1.
Gastámos cerca de dois meses a preparar o Halloween.
A indecisão era tão acentuada que a mãe da Raquel, para ajudar, chamou a atenção para a exiguidade da paleta de cores da efeméride. Entre escolher a figura ou a cor para chegar à figura, a margem era muito apertada.
A mãe da Lu acrescentou que usássemos um padrão acetinado no tronco e da cintura para baixo o preto. Vistos de longe, à noite, a caminhar algo de leve seria observado como se vogássemos: o etéreo e a magia em sintonia.
Eu e o Pedro escolhemos ser «Feiticeiros».
Eu vesti uma camisa verde-escuro com botões metálicos-prata; túnica sobre os ombros, com corrente exuberante a cruzar o peito; varinha com um falso rubi a faiscar.
Coloquei na cabeça uma peruca de cabelo grisalho. O ensaio de uma postura grave e austera pareceu-me adequada. Um pouco de blush perola reforçou o visual.
O Pedro envergou uma camisa roxa, túnica e adereços dourados. Colocou uma peruca totalmente branca, Para acentuar o visual alvar acentuou o negro dos sobrolhos. Exibia uma postura severa.
A Raquel, vestindo uma camisa verde-azeitona com uma cinta estreita amarela, legings, adornou o cabelo com uma bandolete coriscante. No rosto apenas acentuou as maças do rosto. O ar bucólico destacou-se imediatamente no grupo. Foi uma excelente opção. Transportava uma enorme abóbora -- Fidelidade e sabedoria -- com velas a iluminá-la para que fosse visível de longe o efeito tradicional.
Haverá mistério, uma réstia de volúpia, nas festas do Diabo? A Lu escolheu ser bruxa para se aproximar dessa ideia. Quase completamente de negro, uma fita roxa na base da copa do chapéu de onde se soltava, vagamente desgrenhado, o cabelo louro-palha negligente. Acentuou as rugas no rosto para que na primeira observação as bochechas encovadas acentuassem a decrepitude. Lábios esborratados e um dente em cada maxilar pintado de preto deixava adivinhar boca mal tratada com falhas desagradáveis. Tamanha verosimilhança do envelhecimento chegava a ser repulsiva. Haveria misericórdia para a corcunda que exibia? -- Miserere!
Com o nosso desconhecimento, as mães da Raquel e da Lu combinaram com a minha tia Clara a nossa primeira passagem pela casa dela.
Fomos recompensados.
A Tia Clara fingiu desconhecer-nos e perante a nossa insistência de «Doces ou Travessura» pediu-nos que entrássemos para comer anéis de maçã -- Símbolo da vida -- com amêndoas e mel.
Estavam deliciosos.
À despedida -- Só nós sabíamos a utilidade da botija que eu transportava -- discretamente, o Pedro disse-me «Na retirada, não te esqueças de lançar fumo branco, Sérgio.»
Eu lancei.
Letárgico, o gato da Tia Clara sobressaltou-se, a seguir eriçou-se, desatou a soprar -- Pfsssss! -- saltou para cima do Sérgio arranhou-o violentamente, desaparecendo a seguir.
Totalmente inesperada, instalou-se uma enorme confusão. O Sérgio sangrava, a Raquel e a Lu gritavam, a Tia Clara desatou a chorar e as mães da Raquel e da Lu, com esforço, recuperaram a calma e serenidade do grupo.
Todos sabíamos que não estivera naquela sala um tofão. Mas tantos despojos quebrados e fora do lugar era difícil e penoso de explicar.
2.
Querido Druida
Não consigo perceber o teu comportamento: transformar o morcego-mensageiro em boomerang para devolver o relato do nosso Halloween, porquê?
O que é que está errado: a visão para além das aparências ou o nosso íntimo?
Já publicámos as fotografias no Facebook e é interminável a quantidade de «Likes» recebida.
É isso que te desagrada?
Uma descrição fantástica dos bruxos, bruxas,feiticeiros e diabos que transformaram, com as suas diabruras, a casa da tia Clara num autêntico inferno. Pobre senhora que apesar dos doces não se viu livre da diabrura. Ai, o íntimo dos meninos!
ResponderEliminarAfinal entre um tufão e um bando de diabretes em casa quase não há diferença.
Bem-hajas!
Abraço fraterno
rrsss
ResponderEliminarNão creio em bruxas, mas que as há, há!
Um abraço
O Druída é quem mistura os ingredientes para que a poção mágica possa atingir o ponto alto da magia. Por isso, transformar um morcego- mensageiro em boomerang é a chave para que se alonguem as histórias... assim também eu posso entrar na ilusão :)
ResponderEliminarBjs
Primeiro fiquei rendida à imagem, estou ainda a salivar :D
ResponderEliminarA tia Clara tão depressa não se esquece deste dia :))
beijinhos
Olá
ResponderEliminarE tu, qual Druída, fizeste com tuas palavras uma soberba poção mágica com que nos enfeitiçaste.
Os meus sinceros parabéns.
Bjs.
Lisa
À descrição dos personagens, invariavelmente exímia, adicionaste um conhecimento da efeméride que acrescentou saber ao meu (parco, muito parco...). E, claro, o corolário perfeito é o do bom humor que remata as estórias. Um bálsamo nos tempos que correm, sem dúvida! :)
ResponderEliminarUma estória digna duma verdadeira noite mística. Os anéis de maçã com amêndoas e mel...delícia.
ResponderEliminarabraço
oa.s
Excelente a subversão dos costumes, desarmante a ironia, deliciosa a conclusão!
ResponderEliminarE abençoados os gatos, que continuam a ser os meus heróis:)))))
Tias Clara...tantas por aí! Confesso que o Halloween irrita-me um pouco, pelo que tem de importação/exportação, mas lendo este teu texto magnífico fiquei encantada.
ResponderEliminarBeijo
Venho convidar-te a passares pelo "são" amanhã.
ResponderEliminarDorme bem.
"Likes" merecidos decerto, pois o texto produzido em consonância com as tais fotos no facebook está muito imaginativo, comme d'habitude!:))))
ResponderEliminarParabéns.
Bj
Apesar do bulício, a narrativa parecia sossegada ao longo do primeiro ponto. Mas não seria um texto seu sem o epílogo e a interpelação final.
ResponderEliminarFicarei a congeminar na sua segunda pergunta. É provável que tenha material para congeminar durante um longo tempo :)
Obrigada pela interpelação, mais uma vez.
Um abraço.
Olá,
ResponderEliminarTenho de confessar que não simpatizo com o Halloween, não tem nada de nosso. Já em relação ao texto, achei delicioso, como deliciosa e a fazer crescer água na boca está a fotografia.
Um óptimo fim de semana.
Kandandos... Inté
Halloween!!!Uma narrativa fantástica em tudo semelhante à realidade!!!
ResponderEliminar"Haverá mistério, uma réstia de volúpia, nas festas do Diabo?" Quem sabe? :)
"O que é que está errado: a visão para além das aparências ou o nosso íntimo?" Questão interessante...:)
Abraço Halloweeniano :)
Diabruras essas ,sempre melhor na preparação do que nos finalmentes.
ResponderEliminarAs brincadeiras do Halloween só conheço atraves de leituras e quem gosta mesmo e de direito, são os americanos do norte, capazes de perder noites a enfeitar abóboras e iluminá-las, o que acho fantático.
Aqui comemora-se em uma ou outra escola de idiomas e claro, há referencias por aí , à época.
Muito bom e voce sabe bem descrever com detalhes o aparato que exige-se de bons druidas e alguma feitiçaria.E lógico , os mimos da tia Clara que são recorrentes rs e todos nós nos deliciamos com o olhar.
JPD, uma semana feliz deseja a amiga desse brasil brasileiro , distante, mas com o coração sempre a sabor de "anéis de maças com amêndoas e mel." rs porque voce merece!
com meus abraços
JPD,
ResponderEliminarNão é só o facebook que aqui está em questão... nem tão pouco "a visão para além das aparências" numa hipotética festa de Halloween.
Voltei para o questionar:
- Será que se expõe "o nosso íntimo"?...
Oh...imagino a confusão...e as rodelas de maçã até tinham bom aspecto...raios...
ResponderEliminarLOL...
Bj
o dia das bruxas...melhor assim para nos fazer esquecer as bruxas dos dias...bjo
ResponderEliminarAlgum muito trabalho tem-me afastado dos comentários.
ResponderEliminarAgora reponho em dia a Leitura.
Saudações minhas!
Obrigada JPD...Abraço ainda Halloweeniano:)
ResponderEliminarMuito interessante e variado este blogue. Que sorte têm as bruxas...o prato tinha bom aspecto.
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