O declive da vinha em socalco de Sanssouci visto de longe,
desta perspectiva, parece mais acentuado do que realmente é.
Indiciando 'uma certa ideia de prédio' com jardim no terraço.
Terá sido esse vislumbre a fonte de inspiração da Luísa?«Diz-me, deixar-me-ias chorar no teu ombro?
Ouvi dizer que experimentarias fosse o que quer que fosse pelo menos duas vezes.
(...)»
Fonte:
«AS TEORIAS SELVAGENS»
Pola Oloixarac
Ed. Quetzal
1. Vivemos num T2 muito aprazível no terceiro andar.
Não é luxuoso, longe disso. Tem as funcionalidades básicas para um jovem casal sem filhos -- Há projectos com prazos dilatados -- fruir um quotidiano calmo e apaziguador.
Não tendo sido necessária a remodelação das redes eléctrica, de água ou de saneamento, além de alterações na cozinha instalámos soalho flutuante em toda a casa.
A nossa sustentável leveza, em dias de benquerença, chega a ser sublime.
2.Na última reunião de condóminos, o nosso vizinho do 2º
Dto, administrador, desafiou-nos a apresentar uma ideia para a utilização do terraço.
A Luísa interessou-se falando vagamente na instalação de um jardim.
Eu não dei especial atenção à ideia.
Sem considerar os custos de instalação, quem asseguraria a manutenção?
A idade média dos condóminos é muito alta. Considerando a ideia aliciante, se se chegar a esse ponto, entusiasmar-se-iam com ela, assumiriam a rotatividade até?
Na reunião seguinte, a proposta apresentada pela Luísa mereceu uma atenção que se esgotou rapidamente. Apenas a D. Dulce levantou a questão do escoamento das águas de rega do jardim. Estaria a placa convenientemente isolada para impedir humidade e o aparecimento de fungos nos tectos dos andares de baixo?
Foram asseguradas as melhores e mais exigentes precauções.
3.O projecto da Luísa assentava nos seguintes vectores:
Se em Ponte de Lima era possível construir um jardim em 30 m2 porque não, aproveitando a ideia de vinha em terraço como em
Sanssouci,
construir no socalco que era o nosso terraço um jardim tão lindo como os da Princesa do Lima?
Eu não poderia estar mais de acordo com a ideia do vinho para celebração da projecto. Consumo
parcimoniosamente e se, como os deuses eu nunca me embebedo, logicamente estarei acima da moral.
«Graças agora, não, Paulo!»Num espaço a designar, erguer-se-ia uma
pérgola, com portas
corrediças para os dias de vento, ou para as noites mais húmidas, como garantia do convívio.
Ao lado da
pérgola, um cilindro em ferro forjado encimada por uma abóboda, daria forma à Galeria dos
Sussurros, à semelhança da de
St. Paul
Cathedral.
«Mas, Luísa, -- Interrogava, perplexa, a D. Dulce -- estaremos impedidos de falar normalmente, apenas sussurrar... Mas o quê, porquê, filha?»4.Mantivemos o projecto durante três anos.
Nunca presenciámos uma aurora boreal.
Apanhámos a mais recente chuva de estrelas já sem grande entusiasmo. Culpa nossa!
Gastámos imenso tempo a convencer, sem sucesso, a D. Dulce da impossibilidade do satélite, entrado na atmosfera, vir a despenhar-se no nosso jardim.
Lamentámos que a colmeia oferecida pelo D. Dulce alguma vez viesse a ser ocupada e produzisse o mel suficiente para uma receita de
panquecas que ela considerava imbatível.
No segundo ano iniciámos um jardim vertical em duas paredes da
pérgola.
O espaço ganhou uma certa intimidade. Enriqueceu-se.
Pela primeira vez, a Luísa assistiu ao frenesim das osgas, entre o vidro e a vegetação, insaciáveis, a comer os insectos ao alcance.
«Ahhrrrrr!!!!»No quinto aniversário do nosso casamento, Julho de 2000, fechámos a porta de acesso ao terraço, instalámos-nos debaixo da
pérgola para tomar uma refeição leve e suculenta, tilintar o cristal das
flutes -- E como brilhou o champanhe nos lábios da Luísa! --
Inesquecível.
Por razões de privacidade óbvias, aquela comemoração poderá ter sido a concretização do nosso sonho de uma noite de Verão... Sem relato.
5.Subitamente, no Verão passado
separámo-nos.
Desentendimentos avulsos e falta de acordo e empenho em novos projectos.
Aqui sentado, à porta da Galeria dos
Sussurros, como o
Pensador de
Rodin, como se estivesse no primeiro círculo do Inferno, o Limbo, qual virtuoso pagão, aguardo um vislumbre de sentido para a espera, uma longa espera que parece ser a nossa vida. Será?