
1.
Quando eu disse que o Tiago saíra de casa e que a separação era praticamente irreversível a Teresa respondeu-me «Não desanimes, Rita. Quantos anos tens? 29. Sortuda! Dez anos para chegar aos "entas". Já viste as possibilidades que tens ao teu dispor? Sem crianças... Nem sabes como te invejo: estás a separar-te; eu ainda nem cheguei a casar. É obra, Teresa! Cheguei a dizer-te... (Bip-Bip de msn). Desculpa, Rita...» A Teresa, levemente perturbada, um leve rubor na face, apontando o telemóvel para a Rita «Se soubesses o massacre de mensagens a que estou sujeita. A toda a hora,Rita. Como é que sou capaz de aguentar tamanho flagêlo... Olha, querida, tenho de ir. Não fiques zangada comigo. Gostaria de estar mais tempo. Não vai dar. Lamento. Conta comigo. Se precisares de alguma coisa, a minha disponibilidade é total, liga-me.
A Teresa não quis saber detalhes da separação, "cusca" como é... Estranho. Desinteressou-se. Eu não a ia massacrar com a «Colagem de cacos.» Ao menos também não me sobrecarregou com o celebrado «Sê forte. Ele não presta, Blá-blá.»
Que surpresa!
Quando eu disse que o Tiago saíra de casa e que a separação era praticamente irreversível a Teresa respondeu-me «Não desanimes, Rita. Quantos anos tens? 29. Sortuda! Dez anos para chegar aos "entas". Já viste as possibilidades que tens ao teu dispor? Sem crianças... Nem sabes como te invejo: estás a separar-te; eu ainda nem cheguei a casar. É obra, Teresa! Cheguei a dizer-te... (Bip-Bip de msn). Desculpa, Rita...» A Teresa, levemente perturbada, um leve rubor na face, apontando o telemóvel para a Rita «Se soubesses o massacre de mensagens a que estou sujeita. A toda a hora,Rita. Como é que sou capaz de aguentar tamanho flagêlo... Olha, querida, tenho de ir. Não fiques zangada comigo. Gostaria de estar mais tempo. Não vai dar. Lamento. Conta comigo. Se precisares de alguma coisa, a minha disponibilidade é total, liga-me.
A Teresa não quis saber detalhes da separação, "cusca" como é... Estranho. Desinteressou-se. Eu não a ia massacrar com a «Colagem de cacos.» Ao menos também não me sobrecarregou com o celebrado «Sê forte. Ele não presta, Blá-blá.»
Que surpresa!
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Há um ano atrás, já no final do almoço, o Tiago, rasgando um sorriso de deleite, pediu à Rita a maior atenção:
Um genro angustiado e sem as ideias arrumadas, imagina o discurso, foi ter com o sogro para lhe dizer que:
«As coisas com a Amélia estava complicadas, o entendimento se perdera, a afectividade arrefecera... Era certo que tanto ele quanto a Amélia estavam a fazer um esforço muito grande e, no entanto, o débito conjugal já não era cumprido, a crise estalaria a qualquer instante...»
O sogro recostou-se, endireitou as costas, olhou para o genro, acendeu um cigarro e, após uma pausa longa , disse-lhe:
«Eu quero lá saber das vossas dificuldades. Foi você que desfez o lacinho, não foi? Então aguente-se, homem!»
Riram-se até às lágrimas.
Subitamente, muito séria, a Rita soltou:
«E se nos virmos numa 'alhada' dessas, Tiago?»
«Eu detesto premonições. O que te posso garantir é que o lacinho... Bem... Ok, ficarei com o nó!»
A Rita a insistir
«Leste «Os Nós e os Laços» do Alçada Baptista?»
«Li. Tão cedo não teremos outro título assim. Extraordinário.»
Desafiador, o Tiago perguntou:
«Quem escreveu «Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes não.»
A Rita, peremptória
«L. Tolstoi. Abertura de «Ana Karenina».
Um genro angustiado e sem as ideias arrumadas, imagina o discurso, foi ter com o sogro para lhe dizer que:
«As coisas com a Amélia estava complicadas, o entendimento se perdera, a afectividade arrefecera... Era certo que tanto ele quanto a Amélia estavam a fazer um esforço muito grande e, no entanto, o débito conjugal já não era cumprido, a crise estalaria a qualquer instante...»
O sogro recostou-se, endireitou as costas, olhou para o genro, acendeu um cigarro e, após uma pausa longa , disse-lhe:
«Eu quero lá saber das vossas dificuldades. Foi você que desfez o lacinho, não foi? Então aguente-se, homem!»
Riram-se até às lágrimas.
Subitamente, muito séria, a Rita soltou:
«E se nos virmos numa 'alhada' dessas, Tiago?»
«Eu detesto premonições. O que te posso garantir é que o lacinho... Bem... Ok, ficarei com o nó!»
A Rita a insistir
«Leste «Os Nós e os Laços» do Alçada Baptista?»
«Li. Tão cedo não teremos outro título assim. Extraordinário.»
Desafiador, o Tiago perguntou:
«Quem escreveu «Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes não.»
A Rita, peremptória
«L. Tolstoi. Abertura de «Ana Karenina».
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2.
Só a parte tangível de uma comunhão é passível de repartição.
A restante, a afectiva, a emocional, apesar de muitas vezes sujeita à prova de traições, ódio, rancor e violência, jamais estiola. Há sempre uma réstia, por ínfima que seja, que permanece.
Fomos práticos e concordantes e, por essa razão, o reconhecimento notarial das assinaturas para encerramento da divisão dos adquiridos foi rápida -- Coisa rara!
A Rita estava bem disposta e aceitou almoçar.
Trocámos trivialidades.
Não se falou de projectos pessoais.
Comentamos o impacto da separação nos nossos amigos.
Enquanto tirava a Mont Blanc do bolso do casaco para devolver à Rita, ouviu-se Bip-Bip de msn do meu telemóvel.
Não resisti a ler a mensagem.
Contendo o desagrado, a Rita tirou o seu telemóvel da mala para que eu visse que estava desligado.
Não chegamos a reiniciar a conversa porque o meu telemóvel tocou.
A Rita suspirou.
Rodei o tronco para o lado, sem sair da mesa e, ansioso, fui lacónico. Terei demorado um minuto. Talvez nem tanto. Ao virar-me, a caneta estava aberta em cima de um papel com a frase:
«Bardamerda para ti e para a Teresa!»
A restante, a afectiva, a emocional, apesar de muitas vezes sujeita à prova de traições, ódio, rancor e violência, jamais estiola. Há sempre uma réstia, por ínfima que seja, que permanece.
Fomos práticos e concordantes e, por essa razão, o reconhecimento notarial das assinaturas para encerramento da divisão dos adquiridos foi rápida -- Coisa rara!
A Rita estava bem disposta e aceitou almoçar.
Trocámos trivialidades.
Não se falou de projectos pessoais.
Comentamos o impacto da separação nos nossos amigos.
Enquanto tirava a Mont Blanc do bolso do casaco para devolver à Rita, ouviu-se Bip-Bip de msn do meu telemóvel.
Não resisti a ler a mensagem.
Contendo o desagrado, a Rita tirou o seu telemóvel da mala para que eu visse que estava desligado.
Não chegamos a reiniciar a conversa porque o meu telemóvel tocou.
A Rita suspirou.
Rodei o tronco para o lado, sem sair da mesa e, ansioso, fui lacónico. Terei demorado um minuto. Talvez nem tanto. Ao virar-me, a caneta estava aberta em cima de um papel com a frase:
«Bardamerda para ti e para a Teresa!»
os sentimentos são difíceis de conter, mas a traição magoa muito
ResponderEliminarbelo conto
Sabes que gostei muito de "Os Nós e os Laços"?
ResponderEliminarNão sei porque há tanto barulho acerca de Lobo Antunes e quase se ignora Alçada...
Um abraço
concordo que as emoções uma vez sentidas por alguém, sobram, mesmo que a relação não. e o toque dos telemóveis é pior que um discurso inteiro de negação.bjo
ResponderEliminarOlá
ResponderEliminarNos afectos temos laços e nós.Talvez mais nós que laços.
Adorei o romançe de Alçada Baptista.
Quanto ao teu texto (belíssimo) chamar-lhe-ia..."O perigo mora ao lado".
Bjs.
Lisa
As desuniões são complicadas e mais quando existe uma terceira pessoa. Hoje tudo é temporário, até o casamento mas ainda não percebi o porquê das pessoas se casarem.
ResponderEliminarJá li essas obras há tanto tempo...há quase tanto quanto aquele a que me casei. E olhe Brown Eyes, não lhe sei explicar o «porquê» de...no entanto não me arrependi ainda.
ResponderEliminarSó tu para colocares a Mont Blanc a escrever aquela frase - genial. (Tenho uma carga delas que foram presentes insípidos de gente esforçada, mas que não me conheceu. Ainda se fosse repousar o olhar no dito glaciar!).
Beijinho
Cá está uma temática que, apesar de típica, mantem a necessidade de delicadeza no tratamento. Aqui, foi tratada com a mestria do costume. Creio que apenas me apraz dizer que algumas circunstâncias constituem um verdadeiro... nó cego.
ResponderEliminar[esta semana coincidimos nos jardins... uns imaginários, outros sobejamente reais]
Um abraço.
História triste - contudo muito bem urdida - de desencontros, perdas, desilusões, laços desfeitos, deslealdades. A nossa história, a história de todos nós que deram nós...
ResponderEliminarJPD,
ResponderEliminarOs nós nas barcas eram necessários e tinham que ser bem feitos porque o sucesso da viagem dependia dessa manutenção. Todavia, um nó é algo que parece prender e coartar a liberdade.
O laço é mais delicado, faz-se para embelezar, prende mas deixa solto uma ponta de tecido... talvez perdure mais que o nó.
Eis como li o seu magnífico texto sobre as relações humanas. Não cheguei a uma conclusão plausível... há sempre perturbação.
Grata,
Bj. :)
Cortar laços é desfazer algo e implica arrependimento, permanecer enlaçado nem sempre é a melhor maneira de estar, mas há quem goste de cultivar os nós cegos. rs
ResponderEliminarSou a favor da lealdade, tão bomito gesto!
Traição comporta mágoa e doi o coração nao?
Um texto inteligente JPD como tudo que vem de ti.
Os afetos nas relaçoes , um assunto delicado e imensamente terno.
um abraço e que a semana seja leve e feliz.
abraços meus
O mundo complica-se...as emoções também...
ResponderEliminarTriste e louco, um pouco, mas verdadeiro...
Obrigada pela visita...
Beijos e abraços
Marta
Quando se fala de relações deste tipo, o laço vira um chicote que golpeia os afectos deixando o pior nó de todos, aquele que fica atravessado na garganta.Mas ninguém está imune...porque de certa forma e em todas as relações ( não só no casamento) os laços que unem também apertam de forma capaz de estrangular.
ResponderEliminarBjs