Quarta-feira, 12 de Outubro de 2011

«A Papa, O Pai, O Papá, O Papão» (*)


Primeira ida ao circo. Gostei das modalidades aéreas: o trapézio e a suspensão em cordas pela nuca ou pelos dentes; ao nível do chão: as quadrigas, os palhaços e o prodígio do homem da cartola a fazer aparecer e desaparecer quase tudo o que se possa imaginar: ovos, cartas, flâmulas, cigarros acesos, fitas longuíssimas de letras siameses, frases até.

É entre estes dois planos que me surgiu o vislumbre de um cilindro. Hoje, quase me atrevo a pensá-lo como o espaço das emoções. Na altura, tratar-se ia de um espaço intrigante. Por minha incompreensão, temor de assistir a quedas de artistas, descoordenação dos cavalos, atropelos, e no entanto, era também o espaço da alegria, da exaltação, do deslumbramento, da fantasia.

Intrigou-me a minha mãe a falar de uma Mlle Lala au Cirque Fernando sem entender a que propósito vinha a palavra Degas, de o meu pai acrescentar «O efémero e o casual no meio imóvel de um quadro do tal Degas. Há um instante em que a figura que o artista circense executa é fixada por Degas

Sagaz, a minha mãe desviou a minha atenção da petit volant e falou-me dos palhaços e do truque das letras. Eu pedi-lhe para me ensinar um truque semelhante. O meu pai largou o jornal e trouxe um saquinho de massa crua. Despejou uma pequena porção sobre a mesa da cozinha e disse-me: «Massinhas de letras. Vês. Cada uma é uma letra. O truque é agrupá-las. Experimenta.»

Não me lembro do resultado alcançado. Presumo ter agrupado mais vogais do que consoantes pela simples razão de serem cinco, logo repetirem-se mais.

Até ao fim do primeiro ano, qualquer bebé saudável começa a produzir sons. Som de consoantes. Uma litania gutural. Afinal, uma língua para cada povo como castigo para a ousadia da Babel tinha remissão. Consequência: num infantário todos os meninos se entendem e comunicam. Deve ser por outra razão que choram. Quando um começa raramente deixa de ser acolitado. Será possível que todos em simultâneo tenham o rabinho ensopado?

Não me lembro se, na utilização das vogais, disse primeiro «Papá» ou «Mamã». Espertalhão -- Eis o meu primeiro sinal -- utilizei capicuas. A primeira prova de agilidade parece-me ter ocorrido quando conjuguei as letras «Érre» e «À». Exemplo:

«Rã»

«Ázinho» nas costas do «Érre»:

«AR»

Eis um movimento inspirador para Jorge Palma

«Encosta-te a mim!»


Antes de me «Pirar» – Lá está: «IR» e «AR» subjugados ao «Pê», ao «Pi» – desta narrativa que se pretendeu circular, deixo uma inquietação: Como explicar a luminosidade da nossa infância se durante imenso tempo não somos donos do nosso destino. A explicação da nossa evolução é feita mais tarde, muito depois da sua ocorrência. Tantas vezes esquecida. Uma coisa é o relato e outra, muito diferente, a memória.

(*) Título de um filme a concurso num festival de cinema de autor (JL de 14 de Julho de 2010)



20 comentários:

  1. sAbes que nunca apreciei muito circo?
    O mais recente especáculo que vi foi em Moscovo e acentuei ainda mais o desprazer que tenho com os animais amestrados!

    Fica bem


    São

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  2. não sou um homem de letras (nem de massas) mas viajava imenso à mesa quando havia sopa de massa de letras. sabem como era: bastava escrever t-i-b-e-t-e para escalar o evereste.
    (e sim, uma coisa é o relato e outra, a memória)
    ;)

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  3. E outra coisa ainda é a experiência dela... porque a memória nem sempre é fidedigna, mas se o não for, a experiência ficará aprisionada nesses momentos de evolução eventualmente esquecidos. O relato é por terceiros... muitas vezes, também ele, fruto de memórias incompletas, inconsistentes e falíveis... :) E será preciso explicar a luminosidade da nossa infância? Beijinhos

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  4. Lembro-me de agrupar letras enquanto a minha mãe tentava que eu comesse a sopa de letras...e acabei por fazer o mesmo com os meus filhos!
    A memória é uma ratoeira onde ficamos presos...à emoção do tempo que passou!

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  5. Olá

    A memória é o "baú" da nossa vida. Não vivo sem ele. Abro-o frequentemente e de lá tiro os "novelos" de várias cores, consoante o "brilho" ou "escuridão" da recordação...
    Procuro não deixar esbatê-las...

    Parabéns pelo texto.

    Bjs.

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  6. (Sorriso).
    Nunca gostei de canja mas comia sempre quando ela era "sopinha de letras". Tentava sempre construir nomes e a sopa demorava bastante tempo a ser consumida.
    O "papá" e a "mamã" constroem as nossas memórias de forma que nunca discerniremos se o que nos lembramos é a memória ou o relato... época da imitação...
    Sempre gostei de ver o outro lado do circo.

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  7. Sabe quando eu era pequena, eramos tão pobres que muitas vezes o dinheiro só dava para o pão, que comiamos depois com legumes que o meu pai sempre consegua produzir lá na horta. Circo não vimos, nem nunca ouvimos falar. A primeira vez que vi algo do género, (nem era um circo, mas meia duzia de saltibancos e um palhaço) tinha 18 anos. Um circo a sério, só vi quando levei o filho a ver um há uns 26 ou 27 anos.
    Dá para ver que as memórias de infância não são lá grande coisa.
    Um abraço

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  8. Destas coisas a nossa amiga Eva é quem sabe. Tenho que concordar com ela.
    Lembro-me da infância, lugar de ouro, de letras e voz sopinha de massa, de circo e destes neocircos a que temos que assistir.

    bjs

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  9. e a memória nem sempre é fiável.

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  10. Sempre gostei de massa de letras na sopa, ficam lindas na canja, mas ainda esta semana entraram na sopa de feijão verde... peguei o vício ao meu miúdo... suponho que todos tentamos juntá-las... um desafio que faz com que os garotos demorem mais tempo a comer a sopa ;)

    Bjos

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  11. Este comentário foi removido pelo autor.

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  12. Memórias que se diluem no tempo mas que temos o dom de alindar. Gostei das tuas!

    beijinhos

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  13. Ó que beleza encontrar a porta entreaberta, rs fui entrando,cheguei JPD.
    e o título evoca lembranças boas , médias e as vezes nenhuma.No meu caso sem mãe que lhe ensinasse o truque da sopinha de letras ,me deliciei com o circo.
    - ficava iluminada só de ver as propagandas ,o carro que percorria os bairros da cidade pequena e íamos até ver levantar o picadeiro rs muito bom JPD amava aquilo!
    aquelas luzes,os palhaços, o colorido só lembro que fascinava-me os letreiros acesos, acendia-me a alma como até hoje quando leio bons escritores.
    Barthes dizia que se há "um objeto com o qual se pode manter uma permanente relação de prazer é a língua materna" - as tais letrinhas -assim como a criança com a mãe .
    E aí, agrupamos-as carinhosamente ,raivosamente ,amorosamente,silenciosamente.De todo modo e todos os povos.
    Adorável sua edição, como sempre .Voltastes ! que bom.
    um abraço de sexta feira , bom descanso.

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  14. Infelizmente, nem todas as infâncias são luminosas. Há muitas que são, bem pelo contrário, caracterizadas por grande sofrimento e nem memórias nem relatos são capazes de eliminar a aspereza. Já conheci muitas. O papão existe de facto, sob várias formas.
    Os seus textos já faziam falta. É sempre um prazer renovado cá voltar.
    Um beijinho, JPD.
    (já havia tentado comentar a postagem anterior, mas o "sistema blogosférico" não aderiu à minha intenção :))

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  15. Um feliz Domingo e uma semana de paz.
    Evanir

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  16. Fiquei com saudades da canja com massinhas de letras.
    Era uma guerra com os meus irmãos...
    Saudades!

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  17. Sempre me deixar fascinar pelo circo!

    Ainda hoje...

    Saudações minhas!

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  18. Oh...de fato.

    mas tens aqui um texto belíssimo...e com muito para refletir.
    Bj

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  19. Por isso o tempo é o elemento fulcral e simultaneamente de menor importância nas nossas vidas...e a memória será, talvez, a nossa redenção! (mas hoje estou muito neura, nem o teu texto me iluminou...)
    Abraço

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  20. Caro JPD, progrido na leitura dos teus textos seguindo, quase invariavelmente, a mesma sequência de estados: curiosidade, bom-humor, um misto de surpresa (só contida pela expectativa inicial da surpresa) e reflexão. Por isso, comentar-te chega a ser ingrato: Primeiro, porque é difícil expressar com rigor o apreço que estas leituras suscitam e, segundo, porque os comentários não fazem jus à riqueza de possibilidades reflexivas que os teus textos deixam sempre entrever.

    Sejas muito bem-vindo de volta e obrigada pela experiência que proporcionas :)

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