modalidades aéreas: o trapézio e a suspensão em cordas pela nuca ou pelos dentes; ao nível do chão: as quadrigas, os palhaços e o prodígio do homem da cartola a fazer aparecer e desaparecer quase tudo o que se possa imaginar: ovos, cartas, flâmulas, cigarros acesos, fitas longuíssimas de letras siameses, frases até.
É entre estes dois planos que me surgiu o vislumbre de um cilindro. Hoje, quase me atrevo a pensá-lo como o espaço das emoções. Na altura, tratar-se ia de um espaço intrigante. Por minha incompreensão, temor de assistir a quedas de artistas, descoordenação dos cavalos, atropelos, e no entanto, era também o espaço da alegria, da exaltação, do deslumbramento, da fantasia.
Intrigou-me a minha mãe a falar de uma Mlle Lala au Cirque Fernando sem entender a que propósito vinha a palavra Degas, de o meu pai acrescentar «O efémero e o casual no meio imóvel de um quadro do tal Degas. Há um instante em que a figura que o artista circense executa é fixada por Degas.»
Sagaz, a minha mãe desviou a minha atenção da petit volant e falou-me dos palhaços e do truque das letras. Eu pedi-lhe para me ensinar um truque semelhante. O meu pai largou o jornal e trouxe um saquinho de massa crua. Despejou uma pequena porção sobre a mesa da cozinha e disse-me: «Massinhas de letras. Vês. Cada uma é uma letra. O truque é agrupá-las. Experimenta.»
Não me lembro do resultado alcançado. Presumo ter agrupado mais vogais do que consoantes pela simples razão de serem cinco, logo repetirem-se mais.Até ao fim do primeiro ano, qualquer bebé saudável começa a produzir sons. Som de consoantes. Uma litania gutural. Afinal, uma língua para cada povo como castigo para a ousadia da Babel tinha remissão. Consequência: num infantário todos os meninos se entendem e comunicam. Deve ser por outra razão que choram. Quando um começa raramente deixa de ser acolitado. Será possível que todos em simultâneo tenham o rabinho ensopado?
Não me lembro se, na utilização das vogais, disse primeiro «Papá» ou «Mamã». Espertalhão -- Eis o meu primeiro sinal -- utilizei capicuas. A primeira prova de agilidade parece-me ter ocorrido quando conjuguei as letras «Érre» e «À». Exemplo:
«Rã»
«Ázinho» nas costas do «Érre»:
«AR»
Eis um movimento inspirador para Jorge Palma
«Encosta-te a mim!»
(*) Título de um filme a concurso num festival de cinema de autor (JL de 14 de Julho de 2010)
sAbes que nunca apreciei muito circo?
ResponderEliminarO mais recente especáculo que vi foi em Moscovo e acentuei ainda mais o desprazer que tenho com os animais amestrados!
Fica bem
São
não sou um homem de letras (nem de massas) mas viajava imenso à mesa quando havia sopa de massa de letras. sabem como era: bastava escrever t-i-b-e-t-e para escalar o evereste.
ResponderEliminar(e sim, uma coisa é o relato e outra, a memória)
;)
E outra coisa ainda é a experiência dela... porque a memória nem sempre é fidedigna, mas se o não for, a experiência ficará aprisionada nesses momentos de evolução eventualmente esquecidos. O relato é por terceiros... muitas vezes, também ele, fruto de memórias incompletas, inconsistentes e falíveis... :) E será preciso explicar a luminosidade da nossa infância? Beijinhos
ResponderEliminarLembro-me de agrupar letras enquanto a minha mãe tentava que eu comesse a sopa de letras...e acabei por fazer o mesmo com os meus filhos!
ResponderEliminarA memória é uma ratoeira onde ficamos presos...à emoção do tempo que passou!
Olá
ResponderEliminarA memória é o "baú" da nossa vida. Não vivo sem ele. Abro-o frequentemente e de lá tiro os "novelos" de várias cores, consoante o "brilho" ou "escuridão" da recordação...
Procuro não deixar esbatê-las...
Parabéns pelo texto.
Bjs.
(Sorriso).
ResponderEliminarNunca gostei de canja mas comia sempre quando ela era "sopinha de letras". Tentava sempre construir nomes e a sopa demorava bastante tempo a ser consumida.
O "papá" e a "mamã" constroem as nossas memórias de forma que nunca discerniremos se o que nos lembramos é a memória ou o relato... época da imitação...
Sempre gostei de ver o outro lado do circo.
Sabe quando eu era pequena, eramos tão pobres que muitas vezes o dinheiro só dava para o pão, que comiamos depois com legumes que o meu pai sempre consegua produzir lá na horta. Circo não vimos, nem nunca ouvimos falar. A primeira vez que vi algo do género, (nem era um circo, mas meia duzia de saltibancos e um palhaço) tinha 18 anos. Um circo a sério, só vi quando levei o filho a ver um há uns 26 ou 27 anos.
ResponderEliminarDá para ver que as memórias de infância não são lá grande coisa.
Um abraço
Destas coisas a nossa amiga Eva é quem sabe. Tenho que concordar com ela.
ResponderEliminarLembro-me da infância, lugar de ouro, de letras e voz sopinha de massa, de circo e destes neocircos a que temos que assistir.
bjs
e a memória nem sempre é fiável.
ResponderEliminarSempre gostei de massa de letras na sopa, ficam lindas na canja, mas ainda esta semana entraram na sopa de feijão verde... peguei o vício ao meu miúdo... suponho que todos tentamos juntá-las... um desafio que faz com que os garotos demorem mais tempo a comer a sopa ;)
ResponderEliminarBjos
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarMemórias que se diluem no tempo mas que temos o dom de alindar. Gostei das tuas!
ResponderEliminarbeijinhos
Ó que beleza encontrar a porta entreaberta, rs fui entrando,cheguei JPD.
ResponderEliminare o título evoca lembranças boas , médias e as vezes nenhuma.No meu caso sem mãe que lhe ensinasse o truque da sopinha de letras ,me deliciei com o circo.
- ficava iluminada só de ver as propagandas ,o carro que percorria os bairros da cidade pequena e íamos até ver levantar o picadeiro rs muito bom JPD amava aquilo!
aquelas luzes,os palhaços, o colorido só lembro que fascinava-me os letreiros acesos, acendia-me a alma como até hoje quando leio bons escritores.
Barthes dizia que se há "um objeto com o qual se pode manter uma permanente relação de prazer é a língua materna" - as tais letrinhas -assim como a criança com a mãe .
E aí, agrupamos-as carinhosamente ,raivosamente ,amorosamente,silenciosamente.De todo modo e todos os povos.
Adorável sua edição, como sempre .Voltastes ! que bom.
um abraço de sexta feira , bom descanso.
Infelizmente, nem todas as infâncias são luminosas. Há muitas que são, bem pelo contrário, caracterizadas por grande sofrimento e nem memórias nem relatos são capazes de eliminar a aspereza. Já conheci muitas. O papão existe de facto, sob várias formas.
ResponderEliminarOs seus textos já faziam falta. É sempre um prazer renovado cá voltar.
Um beijinho, JPD.
(já havia tentado comentar a postagem anterior, mas o "sistema blogosférico" não aderiu à minha intenção :))
Um feliz Domingo e uma semana de paz.
ResponderEliminarEvanir
Fiquei com saudades da canja com massinhas de letras.
ResponderEliminarEra uma guerra com os meus irmãos...
Saudades!
Sempre me deixar fascinar pelo circo!
ResponderEliminarAinda hoje...
Saudações minhas!
Oh...de fato.
ResponderEliminarmas tens aqui um texto belíssimo...e com muito para refletir.
Bj
Por isso o tempo é o elemento fulcral e simultaneamente de menor importância nas nossas vidas...e a memória será, talvez, a nossa redenção! (mas hoje estou muito neura, nem o teu texto me iluminou...)
ResponderEliminarAbraço
Caro JPD, progrido na leitura dos teus textos seguindo, quase invariavelmente, a mesma sequência de estados: curiosidade, bom-humor, um misto de surpresa (só contida pela expectativa inicial da surpresa) e reflexão. Por isso, comentar-te chega a ser ingrato: Primeiro, porque é difícil expressar com rigor o apreço que estas leituras suscitam e, segundo, porque os comentários não fazem jus à riqueza de possibilidades reflexivas que os teus textos deixam sempre entrever.
ResponderEliminarSejas muito bem-vindo de volta e obrigada pela experiência que proporcionas :)