Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

FELIZ NATAL



Beijos
e
Abraços


Quarta-feira, 16 de Novembro de 2011

«Já se ia o sol ardente recolhendo» (*)


Citando Camões

(*) Abertura de


«Uma Viagem à Índia»
Gonçalo M Tavares


Mordillo


Quarta-feira, 9 de Novembro de 2011

Fui ao jardim da Celeste, jiroflé, jiroflá


1.
Quando eu disse que o Tiago saíra de casa e que a separação era praticamente irreversível a Teresa respondeu-me «Não desanimes, Rita. Quantos anos tens? 29. Sortuda! Dez anos para chegar aos "entas". Já viste as possibilidades que tens ao teu dispor? Sem crianças... Nem sabes como te invejo: estás a separar-te; eu ainda nem cheguei a casar. É obra, Teresa! Cheguei a dizer-te... (Bip-Bip de msn). Desculpa, Rita...» A Teresa, levemente perturbada, um leve rubor na face, apontando o telemóvel para a Rita «Se soubesses o massacre de mensagens a que estou sujeita. A toda a hora,Rita. Como é que sou capaz de aguentar tamanho flagêlo... Olha, querida, tenho de ir. Não fiques zangada comigo. Gostaria de estar mais tempo. Não vai dar. Lamento. Conta comigo. Se precisares de alguma coisa, a minha disponibilidade é total, liga-me.

A Teresa não quis saber detalhes da separação, "cusca" como é... Estranho. Desinteressou-se. Eu não a ia massacrar com a «Colagem de cacos.» Ao menos também não me sobrecarregou com o celebrado «Sê forte. Ele não presta, Blá-blá.»
Que surpresa!

#


Há um ano atrás, já no final do almoço, o Tiago, rasgando um sorriso de deleite, pediu à Rita a maior atenção:
Um genro angustiado e sem as ideias arrumadas, imagina o discurso, foi ter com o sogro para lhe dizer que:
«As coisas com a Amélia estava complicadas, o entendimento se perdera, a afectividade arrefecera... Era certo que tanto ele quanto a Amélia estavam a fazer um esforço muito grande e, no entanto, o débito conjugal já não era cumprido, a crise estalaria a qualquer instante...»
O sogro recostou-se, endireitou as costas, olhou para o genro, acendeu um cigarro e, após uma pausa longa , disse-lhe:
«Eu quero lá saber das vossas dificuldades.
Foi você que desfez o lacinho, não foi? Então aguente-se, homem!»

Riram-se até às lágrimas.
Subitamente, muito séria, a Rita soltou:
«E se nos virmos numa 'alhada' dessas, Tiago?»
«Eu detesto premonições. O que te posso garantir é que o lacinho... Bem... Ok, ficarei com o nó!»
A Rita a insistir
«Leste «Os Nós e os Laços» do Alçada Baptista?»
«Li. Tão cedo não teremos outro título assim. Extraordinário.»
Desafiador, o Tiago perguntou:
«Quem escreveu «Todas as famílias felizes se parecem; as infelizes não.»
A Rita, peremptória
«L. Tolstoi. Abertura de «Ana Karenina».

#

2.
Só a parte tangível de uma comunhão é passível de repartição.
A restante, a afectiva, a emocional, apesar de muitas vezes sujeita à prova de traições, ódio, rancor e violência, jamais estiola. Há sempre uma réstia, por ínfima que seja, que permanece.
Fomos práticos e concordantes e, por essa razão, o reconhecimento notarial das assinaturas para encerramento da divisão dos adquiridos foi rápida -- Coisa rara!
A Rita estava bem disposta e aceitou almoçar.
Trocámos trivialidades.
Não se falou de projectos pessoais.
Comentamos o impacto da separação nos nossos amigos.
Enquanto tirava a Mont Blanc do bolso do casaco para devolver à Rita, ouviu-se Bip-Bip de msn do meu telemóvel.
Não resisti a ler a mensagem.
Contendo o desagrado, a Rita tirou o seu telemóvel da mala para que eu visse que estava desligado.
Não chegamos a reiniciar a conversa porque o meu telemóvel tocou.
A Rita suspirou.
Rodei o tronco para o lado, sem sair da mesa e, ansioso, fui lacónico. Terei demorado um minuto. Talvez nem tanto. Ao virar-me, a caneta estava aberta em cima de um papel com a frase:
«Bardamerda para ti e para a Teresa!»


Quarta-feira, 2 de Novembro de 2011

HALLOWEEN


Anéis de maçã com amêndoas e mel

1.
Gastámos cerca de dois meses a preparar o Halloween.
A indecisão era tão acentuada que a mãe da Raquel, para ajudar, chamou a atenção para a exiguidade da paleta de cores da efeméride. Entre escolher a figura ou a cor para chegar à figura, a margem era muito apertada.
A mãe da Lu acrescentou que usássemos um padrão acetinado no tronco e da cintura para baixo o preto. Vistos de longe, à noite, a caminhar algo de leve seria observado como se vogássemos: o etéreo e a magia em sintonia.

Eu e o Pedro escolhemos ser «Feiticeiros».
Eu vesti uma camisa verde-escuro com botões metálicos-prata; túnica sobre os ombros, com corrente exuberante a cruzar o peito; varinha com um falso rubi a faiscar.
Coloquei na cabeça uma peruca de cabelo grisalho. O ensaio de uma postura grave e austera pareceu-me adequada. Um pouco de blush perola reforçou o visual.
O Pedro envergou uma camisa roxa, túnica e adereços dourados. Colocou uma peruca totalmente branca, Para acentuar o visual alvar acentuou o negro dos sobrolhos. Exibia uma postura severa.
A Raquel, vestindo uma camisa verde-azeitona com uma cinta estreita amarela, legings, adornou o cabelo com uma bandolete coriscante. No rosto apenas acentuou as maças do rosto. O ar bucólico destacou-se imediatamente no grupo. Foi uma excelente opção. Transportava uma enorme abóbora -- Fidelidade e sabedoria -- com velas a iluminá-la para que fosse visível de longe o efeito tradicional.
Haverá mistério, uma réstia de volúpia, nas festas do Diabo? A Lu escolheu ser bruxa para se aproximar dessa ideia. Quase completamente de negro, uma fita roxa na base da copa do chapéu de onde se soltava, vagamente desgrenhado, o cabelo louro-palha negligente. Acentuou as rugas no rosto para que na primeira observação as bochechas encovadas acentuassem a decrepitude. Lábios esborratados e um dente em cada maxilar pintado de preto deixava adivinhar boca mal tratada com falhas desagradáveis. Tamanha verosimilhança do envelhecimento chegava a ser repulsiva. Haveria misericórdia para a corcunda que exibia? -- Miserere!

Com o nosso desconhecimento, as mães da Raquel e da Lu combinaram com a minha tia Clara a nossa primeira passagem pela casa dela.
Fomos recompensados.
A Tia Clara fingiu desconhecer-nos e perante a nossa insistência de «Doces ou Travessura» pediu-nos que entrássemos para comer anéis de maçã -- Símbolo da vida -- com amêndoas e mel.
Estavam deliciosos.

À despedida -- Só nós sabíamos a utilidade da botija que eu transportava -- discretamente, o Pedro disse-me «Na retirada, não te esqueças de lançar fumo branco, Sérgio.»
Eu lancei.
Letárgico, o gato da Tia Clara sobressaltou-se, a seguir eriçou-se, desatou a soprar -- Pfsssss! -- saltou para cima do Sérgio arranhou-o violentamente, desaparecendo a seguir.
Totalmente inesperada, instalou-se uma enorme confusão. O Sérgio sangrava, a Raquel e a Lu gritavam, a Tia Clara desatou a chorar e as mães da Raquel e da Lu, com esforço, recuperaram a calma e serenidade do grupo.

Todos sabíamos que não estivera naquela sala um tofão. Mas tantos despojos quebrados e fora do lugar era difícil e penoso de explicar.

2.
Querido Druida

Não consigo perceber o teu comportamento: transformar o morcego-mensageiro em boomerang para devolver o relato do nosso Halloween, porquê?
O que é que está errado: a visão para além das aparências ou o nosso íntimo?
Já publicámos as fotografias no Facebook e é interminável a quantidade de «Likes» recebida.
É isso que te desagrada?



Quarta-feira, 26 de Outubro de 2011

Jardins de terraços


O declive da vinha em socalco de Sanssouci visto de longe,
desta perspectiva, parece mais acentuado do que realmente é.
Indiciando 'uma certa ideia de prédio' com jardim no terraço.
Terá sido esse vislumbre a fonte de inspiração da Luísa?



«Diz-me, deixar-me-ias chorar no teu ombro?
Ouvi dizer que experimentarias fosse o que quer que fosse pelo menos duas vezes.
(...)»
Fonte:
«AS TEORIAS SELVAGENS»
Pola Oloixarac
Ed. Quetzal

1.
Vivemos num T2 muito aprazível no terceiro andar.
Não é luxuoso, longe disso. Tem as funcionalidades básicas para um jovem casal sem filhos -- Há projectos com prazos dilatados -- fruir um quotidiano calmo e apaziguador.
Não tendo sido necessária a remodelação das redes eléctrica, de água ou de saneamento, além de alterações na cozinha instalámos soalho flutuante em toda a casa.
A nossa sustentável leveza, em dias de benquerença, chega a ser sublime.

2.
Na última reunião de condóminos, o nosso vizinho do 2º Dto, administrador, desafiou-nos a apresentar uma ideia para a utilização do terraço.
A Luísa interessou-se falando vagamente na instalação de um jardim.
Eu não dei especial atenção à ideia.
Sem considerar os custos de instalação, quem asseguraria a manutenção?
A idade média dos condóminos é muito alta. Considerando a ideia aliciante, se se chegar a esse ponto, entusiasmar-se-iam com ela, assumiriam a rotatividade até?
Na reunião seguinte, a proposta apresentada pela Luísa mereceu uma atenção que se esgotou rapidamente. Apenas a D. Dulce levantou a questão do escoamento das águas de rega do jardim. Estaria a placa convenientemente isolada para impedir humidade e o aparecimento de fungos nos tectos dos andares de baixo?
Foram asseguradas as melhores e mais exigentes precauções.

3.
O projecto da Luísa assentava nos seguintes vectores:
Se em Ponte de Lima era possível construir um jardim em 30 m2 porque não, aproveitando a ideia de vinha em terraço como em Sanssouci, construir no socalco que era o nosso terraço um jardim tão lindo como os da Princesa do Lima?
Eu não poderia estar mais de acordo com a ideia do vinho para celebração da projecto. Consumo parcimoniosamente e se, como os deuses eu nunca me embebedo, logicamente estarei acima da moral.
«Graças agora, não, Paulo!»
Num espaço a designar, erguer-se-ia uma pérgola, com portas corrediças para os dias de vento, ou para as noites mais húmidas, como garantia do convívio.
Ao lado da pérgola, um cilindro em ferro forjado encimada por uma abóboda, daria forma à Galeria dos Sussurros, à semelhança da de St. Paul Cathedral.
«Mas, Luísa, -- Interrogava, perplexa, a D. Dulce -- estaremos impedidos de falar normalmente, apenas sussurrar... Mas o quê, porquê, filha?»

4.
Mantivemos o projecto durante três anos.
Nunca presenciámos uma aurora boreal.
Apanhámos a mais recente chuva de estrelas já sem grande entusiasmo. Culpa nossa!
Gastámos imenso tempo a convencer, sem sucesso, a D. Dulce da impossibilidade do satélite, entrado na atmosfera, vir a despenhar-se no nosso jardim.
Lamentámos que a colmeia oferecida pelo D. Dulce alguma vez viesse a ser ocupada e produzisse o mel suficiente para uma receita de panquecas que ela considerava imbatível.
No segundo ano iniciámos um jardim vertical em duas paredes da pérgola.
O espaço ganhou uma certa intimidade. Enriqueceu-se.
Pela primeira vez, a Luísa assistiu ao frenesim das osgas, entre o vidro e a vegetação, insaciáveis, a comer os insectos ao alcance.
«Ahhrrrrr!!!!»

No quinto aniversário do nosso casamento, Julho de 2000, fechámos a porta de acesso ao terraço, instalámos-nos debaixo da pérgola para tomar uma refeição leve e suculenta, tilintar o cristal das flutes -- E como brilhou o champanhe nos lábios da Luísa! -- Inesquecível.
Por razões de privacidade óbvias, aquela comemoração poderá ter sido a concretização do nosso sonho de uma noite de Verão... Sem relato.

5.
Subitamente, no Verão passado separámo-nos.
Desentendimentos avulsos e falta de acordo e empenho em novos projectos.
Aqui sentado, à porta da Galeria dos Sussurros, como o Pensador de Rodin, como se estivesse no primeiro círculo do Inferno, o Limbo, qual virtuoso pagão, aguardo um vislumbre de sentido para a espera, uma longa espera que parece ser a nossa vida. Será?